
Consciência negra e a luta antirracista
Confira o artigo da edição Outubro/Novembro do Boletim!
A primeira vítima da pandemia de Covid-19 no Brasil, foi uma mulher negra de 63 anos. Cleonice Gonçalves, trabalhadora doméstica, contraiu o vírus na cidade do Rio de Janeiro, de sua patroa que voltava de uma viagem internacional. Após o governo federal decretar a quarentena nacional, os estados classificaram as trabalhadoras como serviço essencial, evidenciado as diversas maneiras que a pandemia impactou os grupos sociais, seguindo a lógica classista, sexista e racista.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que no ano de 2019, mulheres pretas são as maiores responsáveis por ocupações no ramo doméstico, cerca de 94,1%, trabalho historicamente ligado à prática escravocrata e ao processo de exploração da população. De acordo com a ativista e filósofa Angela Davis, “O enorme espaço que o trabalho ocupa hoje na vida das mulheres negras reproduz um padrão estabelecido durante os primeiros anos de escravidão”. Com o início do período abolicionista, e nenhuma política de inclusão no país, as mulheres negras foram confinadas ao trabalho doméstico, tornando a prática naturalizada e herdade de mães para filhas.
Para o sistema escravista, as mulheres eram mais lucrativas em comparação aos subordinados do sexo masculino, “seu custo de exploração e manutenção era menor que os homens no auge da força”, além do mais, poderiam ser designadas a função de “reprodutoras” por seus senhores de engenho. As opressões sofridas pelas mulheres negras neste período, são imensuráveis: da coerção sexual ao abuso físico, fez com que corpos negros ainda carreguem a dor da desumanização de seus antepassados.
O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão. Foram três séculos, resultando na dívida histórica para com a população negra até hoje. Os mecanismo criados pelas elites, detentoras de poder estatal, em busca de afastar o povo preto da possibilidade da emancipação social foram vários: a Constituição de 1824, que impedia o acesso de pessoas negras à educação, a lei de terras de 1850, que condicionava o acesso a terras, de compra e venda, levando a que pessoas escravizadas não pudessem ter acesso à propriedade.
Esses fatores, entre outros mecanismos, enraizaram o racismo estrutural na sociedade brasileira, bem como a naturalização da ausência de pessoas pretas em espaços de poder ou relegadas a ocupar subempregos. A ampliação da política de cotas em vários âmbitos da sociedade é necessária e urgente, ser contrário a isso, é manter a estrutura vigente de privilégios sociais, econômicos e sistêmicos. Questionar os privilégios e a branquitude, mostra-se como uma postura que soma na luta antirracista. Conforme afirma Angela Davis, “Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”.
Segunda a filósofa e feminista negra Djamila Ribeiro, para ser um membro atuante na luta antirracista você “Deve se informar sobre o racismo, reconhecer privilégios da branquitude, ler autores negros, questionar a cultura que consumimos e conhecer nossos desejos e afetos, por exemplo, são passos essenciais para que esse processo de mudança aconteça”. Nesse mês da consciência negra, temos mais uma vez, inúmeras oportunidades de reflexão, debates e aprendizados sobre a questão racial, que não é somente teórica, mas que demanda uma mudança de atitude pessoal, cultural e social.
Fontes:
Negros são os que mais morrem por covid-19 e os que menos recebem vacinas no Brasil; Trabalho doméstico remunerado: contradições estruturantes e emergentes nas relações sociais no Brasil; Mulheres pretas são as mais responsáveis por afazeres domésticos, segundo IBGE; Dia da Consciência Negra e luta antirracista; Mulheres, Raça e Classe - Angela Davis.









