Renata Orlandi
Este trabalho aborda o exercício da paternidade na adolescência, a partir da investigação de sentidos que adolescentes pais atribuem à paternidade e à sua participação nas práticas de cuidados dos filhos. Para tanto, oito adolescentes pais com idades entre 16 e 19 anos foram entrevistados, tendo eles sido localizados no ambulatório de atendimento pré-natal ou na maternidade do Hospital da Universidade Federal de Santa Catarina. Por intermédio da análise do discurso dos sujeitos entrevistados, buscou-se compreender o movimento dinâmico, histórico e cultural de atribuição de sentidos à paternidade e ao lugar paterno no cuidado dos filhos. Entre os oito participantes, dois planejaram a gestação junto à parceira, cinco deles não haviam planejado a gravidez, mas consideravam o filho desejado e um deles não considerou a paternidade planejada nem desejada, mas ainda assim considerou-se feliz em ser pai. A dificuldade em lidar e, especialmente, de negociar com a parceira o uso de métodos preventivos denuncia a escassez e/ou a ineficácia de políticas públicas voltadas para a emancipação da população jovem na esfera dos direitos sexuais e reprodutivos. Os sujeitos consideraram que foram pais do primeiro ou do segundo filho “cedo” e o hipotético adiamento da paternidade estava relacionado, principalmente, à espera pela conquista da estabilidade financeira e em alguns casos, à conclusão dos estudos objetivando o mesmo fim, sendo estes os principais aspectos também citados para a contra-indicação da paternidade a um amigo com idade próxima à sua ou como critérios para avaliar se alguém tem condições de tornar-se pai, ainda que alguns entrevistados não apresentassem tais condições. O aspecto etário não foi destacado na avaliação da precocidade da paternidade. Todos os participantes destacaram a vinculação amorosa com os filhos como uma das atribuições do pai. Os sujeitos entrevistados também atrelaram a paternidade à educação e à proteção dos filhos, atribuições diretamente relacionadas ao estabelecimento de regras e limites a estes, sendo que a maior parte destes pais pretende compartilhar com as mães das crianças tais negociações. Apesar de associarem a paternidade ao exercício de cuidados dos filhos, os participantes atribuem ao pai uma maior responsabilidade pelo provimento, em consonância com prescrições tradicionais de gênero circulantes em nossa sociedade que delegam ao pai o lugar de provedor da família. Ainda que estes sujeitos tenham declarado sua disponibilidade para participar dos cuidados demandados por seus filhos, a ênfase estava em localizar o pai como um coadjuvante, cabendo a ele auxiliar a companheira a realizar esta tarefa. Na medida em que o lugar do pai no cuidado é delineado em contraste com o da mãe, identifica-se uma maior valorização desta a quem, nesse ínterim, é delegada maior responsabilidade pelo cuidado dos filhos.
- Autores:Paternidades nas adolescências: investigando os sentidos atribuídos por adolescentes pais à paternidade e às práticas de cuidados dos filhos
