CEDOC
O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.
A presente dissertação privilegia o estudo da interlocução entre Literatura, História e Psicanálise no contexto do romance português contemporâneo. No âmbito da “Tetralogia Lusitana” de Almeida Faria – composta pelos romances A paixão (1965), Cortes (1978), Lusitânia (1980) e Cavaleiro Andante (1983) –, investigamos como a História Portuguesa mais recente, marcada pelos processos pré e pós-Revolução dos Cravos, comparece nessas narrativas de modo a fomentar aquilo que Linda Hutcheon concebe como metaficção historiográfica. Neste sentido, analisamos as questões contidas em sua obra Poética do Pós- Modernismo (1991), que nos serviram de norte para pensar como Almeida Faria reinventa a História Portuguesa na economia ficcional dos seus romances. Para abordar a relação entre a Tetralogia Lusitana e a psicanálise, utilizamos o pensamento de Freud e de estudiosos envolvidos na crítica literária psicanalítica, para que pudéssemos refletir como o parricídio, o signo da morte, o luto, a melancolia e os sonhos das personagens podem ser lidos na esfera familiar do clã do Alentejo como uma alegoria dos acontecimentos políticos marcados pela queda de Salazar. Além disso, demonstramos que o evento da morte do pai é o ponto nevrálgico onde convergem os discursos da História e da Psicanálise, a partir da atuação de personagens dispersas que se comunicam, segundo a pesquisadora Lilian Jacoto (2005), por meio de uma poética das distâncias.
Uma proposta de leitura, Costurando um tempo no outro: vozes femininas tecendo memórias no romance de Conceição Evaristo, de dois romances que contam, através da narrativa ficcional, histórias de mulheres negras, homens, crianças e velhos que almejam melhorar de vida, mesmo diante das dificuldades, constitui objeto de estudo do presente trabalho. Refiro-me às obras: Ponciá Vicêncio e Becos da memória, da escritora Maria Conceição Evaristo de Brito, publicadas, respectivamente, em 2003 e 2006. A relação que a escritora estabelece entre a ficção e a História se evidencia na medida em que vai tecendo os fios da teia narrativa ao costurar um tempo no outro, passado, presente e o futuro, configurando-se como uma ressignificação de si e de memórias coletivas, esta recompondo o passado. Por meio das personagens, Evaristo vai construindo outra representação de identidade afro-brasileira, rasurando, com isso, imagens depreciativas que deturparam, sobretudo, as mulheres negras. Além do mais, sob a perspectiva ficcional, Conceição Evaristo traz para o bojo da discussão o preconceito, a discriminação, além de elementos religiosos e históricos que ajudam a compor o enredo dos romances, ampliando a proximidade entre o histórico e o ficcional. Mas se Conceição Evaristo delineia um olhar outro sobre a figura da mulher negra na sociedade, forjando, por meio da escrita, uma outra construção identitária desatrelada de representação depreciativa, então, como são representadas as personagens femininas negras na escrita da autora, uma vez que fogem da representação de submissas, inferiores, ou, ainda, de objeto de prazer? Partindo dessa indagação e dentro do que se propõe este estudo, pretende-se ainda demonstrar, através das representações das personagens femininas negras, algumas características que lhes são próprias, seja a partir de um olhar acerca de suas trajetórias de vida, da condição de vida e das relações sociais, sobretudo, das personagens protagonistas femininas. Portanto, este estudo foi organizado, conforme a linha de pesquisa Literatura e Mulher, a partir dos estudos feministas e de gênero. O presente trabalho caminhará por essas pegadas-pistas do passado e do presente.
Segundo a lenda, Teiniaguá seria uma princesa moura trazida pelos árabes da Península Ibérica para a América do Sul e amaldiçoada pelo Diabo. Quando chegou a terras gaúchas, ela foi salva por um sacristão, a quem seduziu. Depois de uma noite de amor, ele foi condenado à morte pela Igreja, mas Teiniaguá aparece no momento em que ele está indo para o garrote e o salva, indo viver com ele no Cerro do Jarau durante 200 anos, até serem salvos por Blau Nunes. Marie Josephte Corriveau, conhecida como “La Corriveau”, foi, segundo o etnólogo Luc Lacourcière, a mulher que carregou a pior reputação da história canadense e, mesmo tendo morrido há mais de dois séculos, ela continua, como um fantasma, alimentando o imaginário de seu povo. A Corriveau foi condenada à morte pelo assassinato de seu segundo marido, embora a lenda conte que ela teria matado sete. A partir da análise dessas representações femininas, o presente estudo pretende demonstrar como esses seres ficcionais tiveram influência na reputação da mulher e na constituição da identidade feminina.
A proposta da chamada Geração da Orpheu foi, de modo geral, desestabilizar o acanhado público português. De seus integrantes, destacam-se as produções de Mário de Sá-Carneiro e de Fernando Pessoa que potencializam, cada um à sua maneira, a grande viagem literária da modernidade, da qual se evidencia o esfacelamento do sujeito. Vazio, dor, abstração, sofrimento são alguns dos sentimentos que insurgem, via sensação, e se materializam, no trânsito pela cidade - deambulação que possibilita delinear uma (possível) cartografia do sensível. Este estudo objetiva, portanto, investigar o modo como Mário de Sá-Carneiro Fernando Pessoa/Bernardo Soares, em seu Livro do Desassossego, elaboram suas Poéticas do Deslocamento, num movimento de errância entre o Eu e o Outro, a partir da construção do sensível. Nesse processo, percebemos que a sensação vertida em sentimento acompanha de modo bastante peculiar e indelevelmente as construções/percepções identitárias desses sujeitos poéticos.
O presente trabalho consiste em uma pesquisa de cunho qualitativo, que teve por objetivo analisar os relatos sobre práticas sexuais de mulheres, obtidos através de consultas de enfermagem em sexualidade, realizadas entre março de 1993 e março 2003 em Florianópolis (SC). Para a analise deste material foi feita revisão teórica em torno dos seguintes tópicos: os modelos teóricos da sexologia, a resposta sexual humana, as relações entre gênero e sexualidade, a questão da identidade e a diversidade sexual humana. A Análise de Conteúdo proposta por Bardin foi utilizada como metodologia para categorização das mulheres estudadas em três grupos: mulheres com relato de práticas hetero, mulheres com relato de praticas bissexual e mulheres com práticas homossexuais. Os conceitos de reflexividade, de senso comum e de gênero fundamentaram a análise dos resultados. Observou-se que as principais diferenças entre as três categorias são: a) as mulheres heterossexuais tendem a ser mais enquadradas pelas normas de gênero; b) o reconhecimento da sexualidade como uma fonte de prazer e de satisfação tanto para homens quanto para mulheres é maior entre as mulheres com relato de práticas homoeróticas; c) a ausência de orgasmo na prática sexual com homens, a vontade de agradar incondicionalmente ao parceiro, o incremento na vida sexual associados à transgressão à norma, à rejeição aos papéis pré-determinados e à vivência de novas experiências – comuns na juventude, parecem propiciar a experimentação por parte das mulheres de práticas bissexuais; d) há entre as mulheres com relato de prática homossexual uma resistência em repetir os padrões dos casais heterossexuais e) por não encontrar espaço para diversidade sexual nas doutrinas religiosas as mulheres homossexuais acabam optando pelo abandono da religião; f) existe uma tendência por parte das mulheres com práticas heterossexuais de relatarem dificuldades no exercício da sexualidade; g) nas práticas homoeróticas as mulheres se sentem com maior abertura para verbalizar seus desejos/necessidades sexuais; h) as mulheres heterossexuais tomam menos a iniciativa sexual; i) as preliminares são mais curtas ou inexistentes nas práticas heterossexuais; j) diferentemente da conjugalidade homossexual, na conjugalidade heterossexual as mulheres abdicam da prática masturbatória; l) o orgasmo vaginal é percebido e perseguido como signo de normalidade pelas mulheres com relato de práticas heterossexuais e bissexuais; m) as mulheres com práticas homoeróticas não acreditam que sexualmente a mulher deve ser passiva e nem que precisem de homem para satisfação sexual; n) para as mulheres com práticas homossexuais, é valorizado o prazer e a vivência satisfatória da sua sexualidade; o) nas práticas heterossexuais observa-se que a penetração vaginal é hegemônica. Como características comuns aos três grupos destacam-se: a) a ausência de orgasmo somente com a penetração vaginal; b) que quanto mais baixa a camada social e menor o capital cultural maiores as distinções nos valores emitidos e nas condutas em relação à sexualidade e a ação do gênero agregando-se à do meio social, modulando normas, representações e práticas da sexualidade. A revisão da literatura propiciou a percepção da construção do discurso da sexualidade e da instituição da norma social de um duplo padrão sexual que institui comportamentos sexuais apropriados para cada um dos gêneros na contemporaneidade. As falas das mulheres indicam que apesar das conquistas feministas do século XXI, perduram as assimetrias de gênero, na medida em que o exercício da sexualidade, independentemente da prática sexual vivenciada, ainda é permeado por conflitos originados nas questões relativas às construções de gênero, à identidade, à falta de conhecimento sobre o corpo e à visão heteronormativa incapaz de transcender os dualismos.
