Instituto de Estudos de Gênero

A invenção do inimigo: literatura e fraternidade

A história dos relações familiares revela que a hostilidade, a agressão e a insensatez são práticas cotidianas, banalizadas pela freqüência com que ocorrem. Em sentido oposto, o discurso social nega essa retomada à barbárie e sustenta a unidade familiar através da solidariedade e da amizade. A literatura costuma representar essa contradição de uma forma pouco espessa, quase que a querer fugir da discussão. No entanto, poucas vezes consegue omitir o quanto há de desencontro entre os integrantes do universo familiar: o conflito entre o indivíduo e o Outro está aquém da divergência de linguagens ou de objetivos. Na cronologia dos conflitos familiares, as fratrias compõem um especial recorte. Na literatura brasileira e portuguesa o tema é abordado inúmeras vezes, destacando algumas particularidades fraternas: a rivalidade, o egoísmo, a inveja, a disputa pela progenitura, a figura paterna,... A invenção do inimigo – literatura e fraternidade se concentra em três romances escritos em língua portuguesa, Esaú e Jacó (Machado de Assis), Pedro e Paula (Helder Macedo) e Dois irmãos (Milton Hatoum), procurando comprovar uma questão que é constantemente negada: cada um dos irmãos inventa no outro o inimigo.


Outras teses e dissertações

Tese
A voz e a escuta: encontros e desencontros entre a teoria feminista e a sociologia contemporânea

Na segunda metade do século XX, e particularmente a partir da década de 60, a teoria social ocidental passou por uma série de questionamentos e revisões, que incluíam novos debates sobre a relação entre as obras reconhecidas como o cânone das diversas áreas disciplinares e as mudanças que dariam lugar a um mundo social em alguns aspectos muito diferente daquele que formou o contexto histórico das obras canônicas. Por outro lado, a emergência dos novos movimentos sociais que permitiram uma nova voz a certos grupos sociais antes excluídos da produção do conhecimento acadêmico e intelectual, também conduziu a novas interpretações da história e das relações sociais no Ocidente e no resto do mundo. Neste cenário, um dos movimentos sociais e culturais mais importantes foi o movimento feminista, que produziu dentro e fora da academia novas interpretações da história e da sociedade, a partir das experiências das mulheres e de sua problematização do que vieram a se chamar relações de gênero. Esta tese tem por objetivo o estudo de um encontro particular deste contexto: o da teoria feminista e da sociologia contemporânea. Ao mesmo tempo que surge a teoria feminista contemporânea (nascida de esforços simultâneos e conexos realizados em diversas áreas das ciências humanas), também inicia-se uma ampla revisão das perspectivas clássicas na sociologia acadêmica. A questão central deste trabalho trata das formas pelas quais a contribuição feminista é recebida no campo disciplinar da sociologia (e, de maneira mais ampla, na teoria social), constatando-se que os canais de comunicação estão apenas parcialmente abertos. Por meio dos depoimentos e observações de teóricas feministas, são levantadas algumas explicações para tal resistência. Por sua vez, o exame do trabalho de importantes sociólogos da contemporaneidade, propiciam a descoberta de alguns dos mecanismos teóricos mais concretos da recepção, incorporação ou rejeição da perspectiva feminista na sua obra. A conclusão final é a de que, apesar das resistências, a teoria feminista conseguiu fazer uma contribuição fundamental para a ampliação do campo de visão da sociologia e seu discurso sobre a modernidade. Este trabalho oferece ainda algumas sugestões teóricas e práticas para a incorporação mais plena da teoria feminista e dos estudos pós-coloniais à sociologia contemporânea, que também se beneficiaria de uma troca mais aberta com outras áreas disciplinares das ciências humanas.

  • Universidade Federal de Santa Catarina
  • Doutorado
Tese
Veja o feminismo em páginas (re)viradas (1968-1989)

O objetivo dessa dissertação é narrar uma parte da história da emergência dos movimentos feministas no Brasil entre 1968 e 1989, período não só de ditadura política, mas também de grande efervescência no que se refere à mobilização de movimentos sociais. Para isso selecionei como fonte a semanal Veja, fundada em 1968 pela editora Abril, em função da revista ter dedicado um espaço bastante significativo para noticiar reivindicações e debates feministas que aconteciam no país e no mundo. Para efetivação dessa proposta, escolhi para análise: as capas que abordam problemáticas feministas; a seção de entrevistas, denominada Páginas Amarelas, por sempre ter grande repercussão junto ao público e por ter cedido espaço a uma série de feministas e não-feministas; e por último a coluna de humor Millôr, em função do extenso alcance que atinge de entendimento junto a leitoras e leitores, além da frequência com que o jornalista responsável pela coluna, Millôr Fernandes, refletia sobre o tema feminismos. Metodologicamente me aproprio de ferramentas interessantes à história da disciplina análise do discurso, buscando perceber como os discursos veiculados por Veja sobre feminismos funcionaram como um instrumento de divulgação do ideário feminista naquele contexto. As seções selecionadas como documentos permitiram a divisão dos capítulos de forma sistemática: no capítulo 1 exploro as capas com o intuito de articular o debate proposto pela revista com o contexto adjacente, ou seja, relação da publicação com o cenário de ditadura e também com a discussão sobre os feminismos; no capítulo 2 analiso a seção Páginas Amarelas, espaço reservado a entrevistas com uma série de feministas e celebridades que comentaram os feminismos como acontecimento; e no capítulo 3, o último, reflito sobre a coluna de humor Millôr que entendo ter contribuído significativamente para a visibilidade das reivindicações feministas. Com essa proposta busco colaborar para a construção da história dos feminismos no Brasil que, em função do que representou a ditadura civil-militar, teve muitas de suas histórias não-contadas.

Tese
Fragmentos de um conflito: memórias de Amira Hass, a única jornalista israelense a viver em territórios palestinos

Esta pesquisa aborda a trajetória profissional da jornalista Amira Hass e o conflito palestino-israelense, mais especificamente a vida cotidiana dos palestinos de Gaza e da Cisjordânia, com um recorte temporal de 1993 a 2005. Minha intenção neste trabalho é, através das lentes de Amira, relatar o dia-a-dia do conflito palestino-israelense nos Territórios Palestinos, e mostrar como a jornalista está inserida nesse contexto. Utilizo como fonte os seus três livros publicados, uma entrevista realizada em Ferrara, o meu diário de campo nos territórios ocupados, entrevistas que Amira concedeu a outros periódicos e o diário que sua mãe, Hanna Lévy-Hass, escreveu no campo de concentração nazista de Bergen-Belsen. Mais do que um mergulho nas questões de Israel ou dos Territórios Palestinos, este é um mergulho no universo de Amira Hass. A pesquisa está inserida no que se convencionou chamar de História do Tempo Presente e utiliza a História Oral, a etnografia e o gênero como ferramentas teórico-metodológica de abordagem. O trabalho se divide em três partes: o primeiro capítulo trabalha a construção da memória familiar de Amira Hass, que é filha de sobreviventes do Holocausto, e a sua formação profissional. O capítulo 2 aborda a ida da jornalista para Gaza e o capítulo 3 é sobre a vida de Amira em Ramallah. Todos os capítulos, além de estarem permeados pela história de Israel e dos Territórios Palestinos, abordam os relatos do cotidiano e de gênero produzidos pela jornalista. Na pesquisa, pude observar que a narrativa de Amira Hass, com a sua memória familiar, a memória de mulheres e homens palestinos e os sentimentos da intimidade, pode nos aproximar da história. Os escritos pessoais também são um “acervo histórico” e essa fonte, a obra de Amira, ajuda-nos a ler a história nas entrelinhas, seja a história dos judeus que sobreviveram ao Holocausto, seja a história do conflito entre palestinos e israelenses, um dos maiores dramas políticos do nosso tempo.

Tese
As Diferenças na Diferença: hierarquia e interseções de geração, gênero, classe, raça e corporalidade em bares e boates GLS de Florianópolis, SC

Esta dissertação procura apresentar uma visão contingente das configurações hierárquicas vigentes na cena GLS em Florianópolis, de maneira a debater certas manifestações da heterogeneidade social dos sujeitos circulantes pelos bares e boates pesquisados. Para tanto, discute a tendência local à desqualificação social das diferenças, questão que no exame das sociabilidades homoeróticas denominei de diferenças na diferença. Meu trabalho apresenta as contradições no discurso de alguns dos sujeitos envolvidos na indústria do entretenimento GLS o qual tende a se amparar em uma afirmação de igualdade entre todos os freqüentadores das casas noturnas estudadas, discurso esse que possui fissuras e inconsistências especialmente quando analisadas as interseções de marcadores sociais como geração, gênero, raça/cor da pele, corporalidade e classe social com homoerotismo. Dessa forma, a análise dessas interseções demonstra não apenas a crítica ao discurso igualitário citado, mas principalmente a existência de um gradiente hierárquico que posiciona determinados sujeitos conforme a presença (ou não) de certos atributos sociais valorizados (ou desvalorizados) localmente. A pesquisa foi realizada seguindo os métodos e técnicas tradicionais da antropologia: observação-participante com os sujeitos em foco, assim como a análise de panfletos de festas e revistas gratuitas distribuídas nos contextos das festas GLS da cidade.

Tese
É, vida loka irmão: moralidades entre jovens cumprindo medidas socioeducativas

O presente trabalho é fruto de uma pesquisa com jovens em duas instituições que aplicam as chamadas medidas socioeducativas, uma de internação e outra de semi-liberdade. Assim, os sujeitos da pesquisa são jovens que o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, classifica como “adolescentes em conflito com a lei”. O foco da pesquisa são os sistemas de percepção e avaliação do mundo acionados pelos jovens, que operam distinguindo o bem do mal, o justo do injusto, como princípios de ação. O objetivo da pesquisa é, a partir da temática das moralidades, construir um modelo interpretativo atento às múltiplas dimensões de suas experiências - como um caminho para evitar a captura destes sujeitos exclusivamente sob a forma de “vítimas” ou “vitimadores” - e provocar o deslocamento analítico do “sujeito-vítima” para o “sujeito-agente”. A ideia é ver a experiência “vivida” como um tema genuíno de investigação, para melhor compreensão das formas culturais da vida. Para tanto, a categoria “vida loka” funciona como um ponto de partida, pois é acionada pelos próprios sujeitos como uma chave de interpretação e de significação para suas experiências e trajetórias. Em resumo, o texto procura mostrar a necessidade de se considerar a multivocalidade dos sujeitos em “conflito com a lei”, e faz uma crítica da leitura focada exclusivamente nos direitos do sujeito, apontando o rendimento analítico da leitura dos sujeitos dos direitos.

Tese
Espiritualidade, Saúde e as artes de cura no contemporâneo: indefinição de margens e busca de fronteiras em um centro terapêutico espírita no sul do Brasil

A partir do estudo de caso em uma instituição na qual trabalham médicos, enfermeiros, religiosos, leigos e terapeutas esta tese analisa os modos contemporâneos como as fronteiras entre distintos sistemas terapêuticos são continuamente constituídas e desestabilizadas por sujeitos envolvidos em processos de saúde-doença, sejam eles pacientes ou curadores. O esforço de totalização de um sistema terapêutico separado do outro esbarra nos modos como eles são acionados simultaneamente pelas pessoas em estados de aflição e sofrimento, e como durante esse processo há uma produção de práticas e discursos que perpassam e se distribuem tanto por arcabouços conceituais biomédico-terapêuticos quanto religioso-espirituais. A pesquisa etnográfica foi realizada em um centro de tratamento para pacientes com câncer e doenças degenerativas localizado na cidade de Florianópolis (SC) que está vinculado a uma instituição espírita. O tratamento oferecido neste espaço constitui-se na aplicação de uma série de terapias alternativas/complementares e na realização de cirurgias espirituais. A partir desse cenário, analiso como religião e ciência, espiritualidade e medicina, têm sido articulados em meio a disputas políticas e por legitimidade que ora buscam separar, ora unir esses campos na construção de retóricas e práticas terapêuticas contemporâneas. A heterogeneidade de práticas, sujeitos e discursos presentes nessa instituição colocou em evidência os modos através dos quais os lugares da religião e da medicina têm sido questionados e resituados pelas pessoas doentes que, de forma geral, não operam com as distinções impostas por um modelo racionalista centrado exclusivamente no biológico, e tampouco abrem mão do direito à saúde enquanto uma forma de cidadania. As performances de cura realizadas nessa instituição apresentam dinâmicas criativas difíceis de serem cristalizadas em modelos generalistas, pois estes obscureceriam as complexas relações políticas, estéticas, terapêuticas e espirituais presentes nessa instituição que refletem questões mais amplas observadas no campo da saúde e da religiosidade brasileiras.

Tese
Cinco Histórias: Sete Vidas. Narrativas biográficas de Clarice Lispector

Esta dissertação investiga o conceito de biografia em cinco textos escritos por mulheres sobre a vida da escritora Clarice Lispector, com o propósito de discutir as possibilidades discursivas e de leitura deste gênero literário. Um dos questionamentos primeiros do trabalho foi: se os textos são tão diferentes e deles surgem várias Clarices, se não há uma homogeneidade, são biografiasl Buscou-se, a partir daí, estabelecer uma posição de leitura que prestigiasse a versatilidade do gênero biográfico e o interrogasse, especulando sua postura transgressora. O biógrafo pode assim ser visto como alguém que arromba a porta do quarto alheio, puxa gavetas, abre portas; desarruma móveis e roupas. O biógrafo pode também ser visto como alguém que, apesar de desordeiro, e por ter tirado as coisas do lugar, impõe a si limites.

Tese
Os irmãos de Hilda Hilst. Transtextualidade e experiência interior

Esta pesquisa apresenta um biografema da escritora, poeta, dramaturga e pensadora Hilda Hilst (1930-2004), a partir da experiência interior que se delineou em sua escrita. São fragmentos que revelam a coesão de uma obra centrada em temas relativos aos principais questionamentos filosóficos e espirituais da humanidade, numa poesia que se revelou em cada gênero onde Hilda inaugurou diferentes linguagens, na prosa, na dramaturgia e na crônica. Sua experiência interior, aquela propalada por Georges Bataille, foi moldada nas leituras atentas, transcritas em toda forma de poesia, da sagrada à profana, a partir de muitas afinidades eletivas. Neste trabalho, uma das principais pistas para o entendimento de sua teia intertextual, foi fornecida pela própria escritora, que transferiu a leitura para a vida, quando chamou de irmãos aos escritores Franz Kafka (1883 – 1924), Ernest Becker (1924 – 1974), Samuel Beckett (1923 – 1989), Nikos Kazantzákis (1883 – 1957), Carl Gustav Jung (1875 – 1961) e Hermann Broch (1886 – 1951).

Tese
Discursos sobre menstruação em comunidades do Orkut: gênero, corpos e materialidades no ciberespaço

Este trabalho analisa discursos sobre menstruação em posts de comunidades do Orkut em seu caráter de acontecimento e em suas interfaces com corpo e gênero. Debate como as materialidades desses discursos podem marcar os corpos generificados, produzindo suas materialidades. É um estudo qualitativo, de abordagem interdisciplinar, que combina preceitos do método etnográfico adaptados para ciberespaços, com reflexões sobre os discursos, o poder e o saber, fundamentadas em escritos de Michel Foucault. A tese se constitui em apresentar o ciberespaço do Orkut como lugar com história e geografia próprias, cujos fóruns das comunidades são loci privilegiados de enunciação nos quais se fala recorrentemente de muitos silêncios que cercam o tema tabu menstruação em jogos discursivos atravessados por interdições. Além disso, apresenta as falas observadas nos fóruns como tendo potencial para questionar os saberes e poderes acerca dos corpos femininos que circulam com status de verdades científicas no âmbito de conhecimentos biomédicos, mas, muitas vezes, relacionados a desconhecimentos sistemáticos sobre a fisiologia feminina.

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