CEDOC
O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.
No conjunto das narrativas ficcionais da escritora brasileira Ana Miranda, a temática da viagem – considerada uma das mais férteis da literatura ocidental de todos os tempos – ocupa um espaço de centralidade, podendo até mesmo ser vista como o mais importante eixo de estruturação de suas obras. O estudo realizado pela presente tese tem por objetivo analisar o tratamento dado ao tema da viagem nos romances Desmundo, O retrato do rei, Dias & Dias e Amrik, evidenciando que por intermédio das narradoraviajantes – Oribela, Mariana, Feliciana e Amina – a autora promove um diálogo entre diferentes culturas, gêneros, etnias e gerações, ao mesmo tempo em que estabelece um profícuo diálogo com o passado em sua invariante problematização concernente aos limites e cruzamentos entre o discurso ficcional e os discursos narrativos extraliterários que o cercam, sobretudo o histórico e o biográfico.
A história dos relações familiares revela que a hostilidade, a agressão e a insensatez são práticas cotidianas, banalizadas pela freqüência com que ocorrem. Em sentido oposto, o discurso social nega essa retomada à barbárie e sustenta a unidade familiar através da solidariedade e da amizade. A literatura costuma representar essa contradição de uma forma pouco espessa, quase que a querer fugir da discussão. No entanto, poucas vezes consegue omitir o quanto há de desencontro entre os integrantes do universo familiar: o conflito entre o indivíduo e o Outro está aquém da divergência de linguagens ou de objetivos. Na cronologia dos conflitos familiares, as fratrias compõem um especial recorte. Na literatura brasileira e portuguesa o tema é abordado inúmeras vezes, destacando algumas particularidades fraternas: a rivalidade, o egoísmo, a inveja, a disputa pela progenitura, a figura paterna,... A invenção do inimigo – literatura e fraternidade se concentra em três romances escritos em língua portuguesa, Esaú e Jacó (Machado de Assis), Pedro e Paula (Helder Macedo) e Dois irmãos (Milton Hatoum), procurando comprovar uma questão que é constantemente negada: cada um dos irmãos inventa no outro o inimigo.
Esta tese enseja a possibilidade de leitura das letras de música do rock brasileiro dos anos oitenta sob o viés de uma poética pessimista, entendendo esta segundo as prerrogativas estabelecidas por Arthur Schopenhauer em O mundo como vontade e representação. Para tal, letras de Cazuza, Renato Russo e Humberto Gessinger estão aqui circunscritas como corpus para, por meio desta proposição de interpretação, estabelecer sondagens que possibilitem visualizar em seus versos temas que seriam afins ao do pensamento pessimista do século XIX. Com este intuito, a tese usa como instrumento de análise a epistemologia que faz parte da proposta desconstrutivista de Mil Platôs, obra de Gilles Deleuze e Félix Guattari, dando ênfase ao emprego que estes autores fazem dos termos devir e agenciamento. É com o uso destes termos, então, que este trabalho enquadra as letras que estão aqui selecionadas, vendo-as como uma reterritorialização do pessimismo enquanto um devir no rock brasileiro da década de oitenta. Devir este possibilitado em função dos agenciamentos oriundos das rupturas políticas, econômicas e sociais que protagonizaram o contexto histórico do Brasil após o fim do regime militar. Imiscuídos por estes agenciamentos uma nova geração se aproximou de temas que em si engendram uma estética de desilusão, apatia e descrédito pelos sistemas ideológicos de outrora; e que seriam uma tangente pós-moderna da concepção pessimista de que a vida, malgrado os diferentes contextos históricos que a envolvem, não proporcionaria nada além de tédio e vãs expectativas.
Pedro Nava, em suas "memórias”, sustenta a força e a riqueza de sua narrativa em uma “leitura” do mundo. Desde fotografias e documentos, passando por velhos bilhetes e cartas do tempo de escola, até os espaços _ as ruas, as ruínas, a cidade. Toda esta matéria se mostra para o memorialista como repleta de significados perdidos que o narrador _ mediado por seu “saber”, a experiência _ vai desvendar c nos devolver através do seu texto. A reconstrução deste mundo pleno de sentidos empreendida pela memória não é uma tentativa de “descrição” do passado “tal qual aconteceu”, mas _nas palavras do próprio Nava_ uma descriirecomtrn$ão: a recriação poética através da narrativa de um passado vivo e multifacctado. As memórias de Nava sao entao um esforço de memória cultural, na medida em que se trata de uma inteligibilidade do tempo mediada pelo acúmulo e transmissão da experiência coletiva _ a cultura. Uma memória que quer testemunhar sobre os fazeres dos homens empenhados em seu convívio com outros homens, em suas práticas e significações sociais, que dão sentido ao mundo e ao tempo.
Procurou-se neste trabalho pesquisar o romance-reportagem, desde a origem desta expressão até o contexto que propiciou o aparecimento desse tipo de narrativa na história cultural brasileira. Os objetivos que nortearam o estudo foram os de verificar qual o relacionamento que essas narrativas mantêm com a literatura e o jornalismo, e o modo como o "Romance" e a "Reportagem" se inscrevem nestes textos. Esse estudo examinou ainda as semelhanças e diferenças do romancereportagem com os gêneros que o constituem, concluindo que, não sendo nem só romance e nem só reportagem - mas não deixando de ser os dois ao mesmo tempo -, esse hibridismo permite que narrativas como Lúcio Flávio, o passageiro da agonia; Infância dos mortos; Porque Cláudia Lessin vai morrer; A menina que comeu césio e Avestruz, águia e... cocaína , que constituem o corpus de análise, transitem pelo espaço da realidade com a imaginação, do ficcional com o documental, numa superação de fronteiras específicas. É essa transgressão deliberada de limites tradicionais que nos permitem não estabelecer, para o romance-reportagem, um lugar definitivo. Como Literatura e Jornalismo não chegam a constituir-se em opostos, nem estabelecem uma tensão narrativa - ainda que possuam natureza e objetivos diversos conclui-se que é a ambigüidade o princípio fundador e organizador do romancereportagem, onde as semelhanças fazem a diferença.
