Instituto de Estudos de Gênero

CEDOC

O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.

Tese
De João à Joana : gênero e brincadeiras - atribuição de significados no contexto da educação infantil

O presente trabalho de dissertação constitui-se como um esforço compreensivo em torno das vivências de gênero experimentadas por crianças em situação de brincadeira no contexto da Educação Infantil. Em se tratando de um estudo fundado na perspectiva histórico-cultural, também as vivências dos adultos/educadores tomam parte da compreensão elaborada na dissertação. O materialismo histórico-dialético, conforme presente nos estudos de Lev S. Vigostsky (1896 – 1934) constitui a base epistemológica sob a qual este trabalho de dissertação se sustenta. A idéia de que os seres humanos constituem-se, a um só tempo, a si mesmos e ao mundo a partir de um complexo de relações sociais e mediação do outro, constitui umas das mais importantes contribuições desta referência epistemológica ao desenvolvimento da Psicologia contemporânea. Como tal, ela determina o processamento do presente trabalho onde pode ser verificada uma busca constante em estabelecer diálogo entre o conceito analítico de gênero e a interface gênero e educação-infantil escolar. A pesquisa foi realizada em uma escola da rede privada de Educação Infantil em Blumenau (SC). Os sujeitos foram 14 alunos - entre 2 e 4 anos de idade - e duas professoras. Os registros foram feitos em 22 encontros, com observações do seu cotidiano, seguidas de filmagens, perfazendo 8 horas de gravações bem como anotações em diário de campo. Após a etapa de videogravação, foi realizada uma descrição detalhada do material filmográfico e construído um inventário das filmagens, que possibilitou selecionar dois (2) episódios gravados – Episódio da escolha dos nomes e Episódio da maquiagem - e um (1) episódio observado – Episódio do lanche - sem o auxílio da câmera e descrito no diário de campo. A abordagem metodológica utilizada para a análise das informações foi a Análise Microetnográfica. Os episódios analisados indicam que as crianças participantes de nossa pesquisa estão expostas às marcas de gênero que organizam a vida cotidiana. Contudo, foi possível observar que nas situações de brincadeira, as crianças encontram espaço e possibilidade para vivenciar marcas de gênero que não necessariamente correspondem aos limites impostos pela cultura e executados pelos adultos. As crianças, no momento da brincadeira, encontram espaço de autoria social e, como isso, ampliam os limites impostos desde as vivências do mundo adulto em relação às marcas de gênero. Considerando o postulado vigotskiano da mediação semiótica do psiquismo humano foi possível perceber em nosso estudo que as marcas de gênero na situação em questão – crianças que freqüentam o ensino infantil – não constituem uma produção inerente ao humano, mas que, a partir dos significados sociais atribuídos aos caracteres sexuais, são constituídas as referências de gênero que as crianças apropriamse de forma singular. Elas são, sim, construções sociais produzidas historicamente e, como tal, precisam ser consideradas tanto pelos psicólogos quanto por educadores e pais.

Tese
Contribuições Foucaultianas na análise do trabalho da produção de si atravessado pelo enunciado da depressão

Esta pesquisa pretende, partindo dos últimos textos de Foucault, utilizarse de alguns temas abordados por ele para refletir sobre a produção de uma forma de subjetividade possível a partir do reconhecimento de si como portador de um transtorno psiquiátrico. Tais temas se entrelaçam em uma mesma problematização do que somos nós na atualidade, como nos fazemos sujeitos historicamente. Desta maneira temas como o saber e poder médico e psiquiátrico, a produção de uma experiência ética, subjetividade e verdade, serão as vias de aproximação com o problema do reconhecimento de si em uma verdade que atribui a determinadas condutas a definição de patológicas, tendo como foco o enunciado da depressão. Para tanto, serão analisados fóruns e enquetes pertencentes a comunidades relacionadas à depressão no site de relacionamento virtual “Orkut” no intuito de observar os vestígios do trabalho realizado sobre si permeado por este enunciado. Tornar-se depressivo é empreender um trabalho não de encontrar a depressão em sua interioridade, a verdade da depressão presente em si mesmo conforme se é levado a crer. Ao contrário, tornar-se depressivo é empreender o exercício de reconhecerse depressivo nas minúcias do que se tem como o mais íntimo, as sensações, é ligá-las a uma verdade dificilmente questionável dentro de uma racionalidade biopolítica que constrói um ideal de saúde a ser perseguido por todos. Tornar-se depressivo compreende os exercícios de interpretar-se a partir do diagnóstico, justificar-se através de sua suposta condição patológica, antever suas possibilidades dentro do campo de projeções do tratamento, pôr-se em referência ao que é descrito para si como forma de vida. É fazer atuar em si mesmo esta verdade capaz de dar contornos a um conjunto de sensações até então não capturado com tamanha propriedade por outro saber.

Tese
Corporificação do Imaterial: exercícios de controle e subjetivação nos perfis do Orkut

Partindo das reflexões de Gilles Deleuze sobre a predominância das sociedades de controle na contemporaneidade, a presente dissertação esboça uma cartografia dos perfis do Orkut. Focando não especificamente no que o(a)s usuário(a)s escrevem sobre si, mas na interface criada pela equipe da Google, busca compreender que modos de subjetivação são incitados pelo website. O desaparecimento do anonimato, a onipresença de rostos ao longo de todo o site, uma tecnologia de visualização que independe de diálogos para ver ou ser visto e a visibilidade de laços de amizade entre o(a)s usuária(o)s são algumas das questões aqui discutidas. A partir disso, a naturalização da internet como um espaço “revolucionário” é questionada, entendendo que seu espaço é múltiplo, diverso, e compreende diferentes dinâmicas de poder.

Tese
Homens encarcerados por Violência Sexual: um estudo sobre enunciação e performatividade

A presente dissertação se enquadra dentro de uma série de esforços de pesquisa realizados nos últimos anos sobre violência sexual pelo Núcleo de Pesquisas Margens – Modos de Vida, Família e Relações de Gênero. A literatura sobre homens que cometem estupro no Brasil ainda é parca e pouco desenvolvida em comparação com outros países. A falta de pesquisas e de teorias que dêem conta destes homens remete também à falta de qualquer intervenção para com estes homens. A pesquisa teve como objetivo uma compreensão balizada epistemologicamente pela psicanálise Freudo-Lacaniana e pelos feminismos pós-estruturalistas, utilizando principalmente os conceitos de enunciação e performatividade para abarcar o discurso que os sujeitos apresentam ao relatarem situações de violência sexual. Para atingir este objetivo foram realizadas oito entrevistas semi-estruturadas com homens apenados pelos crimes de estupro, atentado violento ao pudor, pedofilia e corrupção de menor dentro da Penitenciária Estadual de Florianópolis. Entrevistas que então foram transcritas e analisadas. Destas oito entrevistas cinco foram analisadas nesta dissertação e três foram descartadas por não apresentarem elementos que fizessem parte do foco da mesma. As cinco entrevistas foram tratadas como estudos de caso isolados, priorizando uma escuta sem o objetivo de estabelecer uma teoria subjacente e aplicável à todos os casos. A utilizaçao de teorias feministas e da psicanálise se provou uma ferramenta útil de análise pois promove uma visão mais complexificada, elaborada e detalhada dos casos apresentados. É necessário que se estabeleça uma tradição de estudos com homens que cometem estupros no Brasil para que assim se possa dar conta da realidade social vivida no país assim como compreender quais masculinidades são performativamente produzidas pelos mesmo, e como essa promove violências sexuais.

Tese
Configurações familiares contemporâneas: significações de famílias monoparentais masculinas

Em meio às possíveis configurações de família na contemporaneidade, neste estudo trago à cena a família monoparental masculina. Problematizo a realidade de pais homens que vivem com seus filhos, sem cônjuge e que caracterizam a crescente monoparentalidade, conforme os dados do IBGE. Visto a ênfase dos estudos verificados em bases de dados sobre famílias monoparentais, e interessada em investigar a realidade de pais que vivenciam esta configuração, lanceime ao objetivo de verificar as significações atribuídas por quatro pais de camadas médias as suas famílias monoparentais, seus aspectos e vicissitudes. A partir do conjunto de enunciados destes pais, capturados por meio de entrevistas semi-estruturadas, desenvolvi a análise da pesquisa, inspirada na análise do discurso de Michel Foucault e balizada pelas teorias feministas e de gênero. Através de trechos selecionados, pais monoparentais explicitaram a relação de verdade representada pelo modelo tradicional de família como ideal. Por melhor que possa lhes parecer viver/ter a guarda de seus filhos/as, verdades consolidadas por gerações estabelecem relações de poder no exercício de suas vidas. Todavia, estes pais do tempo presente estabelecem relações horizontais com seus filhos, além de serem participativos e comprometidos. Expressaram em suas falas os prazeres e enfrentamentos relativos a esta configuração de família, além do esforço e desejo de cuidar com qualidade suprindo o fazer de pai e também o que caberia à mãe. Ainda que no campo das ciências sociais e humanas, em especial na área da psicologia, o estudo sobre família(s) floresça desde longa data, a questão da diversidade e das possibilidades outras de se viver em família se fazem mais evidentes. O modelo posto e normatizado do que se espera ser família é colocado em xeque pela pluralidade de famílias e possibilidades de parentalidade, demandando novas discussões para os possíveis modos de vida em família.

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