
Mulheres sem terra e a Covid- 19
Nossa entrevistada é a camponesa, indígena do Povo Terena do Mato Grosso do Sul, sem-terra, coordenadora do Coletivo de Gênero do Movimento e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), Atiliana Brunetto. Ela esteve no 13. Mundos de Mulheres e Fazendo Gênero 11 e em 2019 liderou a organização do I Encontro Internacional de Mulheres do MST, realizado no início de março em Brasília. Atiliana fala sobre as diferentes ações das mulheres, seja na produção e comercialização de alimentos, seja nas frentes de solidariedade ou na organização da resistência enquanto classe trabalhadora, contra as violências de todas as ordens, seja ela na vida doméstica ou na vida pública.
Qual a realidade da pandemia no contexto das mulheres rurais sem terra?
Atiliana: Primeiro, a gente traz conosco a concepção de que a pandemia não é um fato isolado, mas um processo de agravamento da crise que o Capital tem construído durante esses últimos 10 anos, quando ele começou a entrar em colapso. E aí, como crise do Capital, ele traz essa observação e essa desnudez das várias desigualdades que o sistema traz. Então, primeiro, nós teríamos que trazer essa realidade da miserabilidade, da perda de direitos, essa questão da saúde… E a gente traz aqui com relação ao Brasil a perda do investimento, a PEC que trouxe a proibição de investimento por 20 anos em alguns serviços do Estado, que são fundamentais para população, em especial na área da saúde. E aí apareceu o vírus que pegou a gente nessas condições, sem esse investimento. Nos pegou sem equipamentos, sem instrumentos, sem o básico da proteção à saúde. A gente avalia muito isso, a crise aprofundada. Você não pode sair, tem que se isolar, e aí você esbarra na questão do trabalho, do emprego e a população fica muito debilitada nesse processo. A gente já tinha feito a leitura de que o processo da fome estava retornando ao Brasil e o coronavírus aumenta isso. No Brasil ele nos pega com esse governo, que não tem responsabilidade e compromisso com a vida do seu povo, mas tem o compromisso com os grandes capitais, como o capital internacional, porque ele nem se preocupa com o capital nacional. São as grandes empresas para quem ele tem governado.
A gente pensava que com 40 dias, no máximo, já estaríamos fora do isolamento social. Depois percebemos de que isso não era real e de que o vírus é avassalador no seu contágio. Então, os cuidados foram se pensando e se conversando... e fomos observando esse avançar que é tão brutal. Observando esse processo de agravamento da crise, do empobrecimento das pessoas já com a crise do capital e com esse governo da retirada de direitos, já vínhamos percebendo uma precariedade na alimentação. Nesse sentido, nós, o MST, assumimos a nossa principal tarefa, que é a conquista e a democratização das terras, e a partir disso fazer com que ela cumpra sua função, que é a de produzir alimentos, de cultivá-las para que nós possamos existir enquanto pessoas, enquanto grupo… No sentido da preservação humana mesmo. A gente passou a ter uma preocupação com a produção e com a pandemia só aprofundou essa necessidade.
Como as mulheres sem terra se organizam para o enfrentamento à covid-19?
Primeiramente é dizer do conjunto do MST, como a gente se organiza, porque não podemos perder essa coletividade. Temos o setor de saúde, que enquanto movimento nós construímos o gabinete da crise da saúde, a nível nacional, estadual e regional. Desses três níveis a gente vai monitorando todos os estados, para de cuidar da nossa base e dos outros que se acercam a nós, nos nossos territórios. Enquanto mulheres, pensamos a campanha “Mulheres sem terra contra o vírus e as violências”. Vírus e as violências traz a visão do que o Capital nos causa, de todas as formas de violência.A gente observa na campanha de que houve um aumento da violência contra as mulheres na cidade, mas também nas áreas de acampamento, que ainda é um lugar muito vulnerável em todos os vícios que o Capital traz. Em alguns acampamentos vem sendo mais forte, mas não quer dizer que nos assentamentos não tem. Primeiro é preciso reconhecer que há um aumento de violência contra as mulheres, a partir do olhar da cidade, mas também já observando dentro do MST. Essa campanha nasceu de forma coletiva, de mulheres que hoje compõem alguns setores do MST, como os de produção, de cultura, o coletivo da juventude, o coletivo LGBT, o setor de formação. Várias mulheres que compõem diversos setores se uniram para refletir o que a gente proporia no sentido de enfrentar esse período, que não é só o vírus do COVID, mas também os vírus que o Capital coloca nesse aprofundamento da crise, como, em especial, a violência contras as mulheres, mas também a violência doméstica em geral, que é a vulnerabilidade das crianças nesse momento, dos idosos, dos sujeitos LGBTs... Nosso desejo é que em território sem terra não seja possível existir violência contra os sujeitos e sujeitas que constroem a luta pela terra no MST.
O segundo eixo dessa campanha é o cuidado, a saúde e o trabalho, porque nós queremos trazer que a divisão das tarefas da casa perpassa a prevenção da saúde. As companheiras observam a sobrecarga de trabalho, então a gente discute que essa divisão é necessária na casa, para que elas possam ter espaço para estudar, para viver o ócio, para se cuidar estética e mentalmente.
O terceiro eixo é o tema da resistência ativa no processo da construção da reforma agrária popular. No sentido de perceber onde nós estamos enquanto mulheres sem terra: s a gente discute, delibera e participa efetivamente na construção das ideias… e não só sendo tarefeiras. Que possa perceber se a gente está na idealização das marmitas solidárias, da comercialização, das doações de alimentos, nas articulações com a classe trabalhadora… Isso é importante porque nós temos um olhar específico na construção da reforma agrária popular. E nós queremos que ela abranja todos os sujeitos e sujeitas independente de sexo, cor, etnia.
Uma reforma agrária popular para nós é construir a produção na agroecologia, com respeito ao meio ambiente, com respeito à natureza, com respeito entre nós e as nossas diferenças entre seres humanos que somos. Nessa perspectiva nós colocamos esse nosso enfrentamento a COVID, e ressalto que não é só enfrentamento a esse vírus, mas a tudo aquilo que causa esse sofrimento às mulheres sem terra e ao povo brasileiro em geral.
Que alternativas constroem para a geração de renda e a garantia da sua saúde, assim como a solidariedade de classe?
Com relação à geração de renda, a gente tem buscado a realização de feiras virtuais, que são tão importantes para as mulheres, já que estamos na base da produção das hortaliças, dos pequenos animais, das frutas, enfim, tudo o que está em volta dos nossos quintais e que é de nossa responsabilidade histórica nesse campo que nós vivemos. Dessa forma, as feiras atingem as mulheres e uma melhoria da qualidade de renda para a família. Então, tudo aquilo que as mulheres produzem e que geram de renda, volta para a família de forma a melhorar suas condições. Estamos lutando para que o Estado, no sentido federal, garanta um subsídio para a gente melhorar a plantação e a produção de alimentos.. Estamos reivindicando um crédito específico para mulheres, para que possamos produzir melhor as nossas hortaliças e pequenos animais. Pleiteando um fomento para as mulheres, para garantir as coisas básicas em casa e ter mais condições de produzirmos nossos alimentos que passam por hortaliças, padarias, doces, queijos, enfim, toda a variedade que as mulheres produzem. E tudo isso que a gente produz não está fora do que a gente tem feito enquanto MST, desde que a gente passe a organizar os assentamentos. O que no faz pensar agora em priorizar a produção de mais alimentos é porque estamos preocupados com a periferia das cidades, com aquela população que não tem condições, e poucos vão ter nesse período e de pós-pandemia. Nossa leitura é que haverá a perda de empregos e de postos de trabalho, porque as empresas, em especial as pequenas, estão fechando. Isso reflete na classe trabalhadora, naquela população que pouco tem de acesso e que perderam muito durante o golpe e até agora, no governo Bolsonaro. São muitas perdas e isso está sendo drástico para nós enquanto classe trabalhadora. Nosso debate com a classe trabalhadora é para se fortalecer a necessidade da alimentação saudável os debates sobre ecologia; sobre a relação negativa entre alimentação saudável e relações violentas; sobre a não-violência contra as mulheres, contra a natureza, contra a população LGBT; sobre racismo, que é também uma violência que o Capital constrói e que às vezes a gente não percebe que estamos colaborando com isso. E seguimos afirmando nossa campanha “Mulheres sem terra contra os vírus e as violências” e nosso lema de Mulheres em Luta semeando resistência.









