Instituto de Estudos de Gênero

Maternidade e HIV/AIDS: um olhar psicanalítico

Esta dissertação procurou estabelecer, a partir da teoria e escuta psicanalíticas, relações entre as vivências simultâneas da maternidade e da infecção pelo HIV, em mulheres atendidas em ambulatório especializado no tratamento e prevenção do HIV/Aids, que tiveram o diagnóstico durante a gestação ou até o terceiro mês de vida do bebê. Tanto a maternidade como a doença são construções histórico-culturais, com valorações antagônicas e associadas a representações socialmente compartilhadas, produzindo efeitos de subjetivação. Enquanto que a maternidade é associada à transmissão da vida e a um ideal de amor e doação, conferindo maior valoração à mulher que se torna mãe, o vírus HIV e a Aids são associados ao adoecimento e à morte. Pessoas infectadas pelo HIV, especialmente mulheres, são consideradas promíscuas e estigmatizadas, existindo a fantasia de que mulheres que têm relações estáveis estão a salvo da infecção. No Ocidente, sob a influência de diversos saberes e do cristianismo, foi estabelecida uma dicotomia entre a maternidade e o erotismo. Assim, se a sexualidade era legitimada nos homens, a sua expressão nas mulheres era vista como sinal de desvio de conduta, visão que ainda hoje produz efeitos nas práticas e valores morais compartilhados socialmente. Freud, ao atribuir à sexualidade um lugar central na constituição do sujeito, associada aos desejos inconscientes e voltada essencialmente à obtenção de prazer, dá-lhe outro estatuto, desvinculando-a da finalidade reprodutiva, ao mesmo tempo em que restitui à mulher seu corpo erotizado. Apesar dos esforços das instituições sociais para conter a sexualidade por meio de normas, ela extravasa os limites estabelecidos. A busca de prazer coloca as mulheres em condição de maior vulnerabilidade, em decorrência das assimetrias, culturalmente justificadas e validadas, nas relações de gênero. Essa assimetria coloca grande parte das mulheres em uma posição de submissão frente ao homem, o que se evidenciou nas falas das mulheres atendidas no ambulatório. Para muitas pessoas, ainda prevalece a visão dicotômica entre a mulher recatada e a que vivencia sua 10 sexualidade livremente. As mulheres que contraem o vírus através da prática sexual, sem que tenham uma relação estável, são desqualificadas, enquanto que aquelas que foram infectadas pelos maridos, são vistas como vítimas de uma fatalidade. Assim, grande parte das mulheres atendidas, infectadas pelo vírus, temia que sua condição fosse descoberta e relutava em contar ao companheiro sobre essa condição. Tinham medo de serem abandonadas, receavam não mais poder dar expressão à sua sexualidade e muitas delas, em suas fantasias, temiam sofrer violência física. Além desses receios, comuns a outras mulheres, as gestantes expressavam medo de transmitir o vírus ao filho, o que as fazia viver um conflito, e muitas achavam que não poderiam ser boas mães, uma vez que não poderiam amamentar. Assujeitadas aos valores vigentes, elas próprias sentiam-se destituídas de valor. Propiciar a essas mulheres um espaço de fala e escuta, possibilitou a muitas delas a oportunidade de re-elaboração subjetiva de fantasias relacionadas à condição de soropositivas, proporcionando-lhes a busca de novas formas de lidar com a realidade e com o outro.


Outras teses e dissertações

Tese
Dizem Que Sou Louco: Um Estudo Sobre Identidade e Instituição Psiquiátrica

O objetivo deste trabalho é analisar as relações entre o poder médicopsiquiátrico e a incorporação da ideologia manicomial por parte de sofredores psíquicos internados através de suas representações sobre o manicômio, sobre si mesmos e sua família. Analisamos também as propostas de reformulação do manicômio e se existem diferenças nas representações dos internados em função do tempo de permanência no manicômio. Para isso foram realizadas análises de prontuários, observações e entrevistas com os internados que foram divididos em dois estratos: 18 entrevistados de curta permanência e 10 de longa permanência. A análise das representações nos permite concluir que a instituição é vista diferentemente por parte dos pacientes de longa permanência, isto é, acima de 5 anos de internação e pelos de curta permanência, até 5 anos. Essas diferenças estão condicionadas pela perspectiva de sair ou não do manicômio, da relação com a família e do processo de deterioração psicofísica que sofrem na instituição. O manicômio é visto pela maioria dos entrevistados de curta permanência como uma prisão, onde estão contra sua própria vontade. Enfatizam o caráter rotineiro e despersonalizante, sentem-se inseguros e vivenciam a internação como um castigo, resistindo à identificação com à instituição. Nos entrevistados de longa permanência é possível perceber a predominância da incorporação da ideologia manicomial, aceitam o manicômio como o lugar deles, um lugar onde têm assegurada sua sobrevivência. Esta tendência permanece quanto à incorporação da ideologia manicomial na definição de si mesmos; nos dois estratos percebe-se a perda progressiva da identidade que tinham. Finalmente os entrevistados consideram o manicômio necessário, justificando-o através da incorporação do discurso psiquiátrico sobre a periculosidade da loucura e tendo em vista a proteção da sociedade.

Tese
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS SOBRE AIDS - Um estudo Etnográfico sobre Travestis em Atividade de Prostituição

Esta pesquisa foi realizada entre 1990-93, na cidade do Rio de Janeiro, em áreas de prostituição de travestis. O estudo teve como objetivo a compreensão dos modelos de explicação sobre AIDS utilizados por estes atores sociais, sua influência em determinadas formas de conhecimento e o impacto destas no processo epidêmico.

  • Escola Nacional de Saúde Pública
  • Mestrado
Tese
Il ruolo del femminile nel pensiero di Johann Jakob Bachofen

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  • Università Degli Studi di Roma La Sapienza
  • Doutorado
Tese
Das dimensões da coragem: socialidades, conflitos e moralidades entre travestis em uma cidade no sul do Brasil

Esta etnografia trata do universo de socialidades vivenciado por travestis femininas que se prostituem em uma cidade de médio porte situada no sul do Brasil. Além da organização política entre as travestis da cidade, caracterizada por limites territoriais e por fidelidades a distintos sistemas de valores, este trabalho descreve, dentre outros aspectos, as redes de solidariedade que contribuem para seus projetos migratórios, a comunicação através das fofocas e da jocosidade e o complexo conjunto de moralidades que ordena e hierarquiza as relações entre as sujeitas. Caracterizam-se, ainda, os riscos, as violências e os conflitos que se fazem presentes em seu cotidiano, sobretudo no que diz respeito às relações que se desenvolvem no contexto da prostituição. Por fim, relatam-se, através de fragmentos da trajetória das sujeitas da pesquisa, experiências de discriminação e/ou de acolhimento em espaços de socialização como a família e a escola, bem como agenciamentos em torno da carreira prostitucional.

Tese
Retalhos, vivências: um ensaio sobre a crônica de Rachel de Queiroz nas páginas de O Cruzeiro

Esta tese tem por objetivo o estudo da crônica de Rachel de Queiroz (1910-2003) publicada na revista O Cruzeiro no decênio de 50. Proponho uma avaliação ensaística da sua contribuição para o gênero e tento detectar a relevância de sua escrita para a crítica e a historiografia literárias. Com um amplo repertório de crônicas, publicadas por cerca de 77 anos, Rachel de Queiroz escreveu sobre os mais diferentes temas e estratégias discursivas na imprensa brasileira. Perpassado por leituras multidisciplinares, este estudo está dividido em cinco partes: anotações sobre o campo biográfico e um breve perfil do periódico; breves percursos teórico e histórico sobre a crônica; levantamento das crônicas que tematizam questões ligadas às mulheres e à literatura de autoria feminina, e, por último, crônicas que tratam de algumas facetas do artesanato da escrita.A análise da crônica de Rachel de Queiroz, portanto, é uma oportunidade de ampliação e (re) configuração do seu repertório literário na cena brasileira do século XX.

Tese
Canto de mulher - um estudo de representações da conjugalidade no imaginário de mulheres de camadas populares

Este estudo descreve as representações de vivências da conjugalidade, com o objetivo de apontar os determinantes histórico-culturais presentes na formação dessas representações.

  • Universidade Federal do Rio Grande do Norte
  • Mestrado
Tese
Os Corpos narrados: Clarice Lispector e José Antônio Garcia

Toda história contada fala também sobre aquele que a conta. O Corpo, conto de Clarice Lispector e o filme homônimo, adaptado por José Antonio Garcia, são o objeto desta pesquisa. Os temas aparentemente banais dos textos ficcionais de Clarice Lispector revelam toda uma complexidade que problematiza as reações humanas diante dos impasses cotidianos, o que dificulta a tarefa dos cineastas enquanto leitores de sua obra. Essa problemática da releitura é o que procuro demonstrar através de minha abordagem sobre a transposição do conto O Corpo para a linguagem cinematográfica, ou seja, como eu enfoco a forma de contar a história da escritora e a adaptação (ou tradução, recriação, inspiração) do cineasta, as aproximações e distanciamentos entre conto e filme, procurando especialmente destacar a importância de uma obra adaptada como completa em si, um outro texto, uma outra história mesmo quando não deseja apagar a (importante) marca autoral.

Tese
Sylvia Plath e a construção da fama

O presente trabalho tem por objetivo propor um estudo teórico a respeito da fama póstuma de uma escritora suicida, Sylvia Plath. A notoriedade que a poeta norteamericana atingiu não se restringe apenas ao âmbito da literatura, pois encontra repercussão também nas manifestações da cultura de massa. Assim, em busca dos suportes contextuais que a teriam transformado em mito e ícone do século XX, um diálogo reflexivo com a cultura, a literatura e as formas de consumo é proposto. Ao fazer uso das ferramentas metodológicas da Teoria da Literatura e dos Estudos Culturais, esquadrinham-se os elementos responsáveis pela invenção da fama, dentre os quais merece destaque o campo das representações biográficas, a tarefa da avaliação crítica e o lugar de recepção do leitor comum. A partir dessas três frentes principais desdobram-se outros temas fundamentais para a época em questão e que contribuem sobremaneira para a manifestação do fenônemo da fama: a espetacularização da sociedade, a prática do voyeurismo, a transformação da negatividade em objeto de negociação, a estetização da morte via indústria cultural, a midiatização e mercantilização dos indivíduos, a celebrização das personalidades e a perda de objetos de referência na sociedade moderna. As linhas interpretativas levantadas oferecem a possibilidade de leitura da celebrização da vida trágica de Sylvia Plath como produto cultural pertencente à dinâmica dos objetos na sociedade de consumo.

Tese
Crimes sexuais em Joinville (1916-1950): relações de gênero e discurso jurídico nos processos crime de estupro e defloramento

Este trabalho tem o objetivo de analisar os processos de crimes sexuais da Comarca de Joinville produzidos entre os anos de 1916 a 1950. A imprecisa noção jurídica de honestidade norteava os discursos de todos os envolvidos em tais processos, pois determinava se as vítimas dos crimes de estupro e defloramento/sedução eram ou não merecedoras da proteção da Justiça. A constante tentativa empreendida pelos operadores do direito de enquadrar uma moça como honesta ou desonesta levava a um perscrutamento cabal da vida desta: as suas condições de trabalho e lazer, se andavam desacompanhadas pelas ruas da cidade, a influência dos familiares em sua conduta e (nos casos de defloramento/sedução) a natureza de seu relacionamento com o acusado. Com relação à conduta dos acusados de crimes sexuais, por sua vez, raras eram as ocasiões em que uma atitude investigativa era realmente empreendida, demonstrando assim que tais processos se tratavam mais de um julgamento do proceder das vítimas do que dos próprios acusados. Além da constatação dessa nítida discriminação de gênero praticada pelos operadores do direito, o caráter multiétnico de Joinville (cidade que recebeu grande leva de imigrantes europeus em meados do século XIX) também influenciou de maneira importante o desenrolar dos processos de crimes sexuais nessa comarca, pois as relações entre descendentes de colonizadores europeus e brasileiros (de sobrenome português) eram muitas vezes conflituosas e marcadas por uma segregação étnica evidente. A noção de infância presente nos autos de crimes sexuais será objeto de análise na parte final desta dissertação, bem como o discurso jurídico elaborado pelo advogado Marinho de Souza Lobo, bacharel responsável pela defesa de muitos dos acusados de crimes sexuais no período estudado. Para a realização de tal proposta analítica, empreendemos o cruzamento de nossas fontes centrais (os processos crime) com a bibliografia já produzida sobre o tema em questão, trabalhos que nos fornecem ferramentas metodológicas úteis para a leitura das fontes, e documentos produzidos na época estudada, como jornais, obras de juristas conceituados e legislação em vigência. Por fim, em tais processos é clara a existência de uma justiça de gênero , tanto na aplicação das leis, como no recebimento das denúncias na delegacia de polícia. Antes de qualquer coisa, havia um julgamento moral da conduta das mulheres, que deveriam provar em sua personalidade a existência do extremamente subjetivo conceito de honestidade .

  • Universidade Federal de Santa Catarina
  • Mestrado

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