Jamil Snege: Como ele se fez por si mesmo
A história da literatura brasileira (provavelmente, como as histórias literárias de outros países) é marcada pela omissão de autores cuja obra – de inegável valor estético e importância cultural – é conhecida, apenas e por diversas razões, no restrito limite do local onde é produzida. Daí ser uma das funções da crítica e da investigação acadêmica a tarefa de reler o passado remoto ou recente, descobrindo valores extraviados entre os bens culturais solidificados e postos em evidência, a fim de permitir a renovação/atualização do patrimônio literário e ampliar as possibilidades de entendimento de determinada tradição. A presente pesquisa foi buscar em Curitiba a obra do escritor e publicitário Jamil Snege – um desconhecido no restante do país –, tentando identificar as razões de seu aparente anonimato. Nesse percurso, focalizou-se a singular posição do escritor face ao mercado, incluindo algumas reflexões sobre os processos de legitimação e conseqüente visibilidade da produção artística no cenário cultural contemporâneo. Num segundo momento, realizou-se a leitura do romance autobiográfico Como eu se fiz por si mesmo, onde foram abordadas questões relativas ao processo de rememoração ficcional, bem como o levantamento de constantes temáticas e formais na obra do autor.
- Autores:Julio Bernardo Machinski
Outras teses e dissertações
A presente dissertação é uma análise da história em quadrinhos Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, dividida em três partes: uma análise do processo de leitura das histórias em quadrinhos em geral, uma leitura da obra Watchmen e uma relação formal de Watchmen em relação à poesia visual moderna. Primeiramente a leitura e o processo de compreensão das histórias em quadrinhos são pensadas em relação a algumas ideias da semiologia, de proposições da estética da recepção, e da fenomenologia da percepção. A partir das proposições teóricas é investigada a importância exercida pelos vazios textuais nas histórias em quadrinhos como espaços de projeção interpretativa do leitor. Após é feita uma leitura da obra Watchmen como parábola da guerra fria e sua relação com a narrativa trágica, onde se aproxima a figura do super-herói de aspectos composicionais do herói trágico de várias épocas. Por fim, é feita uma relação de aproximação entre as estratégias narrativas de Watchmen com procedimentos formais da poesia visual. Esta relação aproxima estratégias narrativas, capítulos e a própria materialidade de Watchmen a aspectos formais da obra de Stephané Mallarmé, dos caligramas de Guillaume Apollinaire, e da autorreferencialidade temática do concretismo brasileiro.
Estudo sobre a prostituição, durante o período de 1960 a 1980, em Florianópolis e São José, com ênfase na análise das construções de diferenças e legitimações de desigualdades, que podem ser percebidas através do estudo de uma vila de prostituição chamada: Vila Palmira. Palco de inúmeros encontros sexuais e construções ligadas a afirmações de masculinidade, a Vila Palmira foi criada com o intuito de esconder a prostituição que se fazia presente em Florianópolis, pois os reformadores sociais pretendiam “limpar” a cidade, promover seu desenvolvimento social e prepará-la para o turismo.
O objetivo dessa dissertação é narrar uma parte da história da emergência dos movimentos feministas no Brasil entre 1968 e 1989, período não só de ditadura política, mas de efervescência no que se refere à mobilização de movimentos sociais. Para isso selecionei como fonte a semanal Veja, fundada em 1968 pela editora Abril. Para efetivação dessa proposta, escolhi para análise: as capas que abordam problemáticas feministas; a seção de entrevistas, denominada Páginas Amarelas, por ter cedido espaço a uma série de feministas e não-feministas; e por último a coluna de humor Millôr, pela frequência com que o jornalista responsável pela coluna, Millôr Fernandes, refletia sobre o tema feminismos. Metodologicamente me aproprio de ferramentas interessantes à história da disciplina análise do discurso, buscando perceber como os discursos veiculados sobre feminismos funcionaram como um instrumento de divulgação do ideário feminista. As seções selecionadas como documentos permitiram a divisão dos capítulos de forma sistemática: no capítulo 1 exploro as capas com o intuito de articular o debate proposto pela revista com o contexto adjacente; no capítulo 2 analiso a seção Páginas Amarelas, espaço reservado a entrevistas com uma série de feministas e celebridades que comentaram os feminismos; e no capítulo 3 reflito sobre a coluna de humor Millôr que entendo ter contribuído para a visibilidade das reivindicações feministas. Com essa proposta busco colaborar para a construção da história dos feminismos no Brasil que, em função do que representou a ditadura civil-militar, teve muitas de suas histórias não-contadas.
- Universidade Federal de Santa Catarina
- Mestrado
Aborda-se o conceito de mandato policial de grupos especiais de polícia a partir de observação participante e entrevistas junto a integrantes do BOPE-SC, tendo como método a análise de narrativas. Apresenta-se a carência de estudos que tratem explicitamente do mandato policial e algumas possíveis compreensíveis do que o seja a partir de uma análise da produção bibliográfica encontrada. Abordam-se, especificamente, as menções ao mandato policial de grupos especiais de polícia, ressaltando-se que só foram encontradas em manuais/monografias/sites de autoria de instituições de Segurança Pública ou representantes delas, nas quais o discurso não é analítico, mas apenas prescritivo/normativo. O fato de apenas nativos haverem falado, até o momento, sobre grupos especiais de polícia articula-se com as considerações feitas a propósito da posição do pesquisador em Antropologia, haja vista a condição da própria autora de compor o quadro de uma força policial ter sido uma via de entrada em campo. A entrada em campo também é descrita, a partir do uso que os participantes fizeram das categorias de mulher, psicóloga e policial civil, como já tendo sinalizado uma categoria fundamental para o entendimento do mandato policial de grupos especiais de polícia: a de masculinidade, identificada pelos policiais a atributos de virilidade como o uso da força e como condição na qual o sujeito se iniciaria. Fundamenta-se, no capítulo seguinte, como a representação que os policiais em questão fazem dos suspeitos/autores de crimes tem por função a estruturação, por oposição, da identidade do grupo especial de polícia. Em seguida, discute-se que o mandato de grupos especiais de grupo de polícia coloca em suspensão as categorias de Justiça e Direito, sendo que os policiais definem em seu trabalho sempre tendo por referência (tanto para se aproximar, como para se distanciar) o ordenamento jurídico e para, a partir dele, definirem o que consideram o princípio fundamental de sua atuação: a justiça. Entende-se que a suspensão de tais categorias deve ser pensada a partir das concepções destes policiais sobre o que os particulariza (que é, a propósito, o mesmo que entendem que os diferencia da polícia convencional): uma certa moral. Moral esta desenvolvida e visibilizada pelos treinamentos/cursos de formação e “mística” própria ao batalhão, e que atenderia a anseios inclusive da própria sociedade. Sobre a última, cabe mencionar a particular função da farda do batalhão: a de distintivo. Como uma síntese das discussões realizadas até o momento, compreende-se o mandato policial de grupos especiais de polícia como fundado em um ethos guerreiro, a partir do quê os policiais compreendem as relações estabelecidas entre as praças e os oficiais, entre o Comando do BOPE-SC e seus subordinados, entre o Comando do BOPE-SC e o Comando Geral. Este ethos guerreiro é exemplarmente manifesto no uso que fazem de metáforas animas e da categoria “rusticidade” para falarem de todas estas relações; principalmente, para falarem do trânsito entre diferentes posições hierárquicas realizado por todos os envolvidos nestas relações.
Este é um estudo sobre uma Casa e suas moradoras, a Casa da Estudante Universitária de Curitiba, "um lar em terra estranha" organizado para abrigar jovens mulheres que estavam entrando na universidade em busca de uma formação profissional. Nosso objetivo ao realizar esta pesquisa sobre a CEUC através de seus significados e do quotidiano de suas moradoras foi, por um lado, entender como uma categoria especifica de mulheres - estudantes universitárias - começou a viver e a lidar com a experiência da individualização e, por outro lado, desvelar a construção da identidade feminina à luz de algumas representações sobre o feminino no Brasil entre a década de 50 e o inicio dos anos 60.
- Universidade Federal do Paraná
- Mestrado
Esta pesquisa visa a realização de uma etnografia do cinema pornográfico gay brasileiro, na qual se propõe uma reflexão sobre como são representadas as imagens sobre os corpos, as masculinidades e os homoerotismos nestes filmes. Mediado pelos mais recentes debates da antropologia e das ciências sociais, apresenta-se um pequeno panorama histórico da pornografia homoerótica no Brasil, contextualiza-se o “mercado cor-de-rosa” e sua relevância para o desenvolvimento da “pornografia comercial” e realiza-se uma “leitura interpretativa” do filme Aventuras Sexuais de um Sheik, visando compreender e delimitar os elementos importantes para entender como são construídos e definidos os corpos, as masculinidades e os homoerotismos. Com o objetivo de descrever e interpretar tal fenômeno, oportuniza-se um debate entre os dados de campo (filmes, revistas e textos da Internet) e os três campos teóricos focos deste trabalho (teorias sobre a corporalidades, masculinidades e homoerotismos). O trabalho realizado mostra como as representações da pornografia homoerótica (revistas, sites da Internet, etc.) e todo o material oriundo dela são importantes mecanismos que constroem, (re)constroem e delimitam muitos aspectos da vida de homens que vivem em seu cotidiano experiências homoeróticas.
Barebacking é um termo de origem Inglesa, que denomina um estilo de montar um cavalo sem o uso da sela e tem sido usado para descrever o envolvimento intencional, deliberado e consciente, em relações sexuais sem uso do preservativo, com risco de contrair HIV. Este estudo teve como objetivo analisar os discursos sobre a prática do bareback na mídia brasileira e da Internet. Ressalto que o objeto desta pesquisa não são necessariamente os Barebackers, mas o discurso sobre bareback no Brasil, ou seja, como têm se constituído as discursividades sobre esta prática no contexto social Brasileiro. O corpus da pesquisa é formado por artigos de pesquisas acadêmicas, artigos de revistas de grande circulação nacional (Veja, Época, Isto É) e outros documentos capturados na Internet, como os jornais, sites e blogs, todos publicados entre o período de 2001 a 2009 e tendo como tema principal o barebacking. Por tratar-se de um tema interdisciplinar e relativamente novo, acredito que os textos e conceitos de Michel Foucault foram fundamentais neste trabalho, especialmente os escritos sobre biopolítica, que direta e indiretamente, abrange todos os conceitos discutidos ao longo do trabalho como dispositivo de sexualidade, anormalidade, vigilância, disciplina, parrhesia. Com base nos documentos analisados, é possível afimar que nas discursidades produzidas sobre a prática do barebacking no contexto brasileiro, predominam os discursos bio- médicos prevencionistas, em que os meios de comunicação, de modos muitas vezes sensacionalistas, cumprem o papel de trazer o tema ao grande público. Entretanto, quando o assunto é o sujeito que pratica bareback, existe uma prevalência em caracterizá-lo via discursos patologizantes, como alguém anormal, portador de distúrbios neuro/psicológico/psiquiátricos; ou criminalizadores, que acabam contribuindo para a manutenção de estigmas que há séculos acompanham os indivíduos homossexuais, com críticas moralizantes, patologizadoras. Nestas discursividades, o homossexual adepto de barebacking é considerado um pré-doente, já que nesta prática, considerada de alto risco, a possibilidade de infecção pelo HIV é tida como certa, transformando seus praticantes em pessoas irresponsáveis e ou criminosas, passíveis de diagnósticos, qualificações e intervenções advindas dos discursos da verdade.
A trajetória intelectual da funcionária pública e escritora Leonor Castellano (1899-1969) é o fio condutor deste trabalho, que procura investigar os espaços de atuação das intelectuais do sexo feminino em Curitiba (Paraná) entre as décadas de 20 e 60 do século XX. Os debates sobre os temas das identidades "brasileira" e "paranaense" são fios condutores deste trabalho e aparecem fortemente na atuação de Castellano como intelectual entre 1924 (ano em que publica seu primeiro artigo conhecido) e 1969 (ano em que encerra sua atuação). A atuação de Castellano nos círculos intelectuais curitibanos (como o Centro de Letras do Paraná e o Centro Paranaense Feminino de Cultura) é estudada de perto, bem como sua colaboração com publicações. Temas como o "feminismo", a puericultura, a ideia de identidade (nacional e estadual) e os papéis designados às mulheres são discutidos através dos textos de Castellano, sobretudo as homenagens publicadas por ela. Outras fontes utilizadas na dissertação são os relatórios e revistas publicadas pelos centros literários, além de livros de atas, de contabilidade e outros, os quais nos permitem compreender as diversas áreas de atuação de Castellano. Através da trajetória desta intelectual e de seu papel de liderança nos Centros literários de Curitiba, este trabalho procurou explorar também os espaços de atuação pública das mulheres letradas e de elite no Paraná no período estudado.
- Universidade Federal de Santa Catarina
- Mestrado
Minha dissertação faz uma leitura de um mo(vi)mento de escrita e da produção ficcional de Rubem Fonseca, autor brasileiro, na medida em que este assume seu antagonismo diante da cena social, de forma a propor textos ficcionais focados em seu tempo, nas grandes cidades e nos sujeitos que nelas circulam. Assim, sugiro uma aproximação entre a condição de engajamento do autor, que transpõe esse compromisso a personagens e situações ficcionais que problematizam a verdade sobre sociedades e sujeitos ambíguos, e uma importante noção apresentada a nós por Michel Foucault em A coragem da verdade: a parresía cínica. Para isso seleciono, dentro da ainda ativa produção ficcional de Rubem Fonseca, três narrativas presentes na reunião de contos Feliz ano novo, publicada originalmente em 1975 e integralmente censurada no ano seguinte: o conto que dá nome à obra, Feliz ano novo; Passeio noturno (parte I); e Intestino grosso; por apresentarem personagens e situações característicos do que podemos enquadrar nas definições de parresía cínica e especialmente do cinismo moderno. Para articulação do estudo, evoco então a conceituação apresentada por Michel Foucault para a noção de parresía, importante forma de veridição que surge na antiguidade e abarca em si uma caracterização fundamental sobre a forma como se dá, nesse momento, a constituição do sujeito em relação a si e ao outro através de seus atos e de seu dizer. No entanto, é especialmente na modalidade cínica de parresía que busco escopo para este estudo, uma prática que abarca a bíos como objeto de preocupação estética. Diante da elucidação desses conceitos, aproximo a discussão a nosso tempo lembrando a proposição de Peter Sloterdijk sobre como se constitui o cínico moderno, a nova configuração do modo de existência desse sujeito diante de um tempo de diferentes e múltiplas dissimulações, de forma a buscar nos personagens e situações ficcionais delineados nos contos de Rubem Fonseca a articulação entre elementos da parresía cínica moderna e da desenvolvida na antiguidade.
