Instituto de Estudos de Gênero

CEDOC

O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.

Tese
Pedro e Luiza: história de uma correspondência

Este trabalho procura fazer uma reflexão crítica sobre a correspondência mantida entre D. Pedro II e a condessa de Barral nos anos de 1859-1890. A correspondência entre os dois se caracteriza como um gênero híbrido, diárioscartas/ cartas-diários, literatura de viagens, autobiografia, narrativa romanesca, notícia, variedades e crônica de costumes. Trata-se de um estudo que enfoca e questiona a maneira como os sujeitos se colocaram na correspondência, já que transgrediram a tradição de seu grupo social e sua época; e procura analisar as singularidades dos discursos que esses personagens elaboraram através do diálogo epistolar. Parte-se da compreensão de que as interpretações sobre a correspondência foram fortemente influenciadas pela predominância de um discurso histórico marcado pelo paradigma científico moderno, que além de perpetuar a separação entre sexualidade e afetividade, privilegiou a racionalidade em detrimento dos sentimentos, do imaginário social e das sensibilidades. Em decorrência dessa mentalidade cientificista, as relações paralelas ao estudo das instituições formais, como a amizade, o amor, o erotismo, por exemplo, foram negligenciadas. E muito mais do que negligenciada, a amizade entre homens e mulheres foi alvo de uma longa e negativa tradição filosófica que influencia até hoje muitas interpretações das relações entre os sexos. Investiga a relação entre a correspondência e as biografias produzidas, procura analisar as relações entre a escrita epistolar, a construção e a transformação de si, mostrando as singularidades do vínculo criado por eles ao mesmo tempo em que discute as possibilidades e limites das questões do erotismo, do amor e da amizade no quadro de suas significações históricas e culturais, como produtos sociais e discursivos que são.

Tese
Eis as questões: o tempo, o narrador e o ponto de vista

Embora o conto e o romance não se prestem apenas ao papel de veículos portadores de histórias, a sua natureza narrativa, ao contrário do que pregam correntes alinhadas a movimentos como o Nouveau Roman, é intrínseca, inevitável e fundamental. O objetivo deste trabalho é analisar em detalhes dois dos inúmeros componentes textuais que, se bem manipulados, colaboram de forma decisiva para a construção das mais diversas modalidades de narrativas: o Ponto de Vista e o Tempo. Os pressupostos teóricos contemplam linhas de pesquisa que se concentram efetivamente na materialidade do texto e no seu funcionamento interno, e vai dos formalistas russos aos estruturalistas franceses, ingleses e norte-americanos. Os resultados das análises das teorias, sempre que possível exemplificadas por peças narrativas de diversas procedências e dimensões, apontam para a reafirmação do aspecto primordial de qualquer narrativa — contar uma história — a partir da correta gestão dos elementos estruturais que a constituem.

Tese
Entrevista literária e Vida Literária no 1900 brasileiro

Esta tese propõe uma leitura comparativa entre O Momento Literário, livro de entrevistas feitas por João do Rio, e A Vida Literária no Brasil – 1900, de Brito Broca; dois livros citados na historiografia literária por seu valor informativo no que diz respeito à vida literária brasileira do 1900, mas raramente incorporados a esta historiografia. Partindo da descrição de João do Rio do autor como “ídolo”, esta leitura pretende compor um panorama da literatura brasileira na virada do século XIX para o século XX baseada nas “modas literárias”, nas palavras de Brito Broca, e nas relações interpessoais dentro da esfera intelectual e letrada do 1900 brasileiro. Em outras palavras, diferente do estabelecimento de escolas literárias e cânones, típicos da historiografia tradicional, que se baseia na figura do autor canônico, esta tese analisa a constituição de uma história literária interpessoal, que molda, em suas repetições, em seus esquemas, e em seus princípios de classificação, assim como nas práticas dos agentes deste campo, a figura do autor como ídolo. A hipótese é que a figura do autor como ídolo é constituída dentro deste panorama momentâneo, principalmente através da mídia, separado do campo institucional ao qual os autores e intelectuais reunidos nos livros de João do Rio e Brito Broca tradicionalmente pertencem. Esta passagem do autor para o ídolo, nesta tese, será analisada principalmente na polarização entre dois autores: Machado de Assis e Olavo Bilac.

Tese
Drummond e caos

Este trabalho tem por objetivo aproximar a poesia de Carlos Drummond de Andrade e a teoria dos sistemas, em especial a versão que contempla os sistemas sociais comunicacionais, de Niklas Luhmann. A teoria de Luhmann possui caráter interdisciplinar em suas premissas, baseando-se tanto na teoria sobre a autopoiese de Humberto Maturana quanto da cibernética de segunda ordem, da fenomenologia como desenvolvida por Husserl, quanto em certos enfoques que a aproximam das teorias desconstrucionistas. No entanto, Luhmann é crítico de suas bases tanto quanto deve a elas. Sua teoria é funcional, no sentido básico da palavra, concentrando-se mais na descrição de como sistemas organizam-se e interagem do que no que são sistemas. O trabalho parte da relação entre a tentativa de totalidade sempre presente na leitura da poesia de Drummond, a impossibilidade de se alcançar essa totalidade e os processos de repetição que buscam assim expandir e levar ao leitor o que o poeta sente, aproximando o mais possível a expressão desse horizonte, numa forma de “irritação” na leitura. Após, detém-se sobre a repetição em Drummond como processo autopoiético, no sentido pensado por Luhmann, partindo de Maturana e da cibernética de segunda ordem: reentrada da forma na forma a partir da dependência sensível a condições iniciais. Trata-se de um procedimento que ocorre nos mais vários níveis distintos, dos quais três são analisados: a persona gauche como espécie de borda delimitadora da poesia, em um nível alto de organização; os primeiros poemas de cada livro como condutores do viés dos poemas subsequentes, em um nível intermediário; e os versos iniciais dos poemas em um nível baixo, da leitura isolada de cada poema. Além disso, o trabalho aborda, também usando a teoria dos sistemas e os estudos cognitivos para a literatura, a importância das emoções para o poeta Drummond, como canal de confraternização de sua poesia para os leitores e como sistema que mantém a unidade de sistemas psíquicos ao possuir elementos racionais, físicos, lógicos, perceptivos, sem se subsumir a esses elementos.

Tese
Nelson Rodrigues e sua cena: teatro da dupla tensão, cinema da síntese

Esta tese busca uma leitura possível das razões do fracasso de grande parte das adaptações da dramaturgia de Nelson Rodrigues para o cinema. Sua primeira investida percorre o teatro rodrigueano, elaborando o conceito de dupla tensão como marca do autor. A primeira tensão, articulada ainda nos domínios temáticos, responderia pelo embate firmado entre o Brasil anterior à gripe-espanhola e os “novos tempos”, dominados por uma modernidade produtora de tripla decadência, como pensa Eric Hobsbawm. A segunda tensão, insinuada nos domínios estéticos, promoveria certo afastamento do conceito de drama puro, segundo teoria de Peter Szondi, ao se deixar contaminar por gêneros diversos, posicionando-se entre o melodramático e o trágico. Neste contexto, Toda nudez será castigada, peça de 1965, seria o ponto mais alto desta trajetória. Tal conformação, perseguida em todo o teatro do autor, não parece ter encontrado eco nas releituras do cinema, quase todas reducionistas do universo tensional. A única experiência de exceção parece acontecer na versão de Arnaldo Jabor justamente para Toda nudez será castigada, filme de 1973 que transforma em ritmo próprio as tensões típicas da dramaturgia rodrigueana, movimento contrário às outras versões, que tentaram corrigi-las com sínteses nas mais variadas proposições.

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