CEDOC
O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.
A relação entre a fotografia e a etnografia nos estudos da Antropologia, apesar de antiga e densa, é incerta e complexa. Se por um lado a fotografia é a cada dia mais utilizada nos trabalhos antropológicos, por outro sua potencialidade como algo além da ilustração e de uma técnica de interação com o Outro é pouco explorada. A partir do exemplo, do legado, da trajetória de vida e, principalmente, da obra de Pierre Fatumbi Verger, esta pesquisa se dedica a analisar essa relação. Francês radicado na Bahia na década de 1940, Verger é conhecido mundialmente tanto por seu trabalho como fotógrafo quanto pelas suas pesquisa etnográficas. Há, entretanto, uma indefinição quanto à razão desse reconhecimento, e examinar as suas razões oferece um profícuo campo de reflexão sobre a pesquisa etnográfica, especialmente quando relacionada ao universo das imagens fotográficas. A Fundação Pierre Verger é a instituição que atualmente abriga o acervo do fotógrafoetnógrafo e onde foi realizada a pesquisa de campo através da qual, aliada à leitura de fotografias relacionadas ao candomblé em suas manifestações na África e na Bahia, foi criada uma metodologia de análise das fotografias que privilegia as interações e os diálogos como espaço de construção de definições sobre a etnografia. Pelo contato com a Fundação, seus freqüentadores e o acervo fotográfico ali disponibilizado, esta pesquisa pretende refletir sobre a etnografia e a construção de um olhar etnográfico em relação direta com o exercício da fotografia.
Estudar os sentidos das práticas associadas ao tomar chimarrão é o objetivo deste trabalho. Por meio da etnografia, busca-se refletir sobre o cotidiano do uso partilhado do mate no ambiente doméstico e nas rodas de chimarrão em Canoinhas. O município faz parte de uma das regiões de Santa Catarina onde ainda há grande produção e beneficiamento da erva-mate, uma das matérias-primas para o preparo do chimarrão. As reflexões apontam para um olhar que ultrapasse a perspectiva do senso comum e de estudos sistemáticos que abordam as rodas e outros eventos que envolvem o tomar chimarrão como sendo espaços onde a centralidade é a “busca de amizade”. Estes eventos, e particularmente as rodas, são lugares onde é possível perceber hierarquias, tensões e diferenciação. Além disso, podem ser espaçosmomentos para “atualizar-se” e trocar informações, onde muito mais é comunicado. A pesquisa nesta cidade aponta ainda para como cada um impõe um pouco de si ao tomar e ao fazer o chimarrão.
Esta etnografia analisa as concepções e práticas relacionadas à formação da criança, na localidade da Costa da Lagoa, Florianópolis, estado de Santa Catarina (Brasil). Como ferramentas metodológicas, utilizou-se a observação participante e conversas informais com os moradores sobre as experiências e interdições, desde a descoberta da gravidez ao puerpério, e ao longo da infância, relacionadas à “formação” da criança. Ao longo do estudo notou-se que a criança, ao mesmo tempo em que é um ser individual, é também um membro representante de família e formadora de uma rede relacional. Neste sentido, sua individualização ocorre na relação, pela lógica do convívio ou do contato metonímico. Desse modo, o corpo da criança é atravessado por canais de reciprocidade que também foram canais de coparticipação.
Busco com este trabalho contribuir aos estudos sobre religiões afro-brasileiras tendo como foco as moralidades sexuais de um grupo de pessoas que frequentam um terreiro de Almas e Angola em Florianópolis. Concomitantemente fazer uma discussão em torno das noções e expressões de moralidades. Para tal discussão tomo como ponto de partida três eixos de análise, 1) a construção da pessoa e corpo, 2) as relações de parentesco na família de santo e 3) a jocosidade como forma de expressão das moralidades. Meu argumento central é de que as relações na família de santo são fundamentais para a formação da pessoa em termos morais, assim como os rituais de passagem que vislumbram a construção de corpos e pessoas. Trato das relações na família de santo, objetivando discutir as relações de parentesco no santo e suas dimensões morais presentes nas regras de condutas. Ou seja, com base nas permissões e proibições de relacionamentos tentar relacionar como essas questões podem servir para pensar sobre a moralidade no grupo. Para por fim pensar na jocosidade e na prática em si das brincadeiras como uma forma, não totalizadora, muito específica que pode ser pensada como um domínio relativamente autônomo, que se relaciona também com a moralidade.
As mortes pela própria mão, ou “suicídio”, no interior das comunidades de Alto Bío Bío, no Chile, tiveram um aumento alarmante nos últimos dez anos. Este trabalho visa compreender através das narrativas das próprias pessoas Mapuche Pewenche qual é a significação atribuída a essas mortes. A dinâmica do trabalho de campo ao longo de cinco meses permitiu, sobretudo, conviver com pessoas Pewenche que tinham familiares mortos nos últimos dez anos por “suicídio”. De suas narrativas emerge um mundo polissêmico, onde não cabe uma concepção monolítica dos “suicídios”, que para surpresa da pesquisadora resultam num tema que se abre na memória, fluindo sem subterfúgios, emergindo múltiplo e tendo como pano de fundo a concepção da morte. A morte é o tema de entrada e saída, para compreender as mortes pela própria mão acontecidas nas comunidades. Enquanto uma viagem para kamapu (outra terra), a morte é nosso destino nessa terra e é abordada com a naturalidade da vida. Assim o campo mostrou que, seja qual for sua causa, a morte não é um tema tabu para os Pewenche. Também, demonstrou que os “suicídios” não podem ser atribuídos exclusivamente a uma causa individual. A partir dos relatos enquanto narrativas emerge um mundo de sentidos, relatos hiper-realistas aparecem como um contraste frente à resistência geral de falar desse tema na chamada “cultura ocidental”. Nos relatos, em seu sentido performativo, emerge um sentido novo, que organiza a experiência e permite dar uma compreensão inserida na cosmovisão dos Pewenche. Porém, as mortes acontecidas nos últimos anos reorientaram o sentido da vida de pelo menos uma parte já fragmentada dos Pewenche do Alto Bío Bío, especialmente nas comunidades que foram afetadas diretamente pelas represas construídas nos últimos anos. As machi ou xamãs, por sua vez, fizeram com que os Pewenche se olhassem e atendessem à voz dos espíritos que falam sobre as forças negativas que estão ganhando espaço e que provocam a desarticulação comunitária. As mortes são vistas como uma expressão do desequilíbrio, mas também por tratar-se de mortes inesperadas, segundo os xamãs. Elas falam de uma necessidade de reconstruir o território no sentido cosmo-político, ou seja, abrem um espaço para se pensar como um povo imerso em um contexto de globalização, com suas diferenças, num sentido político amplo, territorial, espiritual, ritual e social. A partir da concepção da morte dos Pewenche, a pesquisa de campo permite refletir e questionar a dimensão da morte na complexidade de olhares da(s) antropologia(s). O campo é um mergulho exploratório que abre um horizonte de trabalho rico e que ainda não foi suficientemente abordado pela antropologia. Só existem aproximações do campo da biomedicina, sob o risco de reduzir o fenômeno ao domínio do individual e o psíquico.
