Agosto: Os (D) Efeitos do Real
O romance Agosto, de Rubem Fonseca, publicado em 1990, marca um espaço privilegiado da suspensão dos limites entre o vivido e o inventado, o que nos coloca ante a questão da representação do real. Este trabalho procura mostrar como uma maneira de armar produz uma forma de 1er o corpo, a cidade e a Historia, enquanto fragmentação, labirinto e circularidade. A reflexão da conjugação ou transgressão das fronteiras entre o real e o inventado passa pela análise das situações e instâncias narrativas, através das quais se modela a realidade, e pela abertura do texto à própria historicidade. Nesse trânsito do texto aos intertextos e nessa relação sobredeterminada do romance Agosto com seu próprio tempo encontramos elementos para se pensar a interpenetração dos discursos literário e histórico.
- Autores:Stélio Furlan
Outras teses e dissertações
A literatura hebraica moderna não nasceu em Israel e sim na Europa, principalmente oriental, a partir da Haskalá, o movimento iluminista judaico, em meados do século XVIII. No século XX ela foi migrando do solo europeu para a Palestina, que se tornou seu principal centro. Nas décadas de 20 e 30 predominava a produção poética, da qual uma das correntes, profundamente ligada ao pioneirismo, ensejou uma vasta messe cuja temática inspirava-se no labor do pioneiro que viera concretizar a aspiração de reconstruir o país através do trabalho na terra. Além disto, marcou a presença da mulher na poesia, da qual Rachel foi uma de suas principais representantes e modelo que seria seguido por décadas. A escolha da obra de Rachel como objeto de estudo deveu-se ao desejo de realizar uma leitura ampla de sua poesia, desenvolvendo aspectos pouco abordados da mesma, sob as perspectivas literária, judaica e psicanalítica, visando a gerar contribuições aos estudos de literatura hebraica, especialmente à feminina. Procuramos identificar e analisar, correlacionando, os temas mulher, amor e morte em sua obra. Ao traduzir seus poemas, foram percebidas ambigüidades e polissemias que permitiram múltiplas leituras do texto. Pretendemos desconstruir a atribuição à poesia de Rachel de um estereótipo de simplicidade, descentrando a imagem da poeta da dicção pioneira e, além de um outro olhar vinculado à etnia, resgatar e repensar sua fala de gênero, a alteridade da mulher, em termos universais e multiculturais, procurando contribuir para conferir a Rachel, a poeta que cantou o amor à terra e ao país, o lugar merecido no cânone da poesia hebraica.
- Universidade de São Paulo
Esta pesquisa busca analisar como gays, lésbicas, travestis, bissexuais e transsexuais são tratados nos meios de comunicação de massa, identificando aspectos da cultura local e nacional que facilitem a sua aceitação social e mapear os locais frequentados por positivantes da homossexualidade como forma de combater a homofobia, levando informações corretas a quem tem uma imagem distorcida da contra sexualidades não-hegemônicas por um discurso científica e politicamente mais correto, para que os homossexuais possam ter uma vida mais prazerosa e saudável e sem a necessidade de ocultar o(s) seu(s) amor(es).
- Universidade Federal de Santa Catarina
- Mestrado
- 1998
A presente tese tem como objetivo dar historicidade à emergência e ao percurso do "campo teologia feminista" na Concilium, Revista Internacional de Teologia. Fundada em 1965, durante um considerável período de sua história, esta revista apresentou suas edições através de fascículos que contemplavam as diversas disciplinas teológicas tradicionais. Em 1985, surgiu no interior deste periódico o fascículo "Teologia Feminista", que foi publicado até o ano 1996, num total de seis edições. Estes fascículos são analisados nesta tese não apenas como um "espaço de mulheres", mas sim como um "campo" no qual a teologia feminista, através das teólogas (os) e mulheres de diversas áreas de conhecimento que ali se fizeram ouvir, passou das fronteiras ao palco, adquiriu o "cetro", um "lugar" de legitimidade e, portanto, de fala autorizada. Os discursos fabricados neste "microcosmo" dão a ler estratégias, lutas, embates, relações de poder, jogos de verdade, desejos, enfim um movimento em meio ao qual foram construídas identidades tanto do "ser teóloga feminista" como do "saber teologia feminista", dando visibilidade também a representações sobre "femininos" e "masculinos". Este jogo de identidade/identificação ocorre na relação estabelecida com os "Outros" com os quais a teologia/teólogas feministas dialogam, seja esse diálogo de aproximação - neste caso, com os movimentos e estudos feministas - ou de contestação - como ocorre com relação à Igreja e à teologia tradicionais.
- Universidade Federal de Santa Catarina
- Doutorado
Helena Kolody, carbono & diamante – uma biografia ilustrada conta a vida da escritora Helena Kolody, a partir de sua inscrição na literatura, questionando sua identidade, o mundo que a cercava e o sentido de sua existência. Equivale a dizer: em sua lírica, reflexões e sentimentos se entretecem a partir de uma matéria pessoal e localizada. Da estação ferroviária à estação tubo; da Ucrânia ao centro de Curitiba; de Paisagem interior a Reika; do século XIX ao século XXI, a literatura de Helena Kolody gerencia sua presença na consolidação do binômio artevida. O retrato da autora acaba se constituindo também por meio de farto aparato iconográfico; pelos mais de quinhentos textos críticos elencados e por sua obra completa. Fragmentação deliberadamente assumida, a pessoa se revela em sua inteireza.
A literatura contemporânea escrita por mulheres demonstra como o contexto histórico e sociocultural em que as personagens femininas são construídas afeta a percepção das personagens quanto a seu corpo e seu self. Romances como os de Margaret Atwood exploram a corporalidade, ou, em outras palavras, a experiência material, social, cultural do corpo feminino, que inclui o corpo físico, emocional e o das funções mentais em suas interligações com o mundo. A tese investiga conceitos relacionados à questão do gênero: o desconforto do corpo feminino enraizado nas relações sociais e a experiência material do corpo nos romances escritos por Margaret Atwood, O Olho do Gato (1989) e Dano Corporal (1981). A pesquisa centra-se na articulação literária e nos temas principais acerca dos problemas de ser mulher, na análise da relação entre o corpo biológico e o conceito cultural do corpo, na crítica das representações sociais de mulheres e na possibilidade de transformação individual e social. A análise é tecida por meio da literatura, juntamente com um diálogo entre os textos pesquisados e trechos da escrita criativa escritos pela pesquisadora, refletindo a visão pós-estruturalista que inclui o observador dentro dos fenômenos observados, funcionando como uma ponte entre o analítico e o criativo, o acadêmico e o orgânico, bem como entre outras dicotomias históricas.
Neste trabalho, analiso a emergência do sujeito travesti em Fortaleza (CE), seu surgimento como nova personagem público-midiatizada e estigmatizada, na passagem do tempo das perucas para o tempo dos hormônios, este último, chamado de tempo farmacopornográfico (virada da década de 1970 para 1980). Problematizo esse processo de subjetivação farmacopornográfico a partir de uma análise foucaultiana e de gênero-queer das fontes históricas (jornais, revistas, obras literárias, antropológicas e narrativas orais de travestis). Se, no tempo das perucas, o termo travesti designava uma prática eventual, restrita aos espaços privado e/ou público-temporário, no tempo farmacopornográfico, a palavra também passou a nominar um novo sujeito sexual, que ganhou inteligibilidade heteronormativa, em grande parte, graças aos meios de comunicação, como um "tipo" de homossexual marcado pela ambiguidade. Tal emergência foi acompanhada por discursos e práticas de excitação-fascínio e de controle-estigma. Nessa trama-tempo marcada por embates, as travestis produziram contra-discursos que contribuíram para rearranjar as normas de gênero, sexualidade, corpo e do público-privado em Fortaleza.<br>
- Universidade Federal de Santa Catarina
- Doutorado
Esta dissertação discute o filme Brokeback Mountain (2005, dirigido por Ang Lee) sob a ótica de estudos de sexualidade e identidade nacional. O filme, que ganhou prêmios importantes e foi aclamado pelo grande público, trouxe bastante controvérsia também, na medida em que mostra cowboys que têm práticas homossexuais. Esta dissertação examina como o filme, apesar de parecer conservador pelo fato de que os homens nunca saem do armário e pelo seu final infeliz, ainda promove agenciamento na medida em que traz o que Judith Butler chama de performatividade paródica. Ademais, também há uma discussão de como o filme, ao trazer a subversão do mito do cowboy através da homossexualidade, representa um “queering” da identidade nacional dos Estados Unidos imaginada com base em tal mito.
No conjunto das narrativas ficcionais da escritora brasileira Ana Miranda, a temática da viagem – considerada uma das mais férteis da literatura ocidental de todos os tempos – ocupa um espaço de centralidade, podendo até mesmo ser vista como o mais importante eixo de estruturação de suas obras. O estudo realizado pela presente tese tem por objetivo analisar o tratamento dado ao tema da viagem nos romances Desmundo, O retrato do rei, Dias & Dias e Amrik, evidenciando que por intermédio das narradoraviajantes – Oribela, Mariana, Feliciana e Amina – a autora promove um diálogo entre diferentes culturas, gêneros, etnias e gerações, ao mesmo tempo em que estabelece um profícuo diálogo com o passado em sua invariante problematização concernente aos limites e cruzamentos entre o discurso ficcional e os discursos narrativos extraliterários que o cercam, sobretudo o histórico e o biográfico.
Esta dissertação tem por objetivo mostrar como a autora espanhola Rosa Montero refuta em seus romances o amor romântico e o casamento burguês tradicional, por ver nestes a manutenção da ordem patriarcal de gênero. Para justificar tal ideia, faço uso da teoria do contrato sexual desenvolvida principalmente por Carole Pateman, juntamente com os conceitos em torno do amor romântico e do casamento burguês. Feito esse embasamento teórico, parto para uma leitura cronológica da obra de Montero, com o intuito de mostrar como, no decorrer dos quase trinta anos de sua carreira literária, a autora começa a construir um outro modelo de amor, baseado na igualdade das relações cotidianas, a que chamaremos de amor democrático. Procuro, assim, demostrar a negativa feita por Rosa Montero do amor romântico e o surgimento, em sua obra, do amor democrático.
