CEDOC
O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.
Este trabalho discute a corporalidade e performance de drag queens em territórios gays da Ilha de Santa Catarina, enfocando a presença desses sujeitos em espaços públicos, notadamente os de sociabilidade GLS. Como a performance drag começa no camarim, no momento da montaria, discuto também a relação da construção da personagem drag com a construção de sua corporalidade e a influência da escolha do nome-drag nesse processo. Os aspectos centrais abordados no trabalho são as performances verbais e corporais das drags, em espaços como casas noturnas dirigidas ao público homossexual, eventos como o Mercado Mundo Mix e também na rua, durante o carnaval, partindo do pressuposto que a corporalidade drag se constrói e encena em relação a outros corpos. Os métodos elencados para a pesquisa etnográfica e a análise dos dados de campo estiveram pautados na antropologia da experiência. Os dados aqui analisados foram obtidos via observação participante, conversas informais com as drags e com o público GLS, entrevistas semi-estruturadas com as drags e levantamento de formas de divulgação das festas GLS nesta cidade.
Nesta dissertação, parte-se da idéia de que os conceitos de saúde e doença, além dos limites entre estados considerados normais ou patológicos, têm grande interface com a cultura na qual estão sendo veiculados. Tomo como objeto etnográfico tanto o discurso dos agentes da biomedicina ocidental como o discurso leigo referente aos chamados “remédios do estilo de vida”; a partir deste rótulo veiculado pelos meios de comunicação de massa, selecionei os medicamentos de maior visibilidade, a saber, as pílulas Viagra, Prozac e Xenical, mas sem desprezar pílulas fabricadas por laboratórios concorrentes, com o mesmo objetivo. Procuro demonstrar que, dentro do sistema biomédico, diferentes significados podem ser atribuídos às idéias de doença/saúde, cura e medicamento; esta diferença fica dependente de quem emite o discurso, do lugar social a partir do qual está falando, com quem e com quais fins. Tento colocar em prática a idéia de que os discursos de todos os agentes que circulam dentro do sistema biomédico são passíveis de análise simbólica e discursiva. Isto vale para os usuários das pílulas, como para os médicos e indústrias farmacêuticas. Enquanto o discurso dos agentes da biomedicina concentra-se em uma definição e divulgação das doenças obesidade, depressão e disfunção erétil, os usuários que entrevistei tendem a apresentar um discurso não-patologizado, que prioriza uma história de si. Apesar desta diferença, os diferentes discursos não devem ser analisados de uma forma maniqueísta, visto que estão em constante tensão e se influenciam mutuamente. Trabalho com a hipótese de que expressões nativas como qualidade de vida e estilo de vida, constantemente utilizadas pelos usuários dos medicamentos e pelos agentes da biomedicina ocidental, remetem a um mesmo campo semântico. Tal campo semântico seria delimitador de uma fronteira cultural nas sociedades urbanas ocidentais contemporâneas.
A presente dissertação apresenta uma parte do carnaval da Ilha de Santa Catarina, conhecido como o carnaval gay da cidade, tendo lugar em um conjunto de territórios que incluem praia, bares, boates e também uma região do carnaval de rua do centro da cidade, em que a prefeitura da cidade é organizadora da festa. A idéia central é tomar o carnaval como um momento-chave da cultura brasileira em que características da vida social são postas em relevo e dramatizadas, não necessariamente sendo invertidas, como preconiza a teoria clássica da festa, mas podendo ser intensificadas, como permite perceber o carnaval analisado. Assim, através destes cinco dias de festa, é possível perceber fenômenos associados à homossexualidade no Brasil, permitindo o pensar sobre três eixos da pesquisa antropológica: a territorialidade, na compreensão da ocupação de um pedaço, intermediário entre a tradicional dicotomia casa/rua; a performance, como auxiliar no entendimento das contradições que envolvem a construção de identidades entre homens e mulheres que compartilham uma vivência homoafetiva; e a liminaridade, pensada não apenas como um momento intermediário do processo ritual, mas como uma característica que acompanha a vivência de boa parte desses indivíduos, entendidos aqui como sujeitos da margem. Através de um levantamento histórico e bibliográfico, de conversas informais e da observação participante, compreende-se este carnaval gay como a dramatização de uma vivência homossexual no Brasil, particularmente na capital catarinense, e suas possibilidades de reterritorialização para sujeitos que possuem um histórico de vidas desterritorializadas por conta de sua orientação sexual.
Esta pesquisa visa a realização de uma etnografia do cinema pornográfico gay brasileiro, na qual se propõe uma reflexão sobre como são representadas as imagens sobre os corpos, as masculinidades e os homoerotismos nestes filmes. Mediado pelos mais recentes debates da antropologia e das ciências sociais, apresenta-se um pequeno panorama histórico da pornografia homoerótica no Brasil, contextualiza-se o “mercado cor-de-rosa” e sua relevância para o desenvolvimento da “pornografia comercial” e realiza-se uma “leitura interpretativa” do filme Aventuras Sexuais de um Sheik, visando compreender e delimitar os elementos importantes para entender como são construídos e definidos os corpos, as masculinidades e os homoerotismos. Com o objetivo de descrever e interpretar tal fenômeno, oportuniza-se um debate entre os dados de campo (filmes, revistas e textos da Internet) e os três campos teóricos focos deste trabalho (teorias sobre a corporalidades, masculinidades e homoerotismos). O trabalho realizado mostra como as representações da pornografia homoerótica (revistas, sites da Internet, etc.) e todo o material oriundo dela são importantes mecanismos que constroem, (re)constroem e delimitam muitos aspectos da vida de homens que vivem em seu cotidiano experiências homoeróticas.
Este trabalho é uma etnografia do fenômeno da tatuagem na cidade de Florianópolis (cidade localizada no Estado de Santa Catarina, sul do Brasil), focada nas trajetórias e práticas de nove tatuadores e tendo como lócus de observação cinco estúdios de tatuagem. Os procedimentos metodológicos utilizados foram entrevistas abertas e focadas com os tatuadores, conversas informais com as pessoas que transitam pelos estúdios e a observação participante em dois dos estúdios. Também utilizei informações de home pages e revistas de tatuagem. O foco central do trabalho são as transformações no universo da tatuagem nas últimas décadas. A partir das trajetórias de tatuadores contextualizo o espaço onde eles trabalham, o surgimento do estúdio de tatuagem e as mudanças tecnológicas e técnicas. Também destaco a construção da carreira dos tatuadores profissionais e artistas, que faz parte de um processo de singularização e individualização desses sujeitos e, por último, ressalto, a partir da descrição de uma sessão de tatuagem, a inserção da tatuagem de estúdio no processo moderno de higienização.
