CEDOC
O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.
Este trabalho aborda o contexto de transmissão das tradições orais da fronteira entre Argentina, Brasil e Uruguai. A hipótese de que a circulação de narrativas cria, nas zonas vizinhas destes três países, uma cultura comum – de fronteira – é desenvolvida sob diferentes enfoques ao longo dos capítulos. Inicialmente, o referencial etnográfico derivou na realização de um mapeamento das características da oralidade na região: quem são os contadores, quais são os temas recorrentes de seus causos, como executam suas performances, quais são os locais onde ocorrem as “rodas de causo”, os horários preferidos para a sua narração e como se caracteriza a participação dos ouvintes. A análise deste material é realizada com base em duas perspectivas, das narrativas como expressão da experiência (com foco sobre os eventos narrados) e das narrativas como performance (com foco sobre os eventos narrativos), a partir das quais são discutidas especificidades do ethos local (gaúcho ou gaucho), tais como o apelo à ruralidade (nas referências à “campanha” e à relação com o cavalo), a mobilidade dos indivíduos através da fronteira, a vivência cotidiana de conflitos e a ostentação de marcas corporais. Desta forma, a constituição das relações “intrafronteiriças” e da individualidade dos contadores de causos/cuentos é analisada à luz da antropologia da experiência. Já as performances de narrativas pessoais (“performance como desempenho”), de narrativas públicas e de festas tradicionais da fronteira (“performance como espetáculo”) são consideradas sob os referenciais fornecidos pela etnografia da fala e pela antropologia da performance.
Este trabalho tem como principal proposta realizar uma análise das imagens produzidas pelas câmeras de vigilância na cidade de Florianópolis, cujo objetivo de suas instalações se apóia nos discursos produzidos em torno da violência e criminalidade urbanas. O estudo problematiza as relações entre cultura de vigilância e cultura midiática, explorando a pregnância da imagem na vida social contemporânea, o emprego das imagens oriundas das câmeras de vigilância como meio para o exercício de determinadas práticas de poder e de saber na cidade, bem como o papel que desempenham na atualização dos discursos em torno do mito da verdade da imagem. Destaco, ainda, as relações estreitas entre as câmeras de vigilância e o panóptico de Jeremy Bentham e a crescente subordinação da paisagem urbana e da vida citadina aos sistemas de segurança e vigilância. Chamo especial atenção para o modo como tais dispositivos se articulam a processos sociais mais amplos que dizem respeito à produção de subjetividades no contemporâneo e à construção de fronteiras sociais.
Esta tese de doutorado propôs-se a realizar um estudo etnográfico das narrativas biográficas e formas de sociabilidade de sujeitos que se identificam como “travestis das antigas”. Ao procurar empreender, em termos de Eckert & Rocha (2005), uma etnografia das lacunas da duração pretendeu–se compreender os processos pelos quais estes sujeitos foram construindo, ao longo de suas trajetórias sociais, e por intermédio de seus itinerários urbanos, suas formas de sociabilidade relacionadas às suas vivências na cidade do Rio de Janeiro. Pensar as formas de sociabilidade específicas das interlocutoras desta pesquisa me conduziu à análise de suas interações sociais e, conseqüentemente, das formas de apropriação do espaço urbano, bem como de suas relações, percepções e concepções da cidade entendida, principalmente, como cenário de atuação desses atores sociais. Acredito que ao compartilhar de suas caminhadas ao longo de suas vidas através de suas memórias e seus cotidianos somos levados aos dramas, às intrigas e aos dilemas que compõem a interface entre o que estou chamando aqui, inspirada em De Certeau (2008), cidade conceito e cidade ordinária. Se em suas narrativas sobre as experiências na e da cidade são enunciados preconceitos e discriminações constrangedoras de seus processos de construção de subjetividade, de formulações de projetos e de apropriações e usos da cidade em que nasceram e/ou escolheram para viver, também são relatadas suas astúcias e táticas no intuito de impor seus estilos de uso nos diferentes espaços urbanos e de serem, assim, senhoras de seus passos na cidade do Rio de Janeiro.
Se a dor e o sofrimento são inerentes à condição humana, a forma como lidamos com essas condições tem sido diversa em diferentes contextos socioculturais e históricos. O uso de medicamentos chamados antidepressivos para tratar situações relacionadas à tristeza com sintomas que caracterizam sofrimento físico e psíquico é uma estratégia terapêutica na biomedicina desde o surgimento dessas drogas. O uso abusivo desses medicamentos tem sido questionado. Estão sendo levantadas questões como a redução do sofrimento a aspectos puramente biológicos, excluindo desse modo uma abordagem compreensiva de problemas de saúde que não estariam restritos apenas à intervenção em alterações bioquímicas endógenas. O objetivo deste estudo é conhecer o modo como a farmacologia e os medicamentos antidepressivos foram apresentados a profissionais e estudantes de medicina ao longo da segunda metade do século XX e analisar quais as estratégias argumentativas utilizadas para justificar o uso dessas drogas a partir do discurso científico. Para atingir esse objetivo, foram analisadas as diferentes edições do principal livro-texto de farmacologia, utilizado no século XX em diferentes países como modo de divulgação do conhecimento científico: o livro Goodman e Gilman: as bases farmacológicas da terapêutica, conhecido como a “bíblia da farmacologia”. Inicialmente foi feita uma abordagem dos quadros relacionados à depressão, categoria médica que deu origem aos “antidepressivos”, a partir da melancolia nos primórdios da biomedicina. Foram abordados textos de médicos como Pinel, Esquirol e Dagonet, do início do período em que “nasce” a medicina moderna, a segunda metade do século XVIII e o século XIX, com uma breve passagem pelo início do século XX, quando surgem os trabalhos de autores como Kraepelin e Freud, trazendo a questão da imprecisão dos diagnósticos médicos na área do sofrimento psíquico. Os livros-texto de Goodman e Gilman, desde sua 1ª edição (em 1941) até a 11ª edição (em 2006), foram analisados a partir de uma perspectiva histórica, utilizando como estratégia metodológica a análise de discurso. Buscou-se identificar questões que influenciaram tanto o desenvolvimento da farmacologia quanto o desenvolvimento dos medicamentos chamados antidepressivos. A partir da análise dos textos, pode-se concluir que: existe dificuldade para especificar as situações em que os antidepressivos são utilizados, por causa das incertezas do diagnóstico clínico; as tentativas realizadas a partir do conhecimento farmacológico para estabelecer uma relação causal entre diferentes substâncias endógenas e os sintomas clínicos não são comprovadas até a última edição do livro-texto; os avanços na área do conhecimento técnico-científico no sentido de controle dos sintomas têm obtido um êxito relativo (pelo menos em curto prazo, como, por exemplo, no controle dos efeitos colaterais e na facilidade de administração dos medicamentos), sendo esse um aspecto que tem dado força à expansão do uso dos antidepressivos; esses medicamentos, inicialmente utilizados para tratar sintomas depressivos (no sentido de pouca ou baixa atividade corporal) vêm tendo seu uso ampliado progressivamente para situações que não estão relacionadas aos sintomas que inicialmente lhes deram esse nome (antidepressivos); o desenvolvimento das pesquisas em farmacologia está vinculado a saberes e práticas de outras áreas do conhecimento, que, por sua vez, determinam o desenvolvimento de medicamentos; e, por fim, a industria farmacêutica está ligada ao desenvolvimento da farmacologia desde os primórdios desta.
Esta tese tem como objetivo investigar os itinerários terapêuticos da terceira revelação, ou espiritismo, na França e no Brasil. A investigação é feita em contextos urbanos, a dizer a cidade de Paris e a região metropolitana de Brasília. Os itinerários do espiritismo e da saúde, no plural, traduzem a idéia de uma circulação de representações e igualmente de práticas, que não são estanques e acabadas, mas sim modificadas social, histórica e culturalmente. O espiritismo nasceu como ciência e filosofia na França. Foi apropriado enquanto religião no Brasil. Como será apresentado, seus saberes e fazeres estão em permanente (re)construção. A tese perpassa os embates entre o espiritismo e a ciência nesses dois países. No Brasil, tendo se consolidado como religião, rótulo que lhe garante respaldo constitucional, o “espiritismo de mesa branca” teve de enfrentar, ainda, o “baixo espiritismo”. Essa questão é pertinente para mostrar que as práticas espíritas analisadas foram (e ainda são) marginalizadas. Situaram-se historicamente nos confins da ilegalidade. Atualmente, são amiúde tidas como fraudes. Essas expressões, embora sejam obsoletas, são também utilizadas para evidenciar uma dicotomia fluida: há mobilidade religiosa e mesmo incorporação de outras dimensões de cura espiritual nesse país. Finalmente, a discussão esquadrinha os conflitos entre o espiritismo e especificamente a medicina. As representações e as práticas espíritas abarcam, por conseguinte, o domínio da saúde, cuja acepção tampouco é resoluta. Nesse domínio, a perquirição estende-se à noção de espiritualidade. Ao lado do saber médico convencional, há o conhecimento ordinário (Michel Maffesoli, 2007), segundo o qual tanto a saúde como a doença abrangem, além da dimensão bio-psico-social, a espiritual. Esse deslocamento de significados permeia questões não somente religiosas e científicas, como também políticas, éticas e jurídicas e questiona a definição mesma de cura. De acordo com o espiritismo, não é somente o corpo que adoece. O espírito também deve ser tratado. Nesse sentido, há diversos indicadores da eficácia de diagnósticos e tratamentos espirituais. Nesta tese, são apresentados relatos de cura de pacientes e narrativas de médiuns que frequentam instituições espíritas, além de entrevistas com médicos, membros de associações médico-espíritas, pesquisas na medicina a respeito das relações entre saúde e espiritualidade e um parecer emitido pelo Conselho Federal de Medicina do Brasil. O que dizem esses sujeitos a respeito do objeto de pesquisa apresentado? Como explicar os casos considerados como bemsucedidos? Trata-se de sugestão, efeito placebo, eficácia simbólica? Quais são as divergências e as convergências entre a saúde e o espiritismo? São esses itinerários que esta tese intenta percorrer. E é a partir desses trajetos que pretendemos abrir novas perspectivas de compreensão do outro e de nós mesmos.
