Instituto de Estudos de Gênero

Guerrilha do prazer: Rita Lee Mutante e os textos de uma transgressão

No final dos anos 60, sob forte repressão ditatorial com a vigência do AI-5 e vivendo a luta armada, o Brasil presenciou o surgimento de um movimento que se colocou de forma singular ao lado das manifestações de crítica e resistência à ditadura, e que ganhou igualmente as ruas, buscando, no humor e na irreverência munição para discutir um vasto espectro de códigos de conduta e de valores. Esse movimento foi chamado Tropicalismo. De origem baiana, o Tropicalismo desenhou uma idéia edênica de ser brasileiro, em meio às muitas influências internacionais propostas pelas revoltas de 68. Do sul, em meio ao movimento, uma nova imagem de mulher foi exposta por Rita Lee, uma garota hippie-tropicalista, integrante do grupo musical de rock Os Mutantes. Esse grupo, mais alinhado com a proposta hippie internacional, problematizou temas predominantemente urbanos. Rita Lee, na interseção dessas duas idéias, projetou uma imagem que propôs formas libertárias e hedonistas para fazer frente à política, à estética, à ética, à sexualidade e às manifestações religiosas, até então amplamente aceitas. Com uma perspectiva bakhtiniana, o presente trabalho analisa 23 canções e 12 imagens do grupo onde a paródia e o plurilingüismo comprovam os meios utilizados para a busca de novas fronteiras sensoriais rumo à inserção do múltiplo. Os Mutantes, e em especial Rita Lee, construíram, assim, uma obra sonora e performática na tentativa de expandir os limites impostos pelo Estado e a sociedade daquele período.


Outras teses e dissertações

Tese
Tanta coisa guardada: memórias de leitura

Esta pesquisa se propõe a falar de leitura, na perspectiva daquilo que entende Roger Chartier: como uma prática. Nessa direção, me proponho a investigar práticas de leituras de alunos de 2º ano do Ensino Médio de três escolas de Florianópolis, com o objetivo de colher elementos que possibilitem situar em que momento a escola intervém de modo mais incisivo no processo de formação do leitor. Procuro demonstrar também outros agentes que atuam nesse processo e em que medida o livro é um bem cultural para o aluno. As práticas de leituras são rastreadas por meio da aplicação de um questionário e de entrevista oral, ambos com questões retrospectivas a respeito das histórias de leituras dos alunos. A memória, portanto, é o canal através do qual essas práticas de leituras são trazidas à luz, e é abordada na perspectiva da psicologia social, apoiando-me, entre outros autores, em Ecléa Bosi e Michel Pollak.

Tese
Mulheres em movimento (s): Estudo etnografico sbre a inserção de feministas e lésbicas em movimentos sociais institucionalizados e autônomos na cidade de Porto Alegre/RS

Estudo etnográfico sobre a inserção de mulheres lésbicas e feministas em movimentos sociais e suas articulações, a partir de duas redes identificadas como Institucionalizada, uma, e Autônoma, a outra. De um lado, estão grupos do movimento constituídos de modo formal, registrado, muitas vezes associados com o poder público, programas e políticas governamentais, nas três esferas, sendo financiados para suas atividades, publicações, realização de seminários, congressos e para manutenção de seus escritórios. Do outro, estão grupos articulados em Coletivos independentes, redes informais, grupos virtuais, que não tem sedes, financiamentos, ou parcerias com quaisquer outros grupos institucionalizados, e também não formalizam convênios ou aceitam financiamentos, sejam nacionais, governamentais, internacionais. A pesquisa, realizada entre outubro de 2009 e fevereiro de 2010, na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, verificou que os modos de atuação das duas redes muitas vezes mais se parecem do que se diferenciam, mas as questões relacionadas às agendas lésbicas e feministas são abordadas de maneiras bastante conflitantes na maioria dos casos, seja por questões políticas, institucionais, ou mesmo pessoais das ativistas que foram interlocutoras durante o campo. As aproximações, os distanciamentos, e a diversidade contemporânea dos movimentos sociais e seus ativistas, neste caso aqui lésbicas e feministas, no contexto urbano de Porto Alegre, é o que está apresentado aqui.

Tese
Dar ul maraftan *, morada dos que precisam ser acorrentados : contribuição ao estudo das relações de poder na instituição psiquiátrica

O presente trabalho realiza uma avaliação das modalidades e dos instrumentos com que o poder apresenta-se permeando as relações no Hospital Psiquiátrico Colônia Santana em Santa Catarina, Brasil. A instituição é abordada pela ótica de GOFFMAN e o Poder estudado desde uma perspectiva de FOUCAULT. Foram eleitos dois pontos especiais "de relação" para serem estudados: a intersecção entre a equipe médica e de enfermagem e o particular espaço criado na relação dos internos com os atendentes. Este estudo visa contribuir às transformações possíveis na instituição psiquiátrica no Brasil.

  • Universidade Federal de Santa Catarina
  • Mestrado
Tese
A pesquisa fora do armário : ensaio de uma heterotopia queer

Este trabalho problematiza as experimentações da sexualidade de jovens que se auto-identificam como lésbicas, gueis, travestis, heterossexuais, bissexuais e transexuais e que aderiram a uma ação de saúde, no campo das doenças sexualmente transmissíveis/ hiv e aids. Além de seu caráter de enfrentamento à epidemia, a intervenção permitiu-nos analisar os modos como os jovens produzem experimentações na sexualidade face à homofobia presente na sociedade brasileira. O estudo é orientado metodologicamente pela perspectiva da pesquisa-intervenção e os seus resultados apontam para alguns dos limites e das possibilidades das ações de saúde junto ao público juvenil. No que se refere ao acesso e à produção da cultura da diversidade sexual e consolidação dos direitos humanos, este estudo indica que as atividades do grupo de jovens possibilitaram a construção de um locus de reflexividade ética e de ocupação agonística da cidade; uma vez que estes jovens vivem no avesso de dois dispositivos de normalização; ou seja, da hetero e da homonormatividade, evidenciadas na íntima relação da normalização sexual com a desigualdade econômica. Assim, a ação buscou transformar as condições de vulnerabilidade, explorando as possibilidades de deslocamento de uma posição abjeta para a de cidadão de direitos pela via da reflexão e da ampliação das redes de sociabilidade. Este efeito foi buscando principalmente na formulação de estratégias coletivas de enfrentamento das capturas identitárias ligadas à estigmatização da pobreza na sua associação com as sexualidades ditas marginais. O Projeto Gurizada, Saindo do Armário e Entrando em Cena foi realizado pela ONG nuances - grupo pela livre expressão sexual, atuante em Porto Alegre; em cooperação com a UNESCO, o Programa Nacional de DST/AIDS e a Coordenação Estadual de DST/AIDS da Secretaria da Saúde do RS. A pesquisa-intervenção foi realizada em conjunto com o Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional da UFRGS.

  • Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Tese
Photoéthnographie des indiens Guarani de SC/ Brésil

Esta tese insere-se nas discussões de Antropologia Visual, buscando promover uma interação entre uma narrativa imagética e uma reflexão etnográfica. A partir de um trabalho desenvolvido entre os Guarani da aldeia Yynn Morotĩ Wherá , localizada no município de Biguaçu, no litoral sul de Santa Catarina, procurou-se refletir sobre as diferentes formas de ver os índios no Brasil e sobre a apropriação e o uso de imagens em contextos indígenas. A tese apresenta uma mudança de postura nas construções visuais. Primeiro, por parte dos indígenas, que estão descontruindo imagens esterotipadas e fabricando múltiplas auto-images, as quais recebem funções específicas de acordo com o contexto na qual estão inseridas: por um lado, se apresentam como elemento de afirmação identitária ou de salvaguarda da memória coletiva, por outro, buscam travar um diálogo com o “Outro” que não consegue ver os índios para além de imagens préconcebidas. Segundo, por parte da antropóloga-fotógrafa, utilizando uma metodologia diferenciada de inserção em campo e de interação com os sujeitos pesquisados, bem como produzindo uma narrativa etnográfica na qual texto e imagem são inseridos de forma a constituir um diálogo. Neste trabalho a fotografia é colocada no mesmo plano que a etnografia, ou seja, como expressão-discurso.

Tese
Porcelain Madonnas and Fleshy Tramps: the construction of female Characters in Dr. Jekyll and Mr. Hyde 1920, 1931 AND 1941 Films

Este estudo objetiva analisar a construção das personagens femininas em três adaptações fílmicas do conto The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde (1886) escrito por Robert Louis Stevenson. O primeiro filme analisado é o de John Stuart Robertson de 1920 seguido pela versão de 1931 de Rouben Mamoulian e finalmente a refilmagem de 1941 de Victor Fleming. A análise é baseada nos Estudos de Gênero e Estudos de Cinema. Sugere-se que os elementos fílmicos Mise-en-scene, Cinematografia e Edição são ferramentas essenciais para a construção de personagens, neste caso, as personagens femininas. Os Estudos de Gênero focam no relacionamento entre os personagens masculinos e femininos, especialmente na questão do silenciamento e invisibilidade das mulheres. No caso do presente estudo, o retrato da era Vitoriana é igualmente importante para a construção das personagens femininas. Assim, sugere-se que os elementos fílmicos ajudam a construir essas personagens como contraste em relação ao protagonista e antagonista. Nos três filmes as mulheres são claramente classificadas como sendo boas ou más seguindo a ideia Maniqueísta. Entretanto, nota-se que os protagonistas e antagonistas homens têm a capacidade de se dividir em dois (duas personalidades) e portanto podem ser considerados personagens mais complexos do que as mulheres que são vistas como unilaterais.

Tese
As filhas do vento e O céu de Suely: sujeitos femininos no cinema da Retomada

O objeto de estudo desta pesquisa são os filmes As filhas do vento (2005) de Joel Zito Araújo e O Céu de Suely (2006) de Karim Aïnouz. O ponto forte desta investigação está em ver/ler nas entrelinhas do texto visual, como se dá a representação do sujeito feminino em condição de exclusão social e como ocorrem as estratégias de (micro)poder relacionadas a esses sujeitos. Tendo o gênero como categoria de análise, teorias feministas estão no embasamento teórico da pesquisa. A partir das concepções sobre o sujeito feminino, isto é, o sujeito do feminismo e a conceituação de Tecnologia de Gênero de Teresa de Lauretis, analisam-se a representação de mulheres, assim como de lugares, de estratégias e formas de poder nas suas relações, na ideologia do gênero, nesses filmes brasileiros. Concentra-se a análise nas ações e nos discursos das protagonistas, mas também, no discurso sobre elas e as suas relações intersubjetivas. Para se delimitar o tema, a fim de estudálo de maneira mais profunda, optou-se por identificar a exclusão social, através do conceito de interseccionalidade de Kimberlé Crenshaw – também conhecida como “discriminação composta” e verificar como acontecem as discriminações cruzadas de gênero, de raça, profissional e cultural na diegese fílmica e no discurso de algumas personagens. A análise sobre exclusão social que, neste texto, está diretamente ligada às questões de discriminação e de poder, parte de conceitos de subalternidade, de Gayatari Spivak, e diáspora, de Stuart Hall, para terminar as considerações sobre as formas que as protagonistas enfrentam a subalternidade. Finalmente, o estudo apresenta entrevistas, feitas aos diretores dos filmes e às atrizes, cujos papéis eram centrais nas narrativas. As entrevistas ilustram ao mesmo tempo em que complementam as análises fílmicas.

Tese
Etnografia e fotografia: reflexões sobre as fotografias etnográficas de Pierre Fatumbi Verger

A relação entre a fotografia e a etnografia nos estudos da Antropologia, apesar de antiga e densa, é incerta e complexa. Se por um lado a fotografia é a cada dia mais utilizada nos trabalhos antropológicos, por outro sua potencialidade como algo além da ilustração e de uma técnica de interação com o Outro é pouco explorada. A partir do exemplo, do legado, da trajetória de vida e, principalmente, da obra de Pierre Fatumbi Verger, esta pesquisa se dedica a analisar essa relação. Francês radicado na Bahia na década de 1940, Verger é conhecido mundialmente tanto por seu trabalho como fotógrafo quanto pelas suas pesquisa etnográficas. Há, entretanto, uma indefinição quanto à razão desse reconhecimento, e examinar as suas razões oferece um profícuo campo de reflexão sobre a pesquisa etnográfica, especialmente quando relacionada ao universo das imagens fotográficas. A Fundação Pierre Verger é a instituição que atualmente abriga o acervo do fotógrafoetnógrafo e onde foi realizada a pesquisa de campo através da qual, aliada à leitura de fotografias relacionadas ao candomblé em suas manifestações na África e na Bahia, foi criada uma metodologia de análise das fotografias que privilegia as interações e os diálogos como espaço de construção de definições sobre a etnografia. Pelo contato com a Fundação, seus freqüentadores e o acervo fotográfico ali disponibilizado, esta pesquisa pretende refletir sobre a etnografia e a construção de um olhar etnográfico em relação direta com o exercício da fotografia.

Tese
De Rachel a Rachel: mulher, amor e morte

A literatura hebraica moderna não nasceu em Israel e sim na Europa, principalmente oriental, a partir da Haskalá, o movimento iluminista judaico, em meados do século XVIII. No século XX ela foi migrando do solo europeu para a Palestina, que se tornou seu principal centro. Nas décadas de 20 e 30 predominava a produção poética, da qual uma das correntes, profundamente ligada ao pioneirismo, ensejou uma vasta messe cuja temática inspirava-se no labor do pioneiro que viera concretizar a aspiração de reconstruir o país através do trabalho na terra. Além disto, marcou a presença da mulher na poesia, da qual Rachel foi uma de suas principais representantes e modelo que seria seguido por décadas. A escolha da obra de Rachel como objeto de estudo deveu-se ao desejo de realizar uma leitura ampla de sua poesia, desenvolvendo aspectos pouco abordados da mesma, sob as perspectivas literária, judaica e psicanalítica, visando a gerar contribuições aos estudos de literatura hebraica, especialmente à feminina. Procuramos identificar e analisar, correlacionando, os temas mulher, amor e morte em sua obra. Ao traduzir seus poemas, foram percebidas ambigüidades e polissemias que permitiram múltiplas leituras do texto. Pretendemos desconstruir a atribuição à poesia de Rachel de um estereótipo de simplicidade, descentrando a imagem da poeta da dicção pioneira e, além de um outro olhar vinculado à etnia, resgatar e repensar sua fala de gênero, a alteridade da mulher, em termos universais e multiculturais, procurando contribuir para conferir a Rachel, a poeta que cantou o amor à terra e ao país, o lugar merecido no cânone da poesia hebraica.

  • Universidade de São Paulo

Inscreva-se para receber nosso boletim

Inscrever-se