Instituto de Estudos de Gênero

Parto e poder: o movimento pela humanização do parto no Brasil

Parto e Poder é um estudo antropológico que analisa as relações entre assistência ao parto e políticas de humanização desenvolvidas no Brasil e que atendem recomendações da OMS (Organização Mundial de Saúde). Um dos principais atores que protagoniza as ações em prol da humanização é a REHUNA (Rede de Humanização do Parto e do Nascimento), teia de movimento que abriga profissionais da saúde e ONGs ligadas ao feminismo. A pesquisa empírica enfoca, assim, a REHUNA (suas formas de organização e seu ideário), e também duas experiências institucionais de humanização da assistência: uma maternidade pública em Florianópolis, Santa Catarina e dois cursos de capacitação de parteiras tradicionais, no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais. Foram feitas, assim, três etnografias: da Rede, da Maternidade e dos Cursos, através de observação participante, entrevistas e histórias de vida. O movimento pela humanização do parto é visto como um desdobramento do parto sem dor, vanguarda obstétrica que veio da Europa nos anos 50, e que já explicitava as relações intrínsecas entre parto e política. O Parto Humanizado atual incorporou um ethos individualista-libertário, comum aos movimentos sociais pós-anos 70 e partilhado por camadas médias urbanas, as quais pertencem os ativistas da rede. Procura-se compreender como o feminismo é interpretado pelo movimento e se a humanização da assistência ao parto aponta para mudanças nas relações de gênero e de poder que historicamente constituíram o campo da assistência ao parto no Brasil.

  • Orientador(a):Drª Miriam Pillar Grossi
  • Instituição:Universidade Federal de Santa Catarina
  • Curso:Antropologia Social
  • Titulação:Doutorado

Outras teses e dissertações

Tese
"Se eu passar despercebido o baile não prestou": visibilidade e resistência viada no interior de Santa Catarina

O objetivo deste trabalho foi investigar e problematizar como homens nascidos entre os anos 1950 e 1970, que vivem em cidades do interior de Santa Catarina, constituíram-se, identificaram-se e foram reconhecidos socialmente como viados; além das formas como geriram, negociaram e agenciaram a visibilidade em torno de suas homossexualidades, resistindo à heteronormatividade. A pesquisa insere-se no campo de estudos sobre as sexualidades e, a partir de marcos da teoria feminista e queer, adota uma perspectiva interdisciplinar, interseccional e desconstrutiva, interrogando e problematizando o que se nomeia construção da identidade homossexual . O corpus da pesquisa foi composto por nove sujeitos, oito homens brancos e um negro, com idades entre 42 e 66 anos, de diferentes extratos de classes médias (oriundos de famílias da classe trabalhadora) e católicos (muitos deles praticantes). Como metodologia, além da revisão bibliográfica e de levantamento de trabalhos acadêmicos sobre homossexualidades em cidades do interior do Brasil, associei a história oral, através de entrevistas não-diretivas produzidas a partir de histórias de vida, com práticas da pesquisa etnográfica. Explorando suas experiências de vida considerando, entre tantos outros fatores importantes, o gênero, a raça e a classe, bem como a pessoalidade e a fofoca, tão presente em contextos interioranos identifiquei que as estratégias de gestão de visibilidade homossexual se deram mediante permanentes negociações centradas por diferentes formas de discrição e por cautelas, evidenciando, ao mesmo tempo, uma conformação e o desafio à heteronormatividade. Avançando na investigação, procurei compreender melhor o regime de visibilidade homossexual com o qual os sujeitos dialogaram, destacando, com base nas memórias construídas, alguns aspectos do contexto histórico correspondente: a) o cenário social, cultural e moral de suas infâncias e juventudes vinculado ao período da ditadura militar no Brasil (1964-1985), b) o impacto do pânico sexual e moral desencadeados pelo surgimento da AIDS, nas décadas de 1980 e 1990, c) a ascendência moral e a relação ambígua que mantêm com a religiosidade católica e d) a importância da televisão, principalmente em cidades do interior, como principal fonte de informação e lazer. Com base nas fontes que emergiram no trabalho de campo, investiguei e destaquei a importância dos shows de auditório e das telenovelas como produtores e difusores de representações homossexuais estereotipadas (incorporadas por personas bichas e viadas, e também pelas transformistas) e de representações modelares (através de personas e personagens gays discretos), que disputaram por espaço e deram sustentação a um regime de visibilidade homossexual que, de modo geral, prevaleceu nos anos 1970-2000. A partir da constatação de um regime de representação bastante restritivo, especulei sobre possíveis processos de subjetivação, identificação e gestão da visibilidade homossexual, ressaltando a necessidade de pensá-los de forma dialógica, encadeada, complexa e misturada. E destaquei que a sujeição à heteronormatividade e às forças de controle e normalização dela irradiadas, deu-se simultaneamente à adoção de práticas de resistência e agência plurais, dinâmicas e negociadas, com destaque àquelas nas quais as identidades de gênero revelaram-se ambíguas, transitivas e, ao lado de práticas indicativas de uma fluidez de desejos, colocaram em xeque o próprio binômio hétero-homossexualidade no contexto estudado.

  • Universidade Federal de Santa Catarina
  • Doutorado
Tese
O reino da impura sorte: mulheres e homens, garimpeiros em Minas Gerais

Esta pesquisa tem como ponto focal a análise das relações de gênero na comunidade garimpeira de Datas, localizada no Estado de Minas Gerais. A análise da divisão sexual do trabalho, dos conflitos envolvendo honra e gênero e da cosmologia característica da atividade garimpeira em Datas aponta para uma configuração das relações de gênero na qual a assimetria de poder entre os sexos apresenta uma maior flexibilidade, devido ao fato da mulher também garimpar, participando assim das possibilidades da sorte e de valores e atributos hegemonicamente atribuídos à masculinidade.

  • Universidade Federal de Santa Catarina
  • Mestrado
Tese
O discurso feminista criminalizante no Brasil: limites e possibilidades

Esta dissertação tem por objetivo discutir a difícil aliança das mulheres com o Direito Penal. Os marcos teóricos que fundamentam esta discussão são a o conceito de gênero, a Criminologia Crítica e a Criminologia Feminista. O feminismo tem denunciado que o direito é androcêntrico e criador de gênero, e que, portanto, as mulheres não são vistas como sujeitos de direitos. A Criminologia Critica, por sua vez, desmistificou o direito penal igualitário, demonstrou a deslegitimidade do sistema penal e a falsidade do discurso jurídico penal como garantidor dos direitos humanos e a necessidade da mínima intervenção penal. A Criminologia Feminista denuncia que embora crítica, a Criminologia Crítica também não incorpora a contribuição da teoria feminista. As criminólogas feministas analisam as possibilidades e impossibilidades do discurso feminista aliar-se com o Direito Penal na defesa dos direitos humanos das mulheres. O eixo fundamental da dissertação propõe discutir, à luz destes marcos teóricos, se o discurso feminista criminalizante no Brasil pode ser uma boa estratégia para a defesa dos direitos das mulheres. Ou seja, se as mulheres devem recorrer ao Direito Penal.

  • Universidade Federal de Santa Catarina
  • Mestrado
Tese
Do palco aos bastidores: O SOS-Mulher (SP) e as práticas feministas contemporâneas

O objetivo deste trabalho é estudar o movimento feminista que se constituiu, a partir da segunda metade das década de 70, em São Paulo. Pretendo analisar, por um lado, as peculiaridades de suas práticas, de sua ideologia, do perfil e composição do seu quadro de militantes, de sua dinâmica e de sua trajetória no cenário político brasileiro. Por outro lado, pretendo analisar as representações e formulações feministas sobre a condição feminina - e indiretamente masculina - e suas implicações nas práticas políticas, sociais e culturais acionadas pelo movimento. Para tanto, realizei uma pesquisa no grupo SOS-MULHER (criado em outubro de 1980 e fechado em novembro de 1983), escolhido como campo privilegiado de investigação pelo fato de apresentar uma dimensão sintética das concepções, da ideologia e das formas de organização do movimento feminista.

  • Universidade Estadual de Campinas
  • Mestrado
Tese
Além das secas e das chuvas: o uso da nomeação "mulher trabalhadora rural" no sertão central de Pernambuco

Este trabalho objetiva compreender os usos da nomeação mulher trabalhadora rural como estratégia identitária de empoderamento e de obtenção de direitos pelas mulheres no Sertão Central de Pernambuco. É uma pesquisa de orientação etnográfica na qual se destaca, além das interações com as pessoas do lugar e das entrevistas, a análise de documentos de domínio público produzidos pelo Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Sertão Central de Pernambuco. Este estudo se filia à produção do Núcleo de Estudos e de Pesquisa em Práticas Discursivas e Produção de Sentidos (PUC/SP) e alinha-se às investigações da Psicologia Social discursiva com ênfase no debate sobre práticas discursivas e posicionamento. Do ponto de vista teórico, foram consideradas ainda as reflexões feministas sobre categorias identitárias e processos de empoderamento. O argumento que norteia este estudo é de que ser mulher trabalhadora rural não é uma essência rígida e imutável ou tampouco algo intrínseco às mulheres que vivem e trabalham na área rural. Ser mulher trabalhadora rural é uma posição assumida a partir do lugar no qual a pessoa se situa. Entretanto, tanto a posição quanto o lugar são produtos sociais. A ênfase recai nos contextos interacionais e discursivos nos quais as mulheres se posicionam como trabalhadoras rurais. De forma ampla, é possível apontar que a nomeação mulher trabalhadora rural contribui para o empoderamento das mulheres e a obtenção de diversas ordens de direitos. Tal nomeação é imbricada com a ação coletiva das mulheres, sendo utilizada de diferentes maneiras e com objetivos diversos. Dependendo do contexto, ora elas se posicionam como mulheres, ora como trabalhadoras rurais, ora como moradoras da área rural do Sertão de Pernambuco. As mulheres transgridem os espaços socialmente delimitados para elas e desenvolvem novas posturas e interesses diante das suas vidas e do mundo a sua volta. Entretanto, apesar da consolidação de um vigoroso movimento de mulheres na região e das redes tecidas em âmbitos estadual, regional, nacional e internacional, em nível local, a família e a comunidade parecem resistir ao empoderamento das mulheres. A liberdade de ir e vir independentemente dos interesses familiares e o exercício da sexualidade fora da união conjugal não são conquistas plenamente consolidadas para todas as mulheres. Além disso, muitas mulheres não dispõem de documentos sobre o uso e a propriedade da terra, o que possivelmente indica pouco acesso e controle restrito das mulheres sobre os recursos materiais.

  • Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
  • Doutorado
Tese
Homens e as políticas de "empoderamento" das mulheres - A emergência do "gênero" entre sindicalistas de esquerda em Florianópolis

Esta pesquisa com dirigentes sindicalistas, realizada no ano de 1998, busca analisar as relações de gênero em setores de esquerda do movimento sindical de Florianópolis vinculados à CUT: a Central Única dos Trabalhadores de Santa Catarina, (CUT/SC); o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Energia Elétrica de Florianópolis, (SINERGIA) e a Escola Sul da CUT. Trata-se de entidades que têm discutido, debatido e implementado propostas relativas ao gênero ao que eu denominei nesta pesquisa como sendo as "questões políticas de gênero", ou seja, as discussões como leis sobre o aborto e "união civil", assédio sexual, violência e as políticas de "empoderamento" das mulheres, particularmente, a política de "quotas". Além dessas questões também foram considerados os processos de construção social das diferentes masculinidades. Para tanto foram utilizados recursos da abordagem etnográfica (observação participante e entrevistas), com as quais buscou-se reconstruir as trajetórias (individuais e nos movimentos sociais) desses dirigentes.

  • Universidade Federal de Santa Catarina
  • Mestrado
Tese
Feminismo e autoritarismo: a metamorfose de uma utopia de liberação em ideologia liberalizante

Esta tese procura reconstituir, através de uma periodização ditada pelos grandes momentos de inflexão do processo político desde os anos 60, a gênese e a evolução do projeto feminista liberalizante gerado num contexto peculiar caracterizado pelo entrelaçamento entre modernização da sociedade e consolidação do regime autoritário. À luz da distinção entre movimento feminista e movimento de liberação das mulheres, o estudo trata de apreender os diferentes significados que foram associados à palavra "feminismo" por brasileiras, dentro e fora do país, ao longo dos anos 70. É analisada em particular a trajetória do Centro da Mulher Brasileira do Rio de janeiro, da sua fundação em 1975 até 1979, e são mapeadas as diferentes orientações ideológicas presentes no seu interior, em contraposição àquelas que se expressaram no mesmo período, no feminismo brasileiro do exílio. Sugerindo também a diferenciação entre estudos sobre mulher e estudos feministas, o trabalho retraça o itinerário percorrido pela área de pesquisas sobre mulher no Brasil, dentro da mesma periodização, visando captar a articulação específica que aqui se construiu entre a mesma e o movimento feminista.

  • Universidade Federal do Rio de Janeiro
  • Mestrado
Tese
A luta das mulheres tem muitos nomes: os sistemas de organização do conhecimento frente a uma emergência conceitual

Em nosso dia a dia a linguagem nos desafia e constitui, habilita e desabilita. Os Sistemas de Organização do Conhecimento (SOCs) dependem do mesmo processo de agência atribuído à linguagem, reverberando os mesmos preconceitos e marginalizações que a cultura cria. Estudos críticos sobre representação de gênero e conceitos subjacentes têm sido amplamente produzidos para destacar silêncios ou exclusões de certos discursos que fundamentam uma reflexão sobre os aspectos constituintes da Organização do Conhecimento Social e Crítico do Conhecimento (OSCC). O referencial teórico se fundamenta no conceito de dispositivo proposto por Foucault (1926-1984) e no caráter performativo da linguagem sugerido por Butler. Os objetivos específicos incluem: (i) explorar as contribuições de Butler e Foucault como uma abordagem capaz de perceber SOCs como dispositivos performativos; (ii) identificar elementos explicativos do SOCs que incluam as categorias de análise propostas; (iii) examinar as estratégias que norteiam a construção do SOCs; (iv) Intentar uma dimensão teórica que incorpore e atualize a reflexão teórica dos princípios para construção e atualização do SOCs. A estratégia metodológica aponta para uma triangulação de métodos: a primeira fase - método exploratório - apresenta uma abordagem teórica, uma seleção de termos nacionais e internacionais dentro do tema feminista. A segunda fase - método descritivoanalítico - oferece uma comparação dos termos recolhidos na primeira fase da investigação com as terminologias temáticas de Homosaurs; Library of Congress Subject Headings; Tesaurus de gênero: lenguaje con equidad; Tesauro de Mujeres e Tesauro para estudos de gênero e mulheres. Por fim, na terceira fase, apresenta-se uma análise comparativa entre os instrumentos de representação citados, além de perceber e apontar o viés reducionista com que os SOCs empreendem seu mainstream. A pesquisa aponta o processo de cristalização de discursos sexistas e racistas nos Sistemas de Organização do Conhecimento (SOCs), que não acompanham as mudanças socioculturais. Dessa forma, é preciso defender uma OSCC capaz de promover uma virada decolonial no campo da OC, destacando a importância de reconhecer as realidades interseccionais provenientes da articulação entre raça, gênero e classe.

  • Universidade Federal de Minas Gerais
  • Doutorado
Tese
Contracepção e aborto: perspectiva masculina

A participação masculina na saúde reprodutiva tem se constituído em objeto de estudo a medida que se vêm consolidando as noções de direitos sexuais e reprodutivos. O objetivo do trabalho é analisar a perspectiva masculina acerca da anticoncepção, do aborto provocado e do uso de métodos contraceptivos, entre homens que viviam em união legal ou consensual. Trata-se de um estudo descritivo, analisando dados secundários. O tamanho amostral foi calculado em 310 homens vivendo em união, mas, dada a disponibilidade dos casos, analisaram-se as informações de 361 homens. Utilizou-se o teste de qui-quadrado para avaliar as diferenças entre os grupos e a análise múltipla por regressão logística. Levando-se em conta as características da amostra, percebeu-se a possibilidade de concretizarem-se na sociedade brasileira mudanças importantes na perspectiva masculina quanto à contracepção e aborto. Para viabilizar tais mudanças, evidencio-se a necessidade de investir na educação de homens e mulheres, uma vez que esta apresentou-se como divisor de águas no equilíbrio das relações de gênero.

  • Universidade de São Paulo
  • Mestrado

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