Instituto de Estudos de Gênero

CEDOC

O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.

Tese
Trajetória e Resistência: Uma analise antropologica das emergentes praticas discursivas das mulheres intelectuais mayas da Guatemala (1988-2008)

Esta dissertação pretende revelar como os processos econômicos, políticos e sócio-culturais, permitiram a constituição e a emergência das práticas discursivas de dez intelectuais mayas, interlocutoras neste trabalho. Além disso, coloca em evidência como os fatos de subjetivação e objetivação dessas mulheres tiveram um papel fundamental na construção de suas trajetórias bem como, de suas diversas estratégias de resistência e transgressão. Tais estratégias resultaram em uma profunda transformação pessoal, constituindo-se também em paradigmas diferentes para as próximas gerações de mulheres mayas e para a sociedade guatemalteca em geral. Adotei como ponto de partida os relatos de dez histórias de vida que tem como pano de fundo a violência extrema contra as mulheres vivida na cotidianidade guatemalteca. Destes relatos destacam-se as relações de poder, tendo como base teórica Michel Foucault, que as explica como uma força que coage, disciplina e controla os individuos através do aparato ideológico, burocrático e bélico. Essas relações de poder e suas diversas expressões serão enfatizadas a partir da intersecção com o gênero, a classe e a etnia, a fim de entender os nexos existentes entre as identidades dessas mulheres e seu trabalho político e intelectual. Epistemologicamente, a Antropologia Feminista é o eixo que guia esta etnografia, já que como ferramenta teórico-metodológica torna visível o lugar das mulheres, assim como também valoriza a questão da subjetividade e o significado da experiência individual, acadêmica e coletiva dos sujeitos da pesquisa. Paralelamente, como metodologia, revisou-se os aportes teóricos do modelo foucaulteano da “genealogia e arqueologia do saber”, para estabelecer a emergência das práticas discursivas. E, para alcançar este objetivo, se privilegiou a metodologia qualitativa, pois esta dá ênfase ao estudo dos processos sociais. Como parte da estratégia metodológica buscou-se trabalhar com a técnica de “Histórias de Vida e testemunhos”, portanto, no que se refere aos procedimentos metodológicos, cabe mencionar que a etnografia aqui não é apenas pensada como um conjunto de técnicas, mas sim como uma articulação entre dados empíricos e teóricos que acaba por fornecer, na fase final do trabalho, um texto de cunho antropológico. A importância deste estudo sobre as mulheres indígenas torna-se mais uma ferramenta para que se identifiquem eventos cotidianos de resistência e transgressão nos espaços rituais, políticos, acadêmicos, territoriais, sociais, étnicos e religiosos. Finalmente percebe-se que embora, as protagonistas desta etnografia se desenvolvam em um sistema dominante neoliberal, elas emergem com uma série de práticas discursivas, com as quais propõem e participam da construção de uma sociedade mais equitativa, enriquecendo e transformando o conteúdo simbólico, político e social das mulheres indígenas da Guatemala e, nesse sentido, das mulheres indígenas do mundo. Mulheres intelectuais mayas que como menciona Edwar Said (1996) desmistificam, que criticam, que estão sempre alertas à manipulação do poder e, sobretudo, lutam por sua independência intelectual, tanto através de seus espaços privados quanto públicos, onde elas transitam permanentemente.

Tese
Da Sexxxchurch a Capital Augusta: novas religiosidades na regulação da sexualidade

Centrada no universo de missões cristãs contemporâneas, esta dissertação aborda o extenso, híbrido e sincrético campo da religiosidade brasileira. Com base em pesquisa etnográfica de dois grupos situados no campo do protestantismo histórico reformado, reflito no primeiro, o “ministério” Sexxxchurch, sobre discursos de estímulo a falar sobre sexo a partir da pornografia. Através dele estudo as concepções sobre gênero e sexualidade construídas em um contexto que une saberes religiosos e técnicos e os traduz em regimes de subjetivação do corpo, do desejo e do prazer. O segundo grupo, a igreja Capital Augusta, nos dará a dimensão analítica de uma religiosidade que se constitui a partir de um discurso “inclusivo”. Os dois grupos inserem-se no contexto das “missões urbanas”, categoria êmica que traduz demandas múltiplas de evangelização que se produzem em uma dimensão local e globalmente e que é movimentada por sujeitos jovens. Ambos os grupos apresentam, a partir de um discurso que se quer pornográfico e inclusivo, mecanismos de regulação da sexualidade cujo centro da problematização encontra-se na homossexualidade. Assim, a pesquisa apresenta um campo religioso contemporâneo que se articula através de redes de sociabilidade onde circulam missionários, pastores e fiéis, que compartilham saberes, perspectivas e práticas sociais relativas à sexualidade, que configuram religiosidades e moralidades.

Tese
Um Grande Juri: analise do processamento penal do aborto

A criminalização do aborto no Brasil incide sobre uma pequena parcela da ocorrência dessa prática, o que significa que poucos são os casos reportados e julgados no Sistema de Justiça. No entanto, no ano de 2007, no estado do Mato Grosso do Sul, mais de mil mulheres são acusadas da prática de aborto de uma só vez. Com o objetivo de compreender como ocorre o processamento penal do aborto no país, o presente trabalho adota este caso como “exemplo” por congregar um potencial material de pesquisa em um único evento. Para isto, foram analisados os processos penais agregados ao caso, entrevistados os diversos envolvidos (operadores da Justiça, mulheres, advogados, feministas) e também realizados acompanhamentos de sessões nos tribunais. A criminalização do aborto demonstra aqui ser muito mais que um simples evento processual do Sistema de Justiça, pois evidencia entendimentos sociais locais do que é considerado a Justiça, o crime, quem são as mulheres criminalizadas. Concluímos que a forma como se deu o julgamento destes casos de aborto serviu de reforço à criminalização desta prática no local estudado e no Brasil.

Tese
Pântanos de relações e colchões de cumplicidade: academia e conjugalidade na perspectiva de quatro mulheres intelectuais

“Pântanos de relações e colchões de cumplicidade”: Academia e conjugalidade na perspectiva de quatro mulheres intelectuais. Muitas vezes, aquilo que está mais próximo escapa de nosso escopo antropológico, seja por sua complexidade, seja por sua “naturalidade”. Assim, nessa dissertação abordo, através da trajetória de quatro mulheres intelectuais da área das ciências humanas, casadas com outros intelectuais, como academia e conjugalidade interpelam-se ao longo de suas carreiras. Ao acompanharmos suas histórias de vida e depoimentos suscitam-se questões importantes para os estudos de gênero e estudos de meios intelectuais: quais são as condições de produção de mulheres acadêmicas no Brasil dos últimos 50 anos? Quais os padrões de conjugalidade que emergem dessas trajetórias? Assim, discuto ao longo da minha dissertação as condições do trabalho intelectual feminino, conjugalidade em camadas médias intelectualizadas, cotidiano e competição acadêmica, nomeação e renomeação conjugal e suas relações com um meio de produção autoral. Por fim, essa iniciativa insere-se em uma vertente dos estudos feministas que propõe-se a visibilizar trajetórias acadêmicas-intelectuais-científicas femininas de modo a propor outras linhagens e possibilidades de filiação para nossas disciplinas.

Tese
Nós já somos uma família, só faltam os filhos : maternidade lésbica e novas tecnologias reprodutivas no Brasil

Esta etnografia busca apresentar reflexões preocupadas com a parentalidade homossexual e com as relações de parentesco forjadas e remodeladas através da reprodução assistida. Neste sentido, problematizo o modo como a conjugalidade homossexual, a homoparentalidade e as novas configurações familiares complexificam o debate que tange a reprodução assistida e o corrente entendimento do que seja natural na reprodução humana, nos obrigando, assim, a repensar as categorias básicas do nosso parentesco. Em sintonia, o interesse central desta pesquisa é a maneira como lésbicas que procuram por novas tecnologias reprodutivas estão construindo, remodelando, classificando e pensando o modelo estabelecido de parentesco, parentalidade e família. O esforço deste trabalho foi o de atar diferentes lados e ambigüidades a respeito da temática presente nas trajetórias de vida, discursos, notícias, blogs e comunidades de redes sociais. A possibilidade de não ver as relações sociais como uma via de mão única animaram este caminho. Destaco que a família homoparental não é apenas uma tentativa de assemelhar-se a um modelo vigente. É antes outra coisa, um processo complexo que necessita investigação já que as práticas parentais são mais que simples conseqüências dos valores do casal, estando sujeitas às pressões da rede familiar mais ampla, de colegas de trabalho e amigos. Tais desejos por filiação também são exemplares de uma estratégia coerente que visa dar à conjugalidade homossexual legitimidade perante a sociedade que continua materializando este arranjo familiar em um recorte stigmatizado. As interlocutoras deste trabalho são casais formados por mulheres lésbicas que procuram ou que já realizaram o procedimento de reprodução assistida.

Inscreva-se para receber nosso boletim