Instituto de Estudos de Gênero

CEDOC

O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.

Tese
Com a palavra o prover: a produção de masculinidades em contextos familiares nos quais a mãe é a provedora

Esta pesquisa teve como objetivo a análise dos processos de subjetivação e das produções de masculinidades por/para famílias de camadas médias nas quais a mãe é a provedora do sustento financeiro, enquanto que o pai encontra-se desempregado e, por vezes, sem trabalho, bem como verificar quais as normas e resistências engendradas em tais procedimentos. Para tanto foram realizadas entrevistas com os membros de duas famílias, que, posteriormente, foram transformadas em discursos familiares acerca de suas práticas cotidianas, tendo como pano de fundo o enunciado do prover. O exame deste material possibilitou uma contextualização das idiossincrasias e congruências entre as práticas destas famílias, o que viabilizou a verificação de que ante as mesmas normas, num jogo de agonísmo entre estas e as contingências impossibilitadoras de reiterá-las, subjetividades e masculinidades múltiplas afloraram. Nestas lutas ocorreram subversões aos mandatos que determinam posições e atributos específicos para homens e mulheres, os quais, no entanto, por desejarem o reconhecimento do outro, almejavam reiterá-los e sofriam por não o conseguirem. Contudo, a (re)criação dos modos de existência destas organizações familiares, foi potencializada pelos afetos que permeavam seus vínculos.

Tese
Renata Orlandi

Este trabalho aborda o exercício da paternidade na adolescência, a partir da investigação de sentidos que adolescentes pais atribuem à paternidade e à sua participação nas práticas de cuidados dos filhos. Para tanto, oito adolescentes pais com idades entre 16 e 19 anos foram entrevistados, tendo eles sido localizados no ambulatório de atendimento pré-natal ou na maternidade do Hospital da Universidade Federal de Santa Catarina. Por intermédio da análise do discurso dos sujeitos entrevistados, buscou-se compreender o movimento dinâmico, histórico e cultural de atribuição de sentidos à paternidade e ao lugar paterno no cuidado dos filhos. Entre os oito participantes, dois planejaram a gestação junto à parceira, cinco deles não haviam planejado a gravidez, mas consideravam o filho desejado e um deles não considerou a paternidade planejada nem desejada, mas ainda assim considerou-se feliz em ser pai. A dificuldade em lidar e, especialmente, de negociar com a parceira o uso de métodos preventivos denuncia a escassez e/ou a ineficácia de políticas públicas voltadas para a emancipação da população jovem na esfera dos direitos sexuais e reprodutivos. Os sujeitos consideraram que foram pais do primeiro ou do segundo filho “cedo” e o hipotético adiamento da paternidade estava relacionado, principalmente, à espera pela conquista da estabilidade financeira e em alguns casos, à conclusão dos estudos objetivando o mesmo fim, sendo estes os principais aspectos também citados para a contra-indicação da paternidade a um amigo com idade próxima à sua ou como critérios para avaliar se alguém tem condições de tornar-se pai, ainda que alguns entrevistados não apresentassem tais condições. O aspecto etário não foi destacado na avaliação da precocidade da paternidade. Todos os participantes destacaram a vinculação amorosa com os filhos como uma das atribuições do pai. Os sujeitos entrevistados também atrelaram a paternidade à educação e à proteção dos filhos, atribuições diretamente relacionadas ao estabelecimento de regras e limites a estes, sendo que a maior parte destes pais pretende compartilhar com as mães das crianças tais negociações. Apesar de associarem a paternidade ao exercício de cuidados dos filhos, os participantes atribuem ao pai uma maior responsabilidade pelo provimento, em consonância com prescrições tradicionais de gênero circulantes em nossa sociedade que delegam ao pai o lugar de provedor da família. Ainda que estes sujeitos tenham declarado sua disponibilidade para participar dos cuidados demandados por seus filhos, a ênfase estava em localizar o pai como um coadjuvante, cabendo a ele auxiliar a companheira a realizar esta tarefa. Na medida em que o lugar do pai no cuidado é delineado em contraste com o da mãe, identifica-se uma maior valorização desta a quem, nesse ínterim, é delegada maior responsabilidade pelo cuidado dos filhos.

Tese
Potencializando a vida: sentidos do conviver com HIV para jovens portadores do vírus

Objetivou-se investigar os sentidos que jovens soropositivos atribuem ao viver com o HIV. Os participantes foram localizados na organização não-governamental GAPA e em um ambulatório de doenças sexualmente transmissíveis/Aids da rede municipal de saúde de Florianópolis. Foram realizadas entrevistas individuais semi-estruturadas com jovens entre 19-24 anos residentes no município já mencionado, quatro do sexo masculino e uma do sexo feminino. As entrevistas foram transcritas, analisadas e categorizadas a partir da técnica de análise de conteúdo temática, segundo a abordagem histórico-cultural. Somente um rapaz contraiu o vírus por via perinatal e os demais se infectaram por via sexual. O tempo de conhecimento do diagnóstico variou de um mês a 10 anos. As formas de convívio com HIV foram variadas, observando-se que as condições socioeconômicas, a orientação sexual, o apoio da família e o tempo de conhecimento do diagnóstico interferiram na vivência da soropositividade. Em se tratando das categorias emergentes na análise dos depoimentos, percebeu-se que as afirmações dos sujeitos sobre alguns temas coincidem. Os jovens investigados sofrem as mesmas dificuldades e desafios que qualquer outro portador de HIV. O padrão de reação ao diagnóstico foi o choque, a não aceitação e o abatimento. Todos relataram associação entre Aids e morte quando do recebimento do resultado positivo do exame anti-HIV, bem como dificuldade de revelar a soropositividade a familiares e amigos. Aqueles que não relataram situações de discriminação, disseram ter medo de sofrê-la. Sobre o tratamento medicamentoso, jovens que faziam ou fizeram uso dela afirmaram ser esta algo fundamental, porém destacaram a dificuldade de manter seu uso contínuo. O uso diário da medicação apareceu também como aquilo que os torna diferente dos não-portadores. Ser soropositivo para os jovens entrevistados alterou as relações afetivo-sexuais, pois a responsabilidade consigo e com o outro tornou-se a tônica da relação. Os sujeitos descreveram as diferenças entre o vírus e a síndrome instalada, diferenciando o HIV, que é mais fraco, da Aids, que mata. Foram identificados dois eixos norteadores dos discursos dos jovens sobre o viver com HIV: diferença e normalidade. Viver com o HIV é diferente, pois apresenta particularidades, exige cuidados e novos aprendizados e é normal no sentido que estes jovens continuam suas vidas, perseverando na existência e potencializando suas vidas.

Tese
Jovens identificados como autores de abuso sexual: sentidos da violência

A literatura estrangeira aponta que significativa parte dos abusos sexuais perpetrados contra crianças são cometidos por adolescentes. No Brasil trata-se de um tema ainda pouco explorado, tanto no meio acadêmico como em ações interventivas. Tal situação se agrava no que concerne à investigação e à intervenção voltada para os jovens autores de violência sexual. A presente pesquisa teve como objetivos: investigar motivações dos autores da violência, sentidos que atribuem ao ato praticado e se o reconhecem de fato como uma violência; como percebem o outro - o sujeito agredido -, bem como resultados da violência e danos conseqüentes. Para tanto, foram entrevistados três adolescentes identificados/notificados como praticantes de abuso sexual, bem como as responsáveis por dois deles. Em visita às várias instituições que intervêm de alguma forma nas situações de violência sexual envolvendo crianças e adolescentes, optou-se por entrevistar também os profissionais que atuam diretamente com essa população, buscando averiguar que concepções possuem acerca da violência sexual, como lidam com este problema, quais as implicações para o adolescente que comete este tipo de agressão, quais as intervenções realizadas, que sentidos atribuem à prática do abuso, totalizando oito entrevistas. Como referencial teórico, encontra-se a Psicologia Social Crítica, tomando como categorias fundamentais as noções de gênero e violência. São referenciados/as autores/as que tratam das masculinidades, estando esta no cerne da investigação, na medida em que se apresenta como fundamental no entendimento da violência perpetrada por homens, dialogando também com autores/as que discutem especificamente este tema sob a luz dos estudos de gênero. Na tentativa de definir com maior precisão o objeto de pesquisa, qual seja, violência sexual, são exploradas algumas conceituações e problemáticas em torno dele. Por fim, são traçados aspectos e normativas presentes na legislação brasileira acerca do tratamento jurídico dado à questão da violência sexual. O método utilizado na pesquisa se configura como qualitativo, orientado para a produção de sentidos. Os adolescentes entrevistados tinham idades entre 15 e 16 anos e encontravam-se em situações bem diversas. O primeiro foi notificado por ter abusado uma menina de seis anos, tendo sido a ele aplicada a medida sócio-educativa de liberdade assistida. Foi em seguida encaminhado para atendimento terapêutico. O fato foi tipificado como estupro, pois teve conjunção carnal. O segundo foi também notificado por ter abusado um menino de menor idade, o que, no entanto, não foi confirmado pelas instâncias responsáveis pela investigação. Ainda assim, foi encaminhado para atendimento terapêutico como uma medida, acredita-se, preventiva. O terceiro era residente de uma casa abrigo para meninos, identificado pela coordenadora da casa como praticante de abusos contra outros residentes. O caso não foi reportado aos meios legais, pois, além de não ter sido confirmado, optou-se por fazer um trabalho de orientação com todos os jovens, dada a freqüência com que essas situações ocorriam. Pôde-se observar a inexistência de um atendimento estruturado voltado à população de jovens autores de crimes sexuais. O número de registros de ocorrências é muito baixo, tendo sido identificados poucos casos. A conduta violenta é explicada em função de uma patologia ou como reprodução de experiências anteriores. Ao falar de violência sexual, todos os profissionais entrevistados mencionam a idade dos envolvidos como um critério importante para definir um ato como tal. Entre os adolescentes, um defende que foi acusado injustamente, negando qualquer envolvimento com o menino que fez a notificação. Os outros dois assumiam participação no ato, mas não nomeavam como uma violência. Entendem a prática do abuso como um ato impensado, movido pelo desejo ou pela curiosidade. A violência sexual mostrou-se um tema de difícil acesso, seja pela sua indefinição conceitual, pela dificuldade em encontrar sujeitos sob o recorte proposto, ou pela recusa destes em falar sobre o assunto.

Tese
Tráfico de Mulheres. Negócios de homens. Leituras feministas e anti-coloniais sobre os homens, as masculinidades e o masculino

Os estudos sobre os homens, o masculino ou as masculinidades surgiram ao longo da década de 1970 dentro de diferentes tendências do feminismo ou de sua área de influência. Os esforços de diálogo entre estas tendências são escassos, pretendendo esta dissertação se somar a eles. Dentre uma ampla lista de obras pertencente a estes estudos, foi selecionado um conjunto de textos que puderam ser agrupados em sete tradições, diferenciadas segundo a área acadêmica ou política, a língua e o campo de diálogo. Dentro de cada uma destas tradições, foi escolhida uma autora ou um autor cuja obra foi lida com particular atenção. As tradições e autoras escolhidas foram as que seguem: feminismo negro estadunidense (bell hooks), feminismo pós-estruturalista estadunidense (Eve Sedgwick), ciências humanas em língua inglesa (Raewyn Connell), ciências humanas em língua francesa (Daniel Welzer-Lang), ciências humanas em língua portuguesa (Rita Segato), ciências humanas em língua castelhana (José Olavarría) e psicanálise (Monique Schneider). Em cada um dos casos, procedeu-se a uma leitura das obras das autoras, procurando-se ressaltar a especificidade de cada pensamento, o modo como se inserem ou dialogam com a tradição feminista e alguns dos pontos que permitem uma comparação com outras autoras das tradições consideradas. Outras pensadoras e pensadores feministas, anti-coloniais e/ou pós-heideggerianos foram também lidos na medida em que enriqueciam as discussões dentro dos capítulos ou entre estes. No último capítulo, alguns aspectos coincidentes e divergentes entre diferentes textos foram aprofundados, aqueles relacionados à perspectiva histórica, ao espaço dito subjetivo dos homens e às concepções políticas no campo do gênero. O debate mais frutífero que se estabeleceu ao longo da dissertação ocorreu entre as autoras que se encontram dentro do paradigma do tráfico de mulheres (principalmente Sedgwick, Segato e também Robyn Wiegman) e aquelas dentro do pensamento anti-colonial (hooks, novamente Segato e Wiegman, Connell e também Angela Davis, Michele Wallace e Arlette Gautier), permitindo a emergência de uma hipótese compreensiva que articula os distintos modos de domínio da (hetero)sexualidade das mulheres às formas diferenciadas de exploração do trabalho que emergem com a expansão colonial e capitalista e que deram origem às configurações raciais, tal como exposto por Aníbal Quijano. Imbricadas as formas de opressão, também o estão as formas de resistência, tornando-se a luta pela liberação das mulheres uma forma de descolonização dos povos.

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