CEDOC
O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.
No presente artigo,1 buscarei refletir sobre uma família recomposta homoparental feminina da periferia da cidade de São Paulo, no que concerne à conjugalidade, ao relacionamento com as filhas, com a família extensa e com o ex-marido. Analisam-se possíveis variáveis que influenciam na forma como a lesbianidade é tratada e vivida e como diferentes posições relativas à questão podem levar a distintos arranjos familiares. No caso enfocado, a vivência de uma militância política e a concepção de lesbianidade como “condição” levam a uma publicização da mesma que terá repercussões na configuração dessa família. Por fim, partindo de uma consideração acerca dos dados etnográficos pesquisados, repenso a própria noção de lesbianidade e de pluriparentalidade.
- Estudos Feministas, vol. 14, n.2
Este estudo analisa o choro e/ou a ausência dele como um dos parâmetros usados, especialmente nos séculos XIX e XX, para se definir masculinidade e virilidade. Examina também os discursos das emoções fortes (fúria, medo, dor, vergonha) e as mudanças de código do significado de masculinidade e virilidade que ocorreram a partir dos anos 60, fomentadas, em parte, pelos movimentos de contra-cultura. Utiliza vários textos (o filme “A intrusa”, algumas passagens de Grande sertão: veredas, o Canto V de Os lusíadas e várias letras do cancioneiro popular brasileiro) como exemplos da desconstrução da masculinidade e da virilidade e das discussões teóricas apresentadas ao longo deste trabalho.
- Cadernos Pagu, Trajetórias do gênero, masculinidades..., v.11
Este trabalho tem como objetivo apresentar a possibilidade de uma revista, destinada ao público feminino, servir como “lugar de memória” (Pierre Nora). Para tanto, formou-se um grupo com três mulheres que foram leitoras da revista Capricho nas décadas de 1950 e 1960, onde elas puderam folhear exemplares da revista da época citada. As memórias das três entrevistadas me deram o “sumário” desta tese. Suas falas lançaram faróis diante de alguns temas, como a publicidade e as fotonovelas. Dessa forma, dividi este trabalho em duas partes. A primeira, que compreende o capítulo 1, está relacionada ao primeiro momento de minha pesquisa, ao contato que tive com minhas três entrevistadas. Neste capítulo discuto dois grandes temas: memória e as possíveis relações estabelecidas entre leitoras e revistas. A segunda parte desta tese é composta por dois capítulos: um sobre fotonovela e outro sobre publicidade. A fotonovela foi referida, por todas elas, como sendo o grande motivador para a compra da Capricho. Neste capítulo conto um pouco da história deste tipo de narrativa sentimental, num segundo momento abordo a relações entre leitoras e fotonovelas, tecendo discussões sobre as heroínas, os heróis, o amor, os códigos morais e de conduta, entre outras questões. A publicidade foi o maior desencadeador de memórias. No capítulo dedicado a esse tema discuto a possibilidade que a publicidade abre para a análise dos papéis sociais que se espera que sejam desempenhados por mulheres e homens de uma determinada época. Apresento reflexões acerca da publicidade como fonte de informação, na seqüência, desenvolvo uma discussão sobre a relação entre os anúncios e os cuidados de si e os cuidados do outro, seguido por ponderações sobre as imagens das mulheres que ilustram as publicidades. Importante ressaltar que todos os temas que discuto ao longo desta tese: memória, práticas de leitura, fotonovela e publicidade, têm como pano de fundo as categorias gênero e subjetividade. Através desta pesquisa foi possível vislumbrar uma forma de acesso através das revistas, memórias e narrativas a aspectos relacionados à história das mulheres e das relações de gênero. Ficando, também, evidenciado que a revista Capricho além de um “lugar de memória” compreende um espaço de contribuição para a constituição de subjetividades de mulheres de diferentes épocas.
Esta é uma tese sobre pescadoras embarcadas na pesca artesanal no Litoral de Santa Catarina, Sul do Brasil, sendo que procurei observar como, onde, porque e até que ponto estas mulheres se reconhecem, são reconhecidas, e como estariam buscando o reconhecimento de seus direitos como pescadoras. Afirmar que estas mulheres atuam como embarcadas na pesca artesanal implica dizer que trabalham em embarcações pequenas, entre três e nove metros de comprimento, se deslocando ao mar e retornando à terra diariamente em períodos que oscilam de três a dezesseis horas, dependendo se trabalham com peixes, camarão, siri, berbigão. Diferenças que compõem os saberes-fazeres da denominada pesca artesanal em que as pescadoras se deparam com elementos agentes que interferem diretamente o cotidiano da pesca e a sua relação com o mar, fonte de renda, mas também de fuga e terapia. Por serem mulheres, estas pescadoras se deparam continuamente com o não reconhecimento delas por parte do Estado e de seus técnicos, assim como nas próprias pesquisas acadêmicas e na sociedade de forma ampla. Emergem, no decorrer da tese, questões relacionadas às suas vidas, como o aprendizado e o trabalho, o gosto pela pesca, corpos e corporalidade, a circularidade entre diferentes saberes na relação entre pescadoras e extensão rural. O fulcro da tese diz respeito a questões sobre reconhecimento e (in)visibilidade de mulheres na pesca, observando que em meio aos constantes (a)sujeitamentos, elas vêm se construindo como sujeitos, pescadoras, em que o riso, o bom humor e a jocosidade são táticas de sobrevivência e de duração.
Uma proposta de leitura de um romance que conta quinhentos anos de história do Brasil ou quinhentos anos de história das mulheres no Brasil. Refiro-me à obra A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas, de Maria José Silveira, publicada em 2002. Observa-se, na estrutura do romance, a relação que a autora estabelece entre ficção e história, num jogo bem undido entre vinte personagens mulheres. Apresento, desse modo, uma reflexão que incide sobre as tais personagens e o período histórico em que viveram. Entram em pauta debates morais, nos quais se afirma a periculosidade dessa prática e que resultam numa série de acontecimentos recolhidos, agrupados, organizados, de modo a constituir um anel de uma grande cadeia de fatos históricos. A cintilação destes, sem lei aparente, choca-se, mistura-se e comanda-se reciprocamente em torno de cada mulher, em cada momento de sua vida. Uma reconstituição da chegada dos portugueses ao Brasil, de 1500 até o século XXI. Ou seja, de Inaiá a Maria Flor. Entre elas, uma história de revolução constante, paciente, obscura e prudente, talvez.


