Histórias (d)e Mulheres
Uma proposta de leitura de um romance que conta quinhentos anos de história do Brasil ou quinhentos anos de história das mulheres no Brasil. Refiro-me à obra A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas, de Maria José Silveira, publicada em 2002. Observa-se, na estrutura do romance, a relação que a autora estabelece entre ficção e história, num jogo bem undido entre vinte personagens mulheres. Apresento, desse modo, uma reflexão que incide sobre as tais personagens e o período histórico em que viveram. Entram em pauta debates morais, nos quais se afirma a periculosidade dessa prática e que resultam numa série de acontecimentos recolhidos, agrupados, organizados, de modo a constituir um anel de uma grande cadeia de fatos históricos. A cintilação destes, sem lei aparente, choca-se, mistura-se e comanda-se reciprocamente em torno de cada mulher, em cada momento de sua vida. Uma reconstituição da chegada dos portugueses ao Brasil, de 1500 até o século XXI. Ou seja, de Inaiá a Maria Flor. Entre elas, uma história de revolução constante, paciente, obscura e prudente, talvez.
- Autores:Veridiana Almeida
Outras teses e dissertações
Publicado em 1949 na França, O Segundo Sexo passou a ser uma das obras pioneiras dos estudos sobre as mulheres e das relações de gênero, sendo referência para os feminismos principalmente a partir dos anos 60 e 70. Nesta obra, ao analisar minuciosamente a “condição da mulher” na sociedade, Beauvoir compreendeu que a “figura feminina” e as posturas que lhes são atribuídas nada mais são do que construções do social produzidas ao longo da história. Partindo de uma história da leitura de O Segundo Sexo, informada pelas narrativas e pelas obras de divulgação das feministas brasileiras, este trabalho busca refletir sobre as possíveis ressonâncias que o texto de Simone de Beauvoir teria produzido no feminismo nacional.
A partir de uma análise comparativa, proponho a compreensão da maneira como três periódicos, sendo um da Argentina e dois do Brasil, discutiram as questões relacionadas ao sexo e ao prazer, que faziam parte das reivindicações do movimento feminista pós-1960, expressas pelo slogan “O nosso corpo nos pertence”. Minha intenção neste trabalho é analisar criticamente os discursos das escritoras, jornalistas e militantes que publicavam seus textos nos periódicos feministas, e também nos da grande imprensa, tendo em mente que esses escritos estiveram permeados de intencionalidade e foram produzidos em um locus específico, de mulheres que escreviam para outras mulheres. Ao lado disso, busco entender como essas representantes da imprensa feminista, parte da chamada imprensa alternativa, traziam para o seu público leitor – em sua maioria composto por mulheres – as questões pertinentes à sexualidade, ao prazer e ao corpo, que estavam sendo debatidas naquele momento pela mídia mais ampla nos dois países. O cenário das ditaduras militares completa o quadro, trazendo relações ambíguas vividas pelas feministas, de alianças políticas até o silêncio diante de alguns temas centrais do movimento, forçado pela repressão e pela ameaça do regime militar.
Esta dissertação pretende revelar como os processos econômicos, políticos e sócio-culturais, permitiram a constituição e a emergência das práticas discursivas de dez intelectuais mayas, interlocutoras neste trabalho. Além disso, coloca em evidência como os fatos de subjetivação e objetivação dessas mulheres tiveram um papel fundamental na construção de suas trajetórias bem como, de suas diversas estratégias de resistência e transgressão. Tais estratégias resultaram em uma profunda transformação pessoal, constituindo-se também em paradigmas diferentes para as próximas gerações de mulheres mayas e para a sociedade guatemalteca em geral. Adotei como ponto de partida os relatos de dez histórias de vida que tem como pano de fundo a violência extrema contra as mulheres vivida na cotidianidade guatemalteca. Destes relatos destacam-se as relações de poder, tendo como base teórica Michel Foucault, que as explica como uma força que coage, disciplina e controla os individuos através do aparato ideológico, burocrático e bélico. Essas relações de poder e suas diversas expressões serão enfatizadas a partir da intersecção com o gênero, a classe e a etnia, a fim de entender os nexos existentes entre as identidades dessas mulheres e seu trabalho político e intelectual. Epistemologicamente, a Antropologia Feminista é o eixo que guia esta etnografia, já que como ferramenta teórico-metodológica torna visível o lugar das mulheres, assim como também valoriza a questão da subjetividade e o significado da experiência individual, acadêmica e coletiva dos sujeitos da pesquisa. Paralelamente, como metodologia, revisou-se os aportes teóricos do modelo foucaulteano da “genealogia e arqueologia do saber”, para estabelecer a emergência das práticas discursivas. E, para alcançar este objetivo, se privilegiou a metodologia qualitativa, pois esta dá ênfase ao estudo dos processos sociais. Como parte da estratégia metodológica buscou-se trabalhar com a técnica de “Histórias de Vida e testemunhos”, portanto, no que se refere aos procedimentos metodológicos, cabe mencionar que a etnografia aqui não é apenas pensada como um conjunto de técnicas, mas sim como uma articulação entre dados empíricos e teóricos que acaba por fornecer, na fase final do trabalho, um texto de cunho antropológico. A importância deste estudo sobre as mulheres indígenas torna-se mais uma ferramenta para que se identifiquem eventos cotidianos de resistência e transgressão nos espaços rituais, políticos, acadêmicos, territoriais, sociais, étnicos e religiosos. Finalmente percebe-se que embora, as protagonistas desta etnografia se desenvolvam em um sistema dominante neoliberal, elas emergem com uma série de práticas discursivas, com as quais propõem e participam da construção de uma sociedade mais equitativa, enriquecendo e transformando o conteúdo simbólico, político e social das mulheres indígenas da Guatemala e, nesse sentido, das mulheres indígenas do mundo. Mulheres intelectuais mayas que como menciona Edwar Said (1996) desmistificam, que criticam, que estão sempre alertas à manipulação do poder e, sobretudo, lutam por sua independência intelectual, tanto através de seus espaços privados quanto públicos, onde elas transitam permanentemente.
Esta pesquisa se propõe a falar de leitura, na perspectiva daquilo que entende Roger Chartier: como uma prática. Nessa direção, me proponho a investigar práticas de leituras de alunos de 2º ano do Ensino Médio de três escolas de Florianópolis, com o objetivo de colher elementos que possibilitem situar em que momento a escola intervém de modo mais incisivo no processo de formação do leitor. Procuro demonstrar também outros agentes que atuam nesse processo e em que medida o livro é um bem cultural para o aluno. As práticas de leituras são rastreadas por meio da aplicação de um questionário e de entrevista oral, ambos com questões retrospectivas a respeito das histórias de leituras dos alunos. A memória, portanto, é o canal através do qual essas práticas de leituras são trazidas à luz, e é abordada na perspectiva da psicologia social, apoiando-me, entre outros autores, em Ecléa Bosi e Michel Pollak.
Nesta dissertação é debatida a questão da homossexualidade na Igreja Anglicana. Como referencial teórico, faço uso dos textos de Richard Hooker sobre Escritura, Tradição e Razão. Estes três elementos são considerados pelo anglicanismo fontes de autoridade para as questões teológicas. Desta forma são feitas considerações quanto à implicação de cada um na questão da homossexualidade. É também feita uma análise do debate em si, na tentativa de identificar a manifestação destes elementos, e como cada elemento é valorizado pelas diversas correntes anglicanas que debatem o tema hoje.
- Universidade Metodista de São Paulo
- Mestrado
- 2001
Esta tese é uma etnografia de homens de identidade pública heterossexual atestada pelo casamento que, durante viagens a trabalho, buscam novas interações sexuais, diferentes de suas práticas cotidianas, a partir de sociabilidades homoeróticas que são encontradas no ciberespaço, por intermédio dos chats. Trata-se de uma pesquisa participante realizada durante três anos consecutivos, entre 2010 e 2012, por meio da flânerie, com incursões em espaços virtuais e físicos de capitais brasileiras (São Paulo/SP, Florianópolis/SC, Campo Grande/MS, Porto Alegre/RS e Curitiba/PR) e em Lisboa, Portugal. Os dados foram coletados também por meio de entrevistas semi-estruturadas com viajantes e residentes em grandes centros urbanos. Os principais resultados encontrados remetem a um senso de “comunidade” estabelecida por homens que se reconhecem como semelhantes, onde prevalece um senso de proteção pelo segredo e pela ausência de identificação pública durante as viagens e os encontros sexuais, que são únicos e dissociados do cotidiano. Identifiquei, ainda, a demarcação de uma masculidade plenamente ajustada à heteronormatividade, que, porém, encontra no homoerotismo anônimo prazeres que representam uma inversão de poder masculino, onde a passividade sexual é o principal desejo. A viagem, que sempre permitiu essa situação de liberdade para o viajante, aparece aqui como um processo liminar de homens que, em lugar de terem uma aventura amorosa heterosexual, correspondendo ao estereótipo do homem de negócios, têm uma aventura homoerótica esporádica e clandestina, sem comprometimentos cotidianos que alterem suas relações sociais. Esta etnografia pode, assim, contribuir para um novo olhar a respeito da sexualidade, homoetorismo e liminariedade nas viagens.
Esse estudo analisa o suicídio por uma perspectiva de gênero no contexto do município de Castro, Paraná, Brasil, entre 1890 e 1940, a partir da documentação policial. Em vários dos inquéritos analisados, percebe-se que determinações sociais de gênero geraram violência e trouxeram sofrimento para muitas pessoas e isso fez com que algumas preferissem a morte em lugar de uma vida oprimida. Diferentes áreas do conhecimento têm produzido reflexões sobre o suicídio, geralmente levando em conta as percepções culturais expressas nos discursos sobre ele. Nessa tese, reflito sobre como o ato de por fim à vida tem sido pensado para em seguida buscar compreender se um tema tão difícil para a sociedade pode ser pensado pela história de uma forma em que a pessoa, sua dor e seu ato sejam o foco e não apenas o que se disse sobre o suicídio nos discursos institucionais. Os arquivos policiais permitem uma abordagem sobre o suicídio que se pauta nas experiências ali presentes, nas emoções reveladas nas narrativas das testemunhas, que eram pessoas próximas àquelas que suicidaram ou nas palavras escritas por essas próprias pessoas ao se despedirem da vida.
- Universidade Federal de Santa Catarina
- Doutorado
O estudo tem como objetivo identificar as semelhanças na vida de mulheres em situação de abuso e dependência de álcool, sobretudo ao que se refere às suas características sócio-demográficas e às relacionadas ao consumo de álcool. Trata-se de um estudo exploratório descritivo, com enfoques quantitativo e qualitativo, realizado com um total de 214 mulheres que ingressaram no Programa de Atendimento ao Alcoolismo do Hospital Universitário de Brasília - UnB - DF, desde seu início. Os dados foram coletados a partir de informações do questionário de acolhimento e triagem do Programa e de entrevistas semi-estruturadas realizadas com um grupo de dez mulheres que se encontram em tratamento. Encontrou-se que, em geral, a mulher atendida no Programa tem cerca de 40 anos, baixa escolaridade, é "do lar" ou trabalha como empregada doméstica, tem renda pessoal baixa, consome álcool em níveis considerados de alto risco para a saúde, viveu ou ainda vive em ambiente familiar de conflito ou até mesmo violento. Conclui pela necessidade de um atendimento específico às mulheres alcoolistas com a adoção de estratégias diferenciadas e criativas que leve em conta sua história de vida e suas reais necessidades.
- Universidade de Brasília
- Mestrado
- 2002
Este trabalho tem por objetivo estudar o mandato policial no Curso de Formação de Soldados da Polícia Militar de Santa Catarina. A pesquisa foi realizada junto à turma 2011-1 do Curso de Formação de Soldados da PMSC, o primeiro grupo a ingressar na corporação com curso de graduação como exigência. A pesquisa foi desenvolvida com base em um trabalho de campo que consistiu no acompanhamento de atividades práticas do curso e realização de entrevistas com alunos, instrutores e policiais vinculados à Diretoria de Instrução e Ensino da PMSC. Uma análise sobre o mandato policial ao longo dos anos permitiu verificar acentuadas mudanças naquilo que a Polícia Militar compreendia como sua esfera de atuação e competência, bem como na forma de preparação dos sujeitos policiais. Estes sujeitos, por sua vez, apresentaram uma tendência a buscar na corporação a estabilidade, segurança e possibilidades de carreira que o serviço público pode proporcionar. Para tornarem-se policiais, os sujeitos são submetidos a um rito de passagem que procura fomentar o estabelecimento de uma identidade policial em oposição ao mundo civil. Para esse processo, entretanto, corpos legítimos são selecionados e trabalhados para incorporarem um habitus que ajuda a estruturar as diferenças entre o policial e o não-policial. Durante o rito de passagem, o mandato policial é transversalizado no curso nas variadas atividades desempenhadas pelos alunos, contudo essa transversalização não ocorre de forma homogênea, mas resulta de disputas e compreensões diferenciadas sobre o “lugar” da PMSC e seu mandato. O estudo conclui não haver um entendimento homogêneo entre oficiais e praças sobre qual o mandato da PMSC, mas compreensões diversificadas e disputas pelo mandato “adequado” como capital simbólico, que geram tensões no campo.
