
Mulheres e trabalho doméstico no Brasil
Divulgamos a pedido da professora Soraia Carolina de Mello, professora do Departamento de História da UFSC e integrante do IEG que respondeu às questões sobre a desvinculação da imagem feminina ao trabalho doméstico.
A jornalista Heloísa Noronha do Cucas conteúdo, contatou a agência de comunicação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 7 de março, com questões para o portal Terra. Ela pediu para contatar especificamente alguma fonte do Instituto de Estudos de Gênero (IEG) para uma matéria com o tema "Desvinculação da imagem feminina ao trabalho doméstico".
Divulgamos abaixo, a pedido da professora Soraia Carolina de Mello, professora do Departamento de História da UFSC e integrante do IEG que respondeu às questões, as suas respostas. Mantemos assim a transparência e o acesso público no que diz respeito à circulação das informações e do conhecimento produzido, com recursos públicos, na UFSC e no IEG.
09 de março de 2022.
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Boa tarde,
Meu nome é Soraia Carolina de Mello, sou professora do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e pesquisadora vinculada ao Instituto de Estudos de Gênero (IEG) na UFSC. Meu currículo pode ser acessado neste link: http://lattes.cnpq.br/7470003514048395
Seguem as respostas por escrito. Peço desculpas pelas respostas sucintas, o assunto é bem mais complexo, mas o espaço para o debate é limitado.
- Em que momento da história a imagem feminina passou a ser vinculada ao trabalho doméstico? Por quê?
Diferentes sociedades e diferentes agrupamentos humanos dentro das sociedades possuem histórias distintas. Assim, é importante fugirmos das generalizações, porque elas apagam as histórias de muitos povos. Tendo essa questão em vista, podemos pensar no Brasil contemporâneo, industrializado, onde a maior parte da população vive em áreas urbanas. Esta é uma sociedade onde a colonização impôs e continua impondo determinações de gênero e modelos de domesticidade, europeus e mais tarde norte-americanos, que se convencionou chamar de "ocidentais". Este modelo de domesticidade específico, de divisão estrita de esferas, pública como masculina e privada como feminina, dentro das sociedades industrializadas, pode ser localizado a partir principalmente do século XIX, tendo na Inglaterra vitoriana e nas famílias burguesas (que não eram nem aristocracia, nem classes trabalhadoras sem posses) um espaço de desenvolvimento modelar no século XIX, que se espalha ao redor do mundo com o Imperialismo. A ideia de lar afastado do trabalho (como se no lar não se desempenhasse trabalho), de lar como refúgio do espaço público, da cidade, da competição, "do mundo", e de lar como um espaço "feminino', é um modelo muito desenvolvido neste período. Isso não quer dizer que o Ocidente não tenha outros momentos históricos em que a divisão público x privado centrada no gênero tenha ocorrido, como na antiguidade grega, mas são contextos e organizações sociais muito diferentes das nossas sociedades industriais contemporâneas. Podemos pensar em como os EUA no pós Segunda Guerra, no século XX, com o american way of life, também impõem muitos modelos de feminilidade ligados ao doméstico, através de filmes, da publicidade etc. Importante citar que estas determinações de gênero são modelos, nem sempre as pessoas ou as famílias conseguem cumpri-las, e diferentes grupos sociais vivem de diferentes modos mesmo dentro de um mesmo município, por exemplo. Mas fica evidente que existe uma imposição da associação entre mulheres e domesticidade em diferentes estratos sociais no Brasil (ver estatísticas do IBGE sobre uso do tempo, coletadas pelas PNADs). A própria ideia do que é "ser mulher", nessas culturas ocidentalizadas industriais, é construída subjetivamente através do doméstico, do privado. Para muitas camadas da população, cumprir esses modelos é muito difícil, quando não impossível, mas eles circulam como modelos hegemônicos.
Sobre esta questão recomendo a leitura de HALL, Catherine. Sweet home. In: PERROT, Michelle (Org.). História da vida privada, 4: Da Revolução Francesa à Primeira Guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 53-87. Sobre o american way of life no pós-guerra, recomendo FRIEDAN, Betty. Mística feminina. Petrópolis: Vozes, 1971 (tem uma edição nova).
- Vivemos um momento em que uma das principais lutas do movimento feminista é a divisão justa de tarefas domésticas entre o casal. O que as mulheres precisam fazer para tornar esse desejo de equilíbrio viável na prática? E o que os homens podem fazer?
A própria maneira que a pergunta está posta reproduz essa divisão injusta de tarefas entre o casal. Se espera que as mulheres “devem”, "precisam" fazer algo para resolver a questão, enquanto os homens "podem"; ou seja, a ação deles é opcional, a delas, obrigatória. Esta ideia é corrente, é socialmente e culturalmente construída em cima de estereótipos que afirmam que este é de fato um problema das mulheres. Algo que as mulheres podem fazer é "parar de fazer”, deixar de executar as tarefas. O 8 de março tem sido uma data marcada pelas chamadas de greves das mulheres, para evidenciar o volume de trabalho que prestam gratuitamente às sociedades. Sabemos que a questão não é assim tão simples, mas é importante que se veja como um problema de todas as pessoas, homens, mulheres e pessoas não bináries, porque todas as pessoas dependem do trabalho doméstico para viver, em especial da maneira que a nossa sociedade em geral se organiza (cozinhas e habitações privadas, organizadas por núcleo familiar ou outros arranjos privados). Então esta é uma questão pública e política, não é simplesmente privada, não é um problema "do casal". O valor do trabalho doméstico para a sustentabilidade da vida e a questão de justiça social que envolve sua divisão equitativa no que se refere a gênero (e classe, e raça) é uma questão política, pública, e deve ser debatida e resolvida na esfera pública. O debate sobre questões de gênero nas escolas, desde a Educação Fundamental, por exemplo, é de suma importância para termos avanços nesse setor. Além disso, toda a comunidade deve agir de modo a redistribuir estas tarefas e reconhecer o seu valor. Políticas públicas de coletivização dessas tarefas podem ser também um importante caminho, como creches, restaurantes populares, lavanderias coletivas. Claro que algo pode ser feito também nos nossos círculos privados. Os homens devem chamar a atenção de seus colegas e amigos que deixam estas tarefas todas nas mãos das mulheres que os cercam; devem ensinar seus filhos que existem outros modelos de masculinidade que não a hegemônica, profundamente machista; devem tomar responsabilidade sobre suas casas, sua alimentação, sua saúde e suas roupas, assim como sobre sua família, como esperamos das pessoas adultas. Se o benefício do trabalho doméstico é coletivo, a responsabilização também deve ser, é uma questão básica de justiça social.
- No Brasil, especificamente, quais os obstáculos nesse percurso?
São principalmente determinações culturais, sociais e econômicas. Podemos chamar de determinações de gênero, que naturalizam essa associação entre mulheres e trabalho doméstico. Ou seja, afirmam como natural essa relação que é construída, é ensinada, é histórica (ou seja, pode mudar, porque a história muda, se ensinam outras coisas, a relação pode ser reconstruída de outros modos). Não é natural mas se afirma o tempo todo que é. As mulheres não têm "mais jeito" para a limpeza e para a casa, elas são socializadas desde a primeira infância desse modo, são educadas assim. Os homens de modo geral se beneficiam desse arranjo, mas as determinações de gênero podem pesar aos homens que não conseguem corresponder totalmente a elas (e ninguém consegue!). Ninguém consegue ser forte, corajoso, destemido o tempo todo. Nem sempre conseguem ser os principais provedores financeiros da família, apesar da maior parte das empresas pagarem mais ou darem mais acesso aos melhores cargos a eles em detrimento às mulheres. Então o obstáculo está em reeducar as pessoas a partir de uma perspectiva de justiça de gênero, de divisão equitativa das responsabilidades e das benesses sociais. Em uma sociedade com marcada desigualdade social, racismo estrutural e exploração capitalista em expansão, fica muito mais difícil. A carestia de vida tem afetado profundamente a população brasileira e as mulheres (com maior impacto nas racializadas e mais pobres) são as principais vítimas, porque chefes das famílias monoparentais, porque são aquelas que fazem as compras e preparam as refeições com um salário mínimo que consegue pagar, talvez, uma cesta básica e meia. Além disso, no próprio capitalismo, as camadas mais ricas da população muito enriquecem com o trabalho doméstico não pago que as mulheres desempenham para a sociedade. Se cada trabalhador fosse pagar uma lavanderia, um restaurante, os salários precisariam ser mais altos. Como as mulheres fazem "de graça" (às custas de seu tempo, de sua saúde, de seu sono, de seu acesso à educação etc.), os salários de modo geral podem se manter mais baixos. Se ninguém fizesse este trabalho, a população adoeceria, por falta de higiene e alimentação adequadas, e não existiria força de trabalho viável. Esses setores abastados enriquecem também com a desvalorização profunda do trabalho doméstico, de limpeza e serviços gerais remunerado, prestado em suas casas e em suas empresas, com salários cada vez mais desvalorizados, apesar dos indicadores mostrarem que os mais ricos estão cada vez mais ricos. Aconselho buscar estatísticas recentes sobre o uso do tempo por gênero nos lares no Brasil; sobre o aumento do custo de vida e desvalorização do salário real; e sobre o enriquecimento das camadas mais altas da população, sobretudo após a pandemia. Também recomendo este artigo: https://periodicos.uff.br/trabalhonecessario/article/view/45884/28409 A professora Hildete Pereira de Melo tem pesquisado a questão no Brasil por décadas.
- Alguma consideração extra?
A questão do trabalho doméstico não é simplesmente uma questão privada, dos casais. É um assunto público, nos afeta como sociedade, e perpassa não só questões de gênero como raciais e de distribuição de renda. A estrutura social desigual é sustentada por essa divisão do trabalho que sobrecarrega as mulheres, mas principalmente as mais pobres e racializadas. Ao mesmo tempo, a estrutura econômica desigual retroalimenta a desigualdade de gênero, raça e classe, porque depende dela, de forma interseccional, para existir. O racismo e o sexismo permitem moralmente os salários mais baixos e a superexploração do trabalho pago e não pago. Em um mundo de exploração capitalista extremada, onde as mulheres racializadas são as mais mal pagas, não se resolve a questão da divisão de tarefas apenas "conversando em casa". Isso não quer dizer que o debate sobre igualdade de gênero e racial não seja urgente, em casa e na sociedade (a casa faz parte da sociedade!). Ele é, e afeta diretamente questões materiais. O trabalho doméstico cruza gênero classe e raça, e diz respeito à esfera pública e à privada. O trabalho doméstico sustenta a esfera pública com base na reprodução de desigualdades. A questão do trabalho doméstico também não é um problema só das mulheres, a busca por soluções não pode ser "jogada" nas costas delas, as sobrecarregando ainda mais. Caso contrário, só reproduzimos a lógica de naturalização do doméstico como "feminino" que, reafirmo, é uma questão cultural e historicamente construída e, portanto, passível de transformação.
Sobre a questão racial e o trabalho doméstico recomendo a leitura de DAVIS, Angela. Capítulo 13: A obsolência das tarefas domésticas se aproxima: uma perspectiva da classe trabalhadora. In: DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016, p. 225-244 e VERGÈS, Françoise. Um feminismo decolonial. São Paulo: Ubu, 2020.









