Instituto de Estudos de Gênero

CEDOC

O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.

Tese
Encontros do feminismo: uma análise do campo feminista brasileiro a partir das esferas do movimento, do governo e da academia

Este trabalho analisa as tensões, impasses e desafios teórico-políticos no feminismo brasileiro contemporâneo. Sob diversas perspectivas a bibliografia disponível sobre os vários feminismos que estiveram presentes no Brasil a partir de 1975 nos encaminham para compreender o mesmo como sinônimo do movimento, atribuindo-lhe um caráter generalizante (ZUCCO, 2006, SOIHET, 2006). Para tratar do feminismo brasileiro de uma perspectiva distinta, utilizo-me da noção de campo, em diálogo com Lia Zanotta Machado (1994 e 1998) e Marlise Matos (2005) que a discutem a partir da idéia de campo bourdiano. Para efeitos analíticos, compreendi o campo feminista a partir da construção de três categorias, que denominei de “esferas feministas” da academia, do movimento e do governo, consciente de que as mesmas se interligam e imbricam. Ao considerar que o campo feminista possuía claramente estes três âmbitos, pude percorrê-los com mais clareza, e buscar em cada um deles suas especificidades, tensões internas e interfaces com os outros dois. Para analisá-los focalizei importantes espaços de debate e construção de idéias e ações do campo. Dentre estes, elegi, a partir de uma perspectiva etnográfica, os grandes encontros nacionais acadêmico, governamental e do movimento feminista, entre os anos de 2004 e 2006, enquanto eventos paradigmáticos, com ênfase nas falas e outras manifestações narrativas (PEIRANO, 2001). Cada um dos encontros foi analisado em três capítulos distintos, divididos a partir das categorias arbitrárias do movimento, do governo e da academia, orientando as análises sobre cada uma destas esferas, de forma a expressar tanto as suas particularidades quanto suas imbricações. Algumas das questões feministas que enumerei circulavam em torno de conceitos como igualdade, direitos, autonomia, democracia e constituição de sujeitos políticos. Dentre as tensões mais aparentes estavam a disputa por legitimidade dos sujeitos políticos, por pautas específicas dos distintos segmentos, e a questão da militância na academia, desvelando o debate sobre fazer (ou não) ciência engajada. Se por um lado, há uma disputa por hegemonia no campo (LACLAU E MOUFFE, 1985), os caminhos e argumentos utilizados são contingenciais (BUTLER, 1998). O estatuto do sujeito, discutido de maneira ampla, e fonte de disputas teóricas – pós-modernas, pós-estruturalistas e modernas – reverbera no debate feminista, nas três esferas, de formas específicas e inter-relacionais. Além disso, o paradoxo da diferença sexual continua sendo utilizado nas argumentações em prol de cidadania para as mulheres (SCOTT, 2002).

Tese
Gênero, corpo e sexualidade: processos de significação e suas implicações na constituição de mulheres com deficiência física

As questões de gênero constituem um aspecto importante no estudo da experiência da deficiência. A imbricação dos discursos relacionados à deficiência e à feminilidade é geradora de opressão e de vulnerabilidade. O presente estudo teve como objetivo compreender o processo de constituição de mulheres com deficiência física nas dimensões de gênero, corpo e sexualidade, buscando-se identificar as mediações que foram importantes para a configuração de tais dimensões, bem como as transformações ocorridas a partir da participação das mulheres em um grupo voltado à discussão e reflexão acerca das dimensões acima explicitadas. Os sujeitos participantes da pesquisa foram oito mulheres com deficiência física, com idades entre 24 e 68 anos, integrantes de um grupo mulheres coordenado pela pesquisadora que, no período da realização da pesquisa, já ocorria a mais de quatro anos em uma associação de pessoas com deficiência física. As informações foram coletadas por meio de entrevistas individuais em profundidade e observação participante e posteriormente analisadas com base na metodologia de análise do discurso. O referencial teórico norteador da pesquisa foi baseado na Psicologia Histórico-Cultural de Vygotski e no seu diálogo com as teorias de gênero e com o modelo social da deficiência. Ancorado nestes referenciais, o estudo enfatizou a experiência da deficiência e sua articulação com as dimensões de gênero, raça, geração e classe social. Constatou-se que o processo de constituição das mulheres entrevistadas foi mediado principalmente por significações relacionadas à infantilização, à atribuição do lugar social de assexuadas, à negação da possibilidade de tomar decisões em todas as dimensões da vida, à discriminação do corpo dissonante dos padrões atuais difundidos pelos discursos médicos e midiáticos, à caracterização delas como incapazes de reproduzir as atribuições de gênero instituídas socialmente, à limitação do acesso de ir e vir e consequente isolamento social. Os discursos baseados no modelo médico da deficiência e na sexologia tradicional, presentes nos variados âmbitos sociais, também foram mediadores desse processo por considerarem a deficiência como um desvio a ser corrigido e a sexualidade como uma questão sem importância no processo de reabilitação. Embora esses discursos e significações acerca da deficiência estivessem disponíveis para todas as mulheres, elas deles se apropriaram de formas diversas, ora aceitando-os, ora resistindo a eles e criando formas distintas de pensar, sentir e agir. A participação das mulheres nas atividades da associação de pessoas com deficiência, incluindo os grupos lá realizados, contribuiu para que se reconhecessem como pessoas com deficiência, construíssem uma identidade coletiva positiva, desenvolvessem estratégias de enfrentamento do preconceito e dos demais processos de exclusão/inclusão social perversa vivenciados cotidianamente e se mobilizassem a participar dos espaços legitimados de controle social. Portanto, o estudo mostrou que a deficiência é uma categoria transversal à constituição dos sujeitos, corroborando para o aumento da vulnerabilidade e opressão social. Por outro lado, a participação em grupos de reflexão configura-se como uma estratégia de resistência a essa opressão, permitindo espaços de emancipação por meio de práticas coletivas de identificação e reciprocidade social.

Tese
Mulheres do século XX: memórias e significados de sua inserção no mercado formal de trabalho

O presente trabalho refere-se à pesquisa realizada com cinco sujeitos, sendo tres mulheres e dois homens com idades entre 74 e 86 anos, sobre os sentidos atribuídos à inserção das mulheres no mercado formal de trabalho que se intensificou a partir de meados do século XX. A despeito das mulheres sempre terem trabalhado, não eram significadas como trabalhadoras e a pesquisa buscou identificar se, com sua inserção em massa nesse mercado, os sujeitos entrevistados teriam subjetivado essa presença e se haveriam mudanças nesse significado. Para a pesquisa foram realizadas entrevistas com roteiro norteador de perguntas tendo em vista depoimentos dos participantes sobre as mudanças sociais do século XX, tal como visibilizado por Eric Hobsbawm na obra A era dos extremos - O breve século XX – 1914 – 1991, ou seja, o declínio do campesinato, o avanço da industrialização, a disseminação da escolarização superior e a inserção das mulheres no mercado formal de trabalho. Da fundamentação teórica constou a história das mulheres como trabalhadoras desde alguns países da Europa do século XIX, Brasil, sul do Brasil e região de domicílio das entrevistadas e entrevistados, significado do trabalho, relações de gênero no trabalho, memória social e coletiva e alguns conceitos da psicologia histórico cultural de Vigotski, aporte de análise do conteúdo das informações obtidas nos depoimentos. Os resultados da pesquisa mostram que os sentidos atribuídos à presença feminina nesse meio referem ao reconhecimento de seu potencial, capacitação e competência para o trabalho remunerado, sendo que não mais admitem a diferença de remuneração a menor por elas percebido. Este sentido subjetivou-se e tornou-se singular para cada sujeito, a partir da prática social que essa inserção passou a representar na vida social e cultural do século XX e chega ao século XXI com novo sentido.

Tese
Um homem para chamar de pai: concepções de paternidade de meninos afastados de suas famílias e colocados em regime de abrigo

A importância da figura do pai nos tradicionais estudos sobre o desenvolvimento infantil e do adolescente tem sido em relação à autoridade e limites, nos processos de constituição do sujeito, visto como uma figura que ocupa um lugar secundário na formação de seus filhos. Na perspectiva histórico-cultural em psicologia o homem é visto como produto e produtor da realidade e da história através de sua ação no mundo, sendo que este processo se dá através da mediação de instrumentos e signos. As relações que uma criança estabelece no/com o mundo são inicialmente mediatizadas por seus adultos, sejam eles do sexo feminino ou do sexo masculino. O modelo de pai presente no ideário coletivo da atualidade é o modelo das classes dominantes, isto é, o pai provedor e protetor da tradicional família burguesa. Esta pesquisa teve a intenção de investigar como é que meninos idealizam-se como pais, partindo de dois pressupostos: 1 – tanto a figura materna como a figura paterna, podem ocupar lugares semelhantes nas experiências da criança com o mundo como mediadores, independente do sexo ao qual pertencem: 2 – a internalização de concepções/papéis/modelos de ser homem/pai para meninos/adolescentes está relacionada com experiências vividas com outros homens, além do próprio pai, na vida cotidiana. Foram entrevistados seis meninos/adolescentes afastados de suas famílias, oriundos das camadas populares, com idades entre 12 e 17 anos e em regime de abrigamento no município de Joinville. A coleta de dados deu-se através de entrevista semiestruturada e de um “grupo focal”, com o objetivo de buscar os depoimentos dos sujeitos da pesquisa em relação à suas experiências com o pai biológico e/ou substituto e um outro homem que pode ser chamado de pai. Constatou-se que os lugares ocupados por figuras do sexo masculino por homens que desempenham atividades relacionadas ao papel de pai no cotidiano de meninos afastados de suas famílias e colocados em regime de abrigo, podem ser significativos para a internalização de concepções/papéis/modelos de paternidade.

Tese
Sentidos atribuídos por adolescentes ao consumo de bebidas alcoólicas no meio oeste catarinense

A presente pesquisa de dissertação de Mestrado em Psicologia - UFSC, fundamentada na teoria histórico-cultural em Psicologia, teve como objetivo investigar os sentidos atribuídos por adolescentes da região Meio-Oeste catarinense ao consumo de bebidas alcoólicas. Embora existam inúmeros trabalhos relacionados ao tema em questão, cabe ressaltar que não foram encontrados, durante o período da pesquisa, estudos que tivessem estreita relação com o consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes em município de pequeno porte. A maioria dos trabalhos encontrados aborda o consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes relacionados a outros tipos de drogas, tanto lícitas (tabaco e medicamentos), quanto ilícitas (maconha, cocaína, êxtase). Essa situação remete a pensar não somente sobre os aspectos relacionados à adolescência como período importante do desenvolvimento humano, mas também sobre as diversas situações a ela relacionadas, dentre elas os sentidos atribuídos ao consumo de bebidas alcoólicas. Para a realização da pesquisa, foram entrevistados seis adolescentes com idades entre 15 a 19 anos. As entrevistas semi-estruturadas foram organizadas em torno dos eixos temáticos: adolescência, consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes e consumo de bebidas alcoólicas na família de origem. Os dados obtidos nas entrevistas foram submetidos à análise do conteúdo do discurso, levando em consideração os apontamentos existentes na literatura científica. Foi possível identificar que o consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes é associado à facilitação para a sua socialização e ao enfrentamento de situações novas. Outro aspecto apontado relaciona-se à solidão e à falta de companhia feminina, no caso dos meninos. Ainda, no que se refere aos meninos, aparece o consumo de bebidas alcoólicas associado à identificação com o modelo masculino e à sociabilidade masculina. Também evidencia-se a relação entre o consumo e o fato de os pais beberem habitualmente, bem como se identificou tal consumo associado a sofrimento e à fuga da realidade. Apesar dos vários estudos e pesquisas nesse campo, o estereótipo de uma adolescência conturbada e de um adolescente rebelde ainda persiste, merecendo, dessa forma, um olhar mais cuidadoso.

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