CEDOC
O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.
Esta dissertação consiste em uma análise de narrativas sobre homicídios que envolvem jovens em Santa Catarina. Nas últimas décadas o universo de homens com idades de 15 a 24 anos concentra a maior parte de vítimas nas situações de homicídio no Brasil. Os interlocutores da pesquisa são jovens que se encontravam em regime de “privação de liberdade” (internação) para o cumprimento de medidas socioeducativas. No tocante a perspectiva teórica, foca-se a dimensão vivencial das situações nomeadas como “violências”. Trata-se de uma maneira de pensar os homicídios praticados entre jovens a partir dos sujeitos sociais que emergem nas narrativas. Os interlocutores descreveram alguns casos de homicídios como “justificáveis”, passíveis de explicação e outros como “sem motivos”. Nas histórias sobre mortes, os sujeitos falaram também sobre suas próprias vidas no contexto do tráfico de drogas: a nada fácil “vida fácil”, os altos e baixos, o risco constante, a relação com a morte, as situações em que “é matar pra não morrer”. Em um âmbito mais geral, o diálogo entre teoria e dados etnográficos permitiu situar as vidas desses jovens como vidas: “arriscadas”, “desperdiçadas”, “matáveis”, vividas “no veneno”.
Este trabalho é resultado da pesquisa com a comunidade indígena Maia Achí de Rio Negro, localizada no município de Rabinal, província de Baja Verapaz, Guatemala. A problemática central é discutir sobre as identidades coletivas dos sujeitos que lutam por reconhecimento, depois de ter sobrevivido a cinco massacres, no contexto de sua resistência organizada ante a implantação da usina hidrelétrica ―Chixoy‖ em seu território. Na abordagem, se considera a categoria nativa ―vítima sobre-vivente‖ como forjadora da identidade dos sujeitos, cuja luta e protago-nismo têm origem num sentimento coletivo de injustiça. Assim, sob a pespectiva de Axel Honneth, a luta é analisada a partir da gramática moral dos conflitos, pois detrás de muitas reivindicações fica sempre uma condição que tem a ver com o plano da reparação moral. No entan-to, o reconhecimento centrado na reparação moral não nega as exigên-cias legítimas de reparação material (conforme a abordagem comparti-lhada entre A. Honneth e N. Fraser), que são, além da busca da justiça, demandas exigidas pelos sujeitos.
Aborda-se o conceito de mandato policial de grupos especiais de polícia a partir de observação participante e entrevistas junto a integrantes do BOPE-SC, tendo como método a análise de narrativas. Apresenta-se a carência de estudos que tratem explicitamente do mandato policial e algumas possíveis compreensíveis do que o seja a partir de uma análise da produção bibliográfica encontrada. Abordam-se, especificamente, as menções ao mandato policial de grupos especiais de polícia, ressaltando-se que só foram encontradas em manuais/monografias/sites de autoria de instituições de Segurança Pública ou representantes delas, nas quais o discurso não é analítico, mas apenas prescritivo/normativo. O fato de apenas nativos haverem falado, até o momento, sobre grupos especiais de polícia articula-se com as considerações feitas a propósito da posição do pesquisador em Antropologia, haja vista a condição da própria autora de compor o quadro de uma força policial ter sido uma via de entrada em campo. A entrada em campo também é descrita, a partir do uso que os participantes fizeram das categorias de mulher, psicóloga e policial civil, como já tendo sinalizado uma categoria fundamental para o entendimento do mandato policial de grupos especiais de polícia: a de masculinidade, identificada pelos policiais a atributos de virilidade como o uso da força e como condição na qual o sujeito se iniciaria. Fundamenta-se, no capítulo seguinte, como a representação que os policiais em questão fazem dos suspeitos/autores de crimes tem por função a estruturação, por oposição, da identidade do grupo especial de polícia. Em seguida, discute-se que o mandato de grupos especiais de grupo de polícia coloca em suspensão as categorias de Justiça e Direito, sendo que os policiais definem em seu trabalho sempre tendo por referência (tanto para se aproximar, como para se distanciar) o ordenamento jurídico e para, a partir dele, definirem o que consideram o princípio fundamental de sua atuação: a justiça. Entende-se que a suspensão de tais categorias deve ser pensada a partir das concepções destes policiais sobre o que os particulariza (que é, a propósito, o mesmo que entendem que os diferencia da polícia convencional): uma certa moral. Moral esta desenvolvida e visibilizada pelos treinamentos/cursos de formação e “mística” própria ao batalhão, e que atenderia a anseios inclusive da própria sociedade. Sobre a última, cabe mencionar a particular função da farda do batalhão: a de distintivo. Como uma síntese das discussões realizadas até o momento, compreende-se o mandato policial de grupos especiais de polícia como fundado em um ethos guerreiro, a partir do quê os policiais compreendem as relações estabelecidas entre as praças e os oficiais, entre o Comando do BOPE-SC e seus subordinados, entre o Comando do BOPE-SC e o Comando Geral. Este ethos guerreiro é exemplarmente manifesto no uso que fazem de metáforas animas e da categoria “rusticidade” para falarem de todas estas relações; principalmente, para falarem do trânsito entre diferentes posições hierárquicas realizado por todos os envolvidos nestas relações.
O presente trabalho é fruto de uma pesquisa com jovens em duas instituições que aplicam as chamadas medidas socioeducativas, uma de internação e outra de semi-liberdade. Assim, os sujeitos da pesquisa são jovens que o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, classifica como “adolescentes em conflito com a lei”. O foco da pesquisa são os sistemas de percepção e avaliação do mundo acionados pelos jovens, que operam distinguindo o bem do mal, o justo do injusto, como princípios de ação. O objetivo da pesquisa é, a partir da temática das moralidades, construir um modelo interpretativo atento às múltiplas dimensões de suas experiências - como um caminho para evitar a captura destes sujeitos exclusivamente sob a forma de “vítimas” ou “vitimadores” - e provocar o deslocamento analítico do “sujeito-vítima” para o “sujeito-agente”. A ideia é ver a experiência “vivida” como um tema genuíno de investigação, para melhor compreensão das formas culturais da vida. Para tanto, a categoria “vida loka” funciona como um ponto de partida, pois é acionada pelos próprios sujeitos como uma chave de interpretação e de significação para suas experiências e trajetórias. Em resumo, o texto procura mostrar a necessidade de se considerar a multivocalidade dos sujeitos em “conflito com a lei”, e faz uma crítica da leitura focada exclusivamente nos direitos do sujeito, apontando o rendimento analítico da leitura dos sujeitos dos direitos.
A presente dissertação consiste numa etnografia das experiências políticas entre os estudantes da Universidade de São Carlos da Guatemala. Nela, festas, greves, caminhadas, processos eletivos e outros acontecimentos em que os estudantes disputam o poder, dentro da Universidade e fora dela, são analisados como eventos críticos que expressam dramaticamente os principais elementos que configuram o seu “mundo da política” e, ao mesmo tempo, contribuem para a configuração dos estudantes universitários sancarlistas como sujeitos políticos. A perspectiva segundo a qual são analisadas as experiências focaliza a noção de drama social, conforme desenvolvida pelo antropólogo Victor Turner. O trabalho busca, por um lado, contribuir para uma compreensão mais aprofundada da atividade política estudantil universitária a partir do modo como os próprios sujeitos compreendem e experimentam o seu mundo social, dos sentidos que lhe atribuem e das formas como interagem nele; por outro lado, pretende despertar o interesse analítico sobre estes sujeitos que têm sido historicamente identificados como atores fundamentais na vida política da Guatemala.
