CEDOC
O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.
A partir do estudo de caso em uma instituição na qual trabalham médicos, enfermeiros, religiosos, leigos e terapeutas esta tese analisa os modos contemporâneos como as fronteiras entre distintos sistemas terapêuticos são continuamente constituídas e desestabilizadas por sujeitos envolvidos em processos de saúde-doença, sejam eles pacientes ou curadores. O esforço de totalização de um sistema terapêutico separado do outro esbarra nos modos como eles são acionados simultaneamente pelas pessoas em estados de aflição e sofrimento, e como durante esse processo há uma produção de práticas e discursos que perpassam e se distribuem tanto por arcabouços conceituais biomédico-terapêuticos quanto religioso-espirituais. A pesquisa etnográfica foi realizada em um centro de tratamento para pacientes com câncer e doenças degenerativas localizado na cidade de Florianópolis (SC) que está vinculado a uma instituição espírita. O tratamento oferecido neste espaço constitui-se na aplicação de uma série de terapias alternativas/complementares e na realização de cirurgias espirituais. A partir desse cenário, analiso como religião e ciência, espiritualidade e medicina, têm sido articulados em meio a disputas políticas e por legitimidade que ora buscam separar, ora unir esses campos na construção de retóricas e práticas terapêuticas contemporâneas. A heterogeneidade de práticas, sujeitos e discursos presentes nessa instituição colocou em evidência os modos através dos quais os lugares da religião e da medicina têm sido questionados e resituados pelas pessoas doentes que, de forma geral, não operam com as distinções impostas por um modelo racionalista centrado exclusivamente no biológico, e tampouco abrem mão do direito à saúde enquanto uma forma de cidadania. As performances de cura realizadas nessa instituição apresentam dinâmicas criativas difíceis de serem cristalizadas em modelos generalistas, pois estes obscureceriam as complexas relações políticas, estéticas, terapêuticas e espirituais presentes nessa instituição que refletem questões mais amplas observadas no campo da saúde e da religiosidade brasileiras.
Esta tese é o resultado de um trabalho de pesquisa que teve como objetivo desenvolver uma análise crítica do processo da reforma psiquiátrica brasileira, considerando as articulações entre os processos de desinstitucionalização e as configurações de gênero presentes no mesmo, a partir do ponto de vista das “usuárias” e “usuários” dos serviços de saúde mental, denominados aqui como experientes. Para tanto foi realizado mapeamento e análise da reforma psiquiátrica no Brasil e em Santa Catarina assim como uma pesquisa de campo de caráter etnográfico nas cidades de Joinville - Santa Catarina, Barbacena - Minas Gerais e visitas aos serviços de saúde mental das cidades de Torino, Trieste e Gorizia na Itália, tendo como foco os sujeitos e suas experiências nestes locais. A reforma psiquiátrica brasileira é um processo complexo, composto de inúmeros planos, atravessamentos e configurações que tem gerado transformações objetivas e subjetivas na vida das pessoas. Os sujeitos, inseridos e precariamente constituídos em suas experiências e em processos de (des)subjetivação criam estratégias micropolíticas que movimentam as complexas relações de poder marcadas pela dimensão de gênero, por hierarquias e por disputas arduamente protagonizadas por eles neste contexto. São tais experiências e sujeitos que permitem reconhecer lógicas, desejos e atualizações do manicômio presentes no contexto atual e também os avanços e impactos da reforma psiquiátrica na vida das cidades onde são realizados movimentos de abertura e resistência aos saberes, poderes e fazeres instituídos hegemonicamente. Tais movimentos fazem circular sujeitos e também interpretações sobre a loucura, o louco e a suposta doença mental, que se articulam entre os modelos religioso, dos nervos e, sobretudo, biomédico declinados em práticas e discursos de disciplina, controle e resistência. Através dos processos de desinstitucionalização, foco central da reforma psiquiátrica brasileira, foi possível perceber tanto os diferentes sentidos dados a ela quanto às múltiplas reformas realizadas de forma cotidiana, rizomática e incessantemente pelos sujeitos.
Esta tese apresenta uma etnografia dos processos de realização e organização do Festival Mix Brasil de Cinema da Diversidade Sexual, realizado em São Paulo anualmente, desde 1993, e empreende uma análise antropológica de seus processos de territorialização em relação à cultura audiovisual e às urbanidades contemporâneas. Partindo dos campos antropológicos de Gênero, Performance e Territorialidade, e na interface com teorias da Comunicação e Cinema, elaborei esta etnografia, em duas edições do Mix Brasil, 2009 e 2010, percorrendo territórios do festival e da cidade, bem como através de um recorte descritivo e histórico de sua estrutura (programação, filmes, eventos especiais, plateias, salas de exibição, catálogos e campanhas publicitárias). Cha-mo especial atenção para o modo como os festivais de cinema e o próprio cinema podem ser lidos como atividades e territórios transnacionais, em que os indivíduos tecem relações com base em processos de modernização, proeminente nas metrópoles. Destaco, ainda, as relações que podem ser tecidas entre os processos de territorialização da “cultura gay” urbana e as formas de apreen-são, recepção e uso das imagens, apontando produções territoriais semelhantes que permitem elaborar o conceito de imagem-território. Este conceito torna-se útil para se pensar como cada imagem pode apontar e conectar territórios diversos, mantendo cada enquadramento e cada sequência prenhes de significados ou em constante produção simbólica ao olhar dos espectadores e programadores dos festivais.
Esta é uma tese sobre pescadoras embarcadas na pesca artesanal no Litoral de Santa Catarina, Sul do Brasil, sendo que procurei observar como, onde, porque e até que ponto estas mulheres se reconhecem, são reconhecidas, e como estariam buscando o reconhecimento de seus direitos como pescadoras. Afirmar que estas mulheres atuam como embarcadas na pesca artesanal implica dizer que trabalham em embarcações pequenas, entre três e nove metros de comprimento, se deslocando ao mar e retornando à terra diariamente em períodos que oscilam de três a dezesseis horas, dependendo se trabalham com peixes, camarão, siri, berbigão. Diferenças que compõem os saberes-fazeres da denominada pesca artesanal em que as pescadoras se deparam com elementos agentes que interferem diretamente o cotidiano da pesca e a sua relação com o mar, fonte de renda, mas também de fuga e terapia. Por serem mulheres, estas pescadoras se deparam continuamente com o não reconhecimento delas por parte do Estado e de seus técnicos, assim como nas próprias pesquisas acadêmicas e na sociedade de forma ampla. Emergem, no decorrer da tese, questões relacionadas às suas vidas, como o aprendizado e o trabalho, o gosto pela pesca, corpos e corporalidade, a circularidade entre diferentes saberes na relação entre pescadoras e extensão rural. O fulcro da tese diz respeito a questões sobre reconhecimento e (in)visibilidade de mulheres na pesca, observando que em meio aos constantes (a)sujeitamentos, elas vêm se construindo como sujeitos, pescadoras, em que o riso, o bom humor e a jocosidade são táticas de sobrevivência e de duração.
O presente trabalho trata de analisar as relações entre os gêneros na trajetória e na configuração atual da Comunidade Cafuza de José Boiteux/SC, tomando como referência para análise a noção de família, aspecto em torno do qual se estruturam outi'as dimensões da vida social, tais como o parentesco, a conjugalidade, a divisão do trabalho e a organização política. A luta constante pela sobrevivência e o contato muitas vezes conflitivo com outros grupos e segmentos populacionais inseridos na história catarinense permeiam a trajetória desta comunidade. Durante toda sua trajetória alguns elementos tornaram-se decisivos na sobrevivência do grupo, que se manteve unido e congregando mesmo aqueles que residem em diferentes locais. Trata-se especialmente de uma rede de solidariedade e reciprocidade entre as famílias e de uma religiosidade popular, recorrente desde os tempos mais remotos. A organização familiar, pautada em torno de valores hierárquicos, reforça a importância do velho e da criança, como portador e receptor da memória, respectivamente. Além destes aspectos, a trajetória do grupo e a configuração atual apontam para uma relação assimétrica entre homens e mulheres e pelo reconhecimento apenas da autoridade masculina em detrimento de um poder e de uma atuação feminina. Uma análise mais criteriosa das relações de gênero apontam, no entanto, para uma atuação efetiva das mulheres na luta pela sobrevivência, na organização familiar e política, nas atividades religiosas e nas relações internas e externas ã Comunidade.
