Instituto de Estudos de Gênero

CEDOC

O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.

Tese
Sexualidades. Concepções de psicólogos/as de unidades básicas de saúde pública de Florianópolis

Objetivou-se no presente trabalho conhecer a posição ou concepções dos/as psicólogos/as que atuam em Unidades Básicas de Saúde (UBSs) do Município de Florianópolis a respeito das sexualidades e fundamentalmente a respeito das sexualidades outras que não a heterossexual. Foram realizadas entrevistas individuais seguindo um roteiro norteador, com dez dos onze psicólogos/as que trabalham nas UBSs, oito do sexo feminino e dois do sexo masculino. As entrevistas foram gravadas com a permissão dos/as participantes, transcritas e analisadas. O método de análise inspirou-se na análise de discurso de Foucault. Revelou-se que o atendimento das UBSs é voltado essencialmente para a família heterossexual, com a consequente exclusão dos que não fazem parte dela. Revelou-se, também, a distância que separa os ideais expressos nas políticas públicas de saúde LGBT e a lida diária no ambiente das UBSs, por profissionais que não as conhecem e/ou não as consideram. Foi possível concluir que o posicionamento dos/as psicólogo/as entrevistado/as acerca das sexualidades, está muito longe de contemplar anseios no que tange à visibilidade e ao acolhimento da população LGBT e às suas necessidades específicas.

Tese
Essa Boneca Tem Manual: práticas de si, discursos e legitimidades na experiência de travestis iniciantes

Este trabalho discute as travestilidades a partir do discurso das pessoas que desejam tornar-se travesti conhecidas como novatas, iniciantes, ninfetas e novinhas. Trata-se de uma escrita de inspiração etnográfica em que são tecidas entrevistas, experiências e diálogos com travestis com idades entre 15 e 21 anos durante experimentação de pesquisa pelas ruas, pensões, moradias e ong’s da cidade de Florianópolis e em espaços virtuais como blogs e o facebook. A análise teórica segue as pistas de Michel Foucault e Judith Butler discutindo sob que condições novatas travestis são reconhecidas como sujeitos legítimos do discurso das travestilidades. Nesta direção são questionados os saberes, as práticas e o acesso aos conhecimentos trazendo à cena as regras e os passos que ensinam alguns modos de se experienciar as travestilidades, bem como as possibilidades de resistência a estas normas. Entendidas como jogos de verdade estas regras que envolvem o que é legítimo ou ilegítimo são apresentadas e problematizadas por diferentes discursos: pelas travestis mais experientes, pelas redes de proteções das “mães”, pelas redes virtuais e entre as próprias novatas travestis. A partir dos efeitos produzidos por estes discursos são delineados os contornos das novas formas de se pensar a experiência das travestilidades entre as jovens que estão começando. As novas experimentações transitam por entre atualizadas maneiras de aprender e investir na transformação corporal, pelos ressignificados atribuídos ao espaço da pista, à permanência na escola e aos vínculos familiares. Também circulam pela importância das redes de sociabilidades como as mamys e as “irmãs”. Neste sentido, são discutidas neste trabalho não apenas as condições de possibilidades da (re)invenção das novas travestilidades, mas também são sinalizadas a expansão dos espaços de (re)existência e (re)criação de si mesma para aquelas que desejam tornar-se travesti sob novos e também hegemônicos critérios éticos, estéticos e políticos.

Tese
Trajetórias Homossexuais na Ilha de Santa Catarina: temporalidades e espaços

Este trabalho inscreve-se, entre outras possibilidades, nos campos de estudos de gênero e nos estudos gueis e lésbicos. A partir da realização de 16 entrevistas com homens e mulheres de diferentes classes sociais e divididos arbitrariamente em três gerações, realizei um estudo etnográfico para identificar suas vivências e trajetórias pela cidade de Florianópolis e região metropolitana, apresentando inclusive o modo como fui “estranhando o familiar”, condição para me constituir como pesquisador. A partir de uma reflexão interdisciplinar, histórica e cultural, vou mostrando alguns espaços de sociabilidade homoerótica e a maneira como os sujeitos vão se identificando enquanto homossexuais, suas experiências e os repertórios pelos quais descrevem, explicam e interpretam o mundo em que vivem. A abordagem deu-se através da análise das narrativas dos sujeitos, em diferentes tempos e espaços. Falar das territorialidades homossexuais implicou apresentar a Praça XV, e comentar as falas a respeito das questões homo na imprensa da cidade através das notas do jornalista Beto Stodieck, bem como mapear as trajetórias por bares e boates que foram dando visibilidade à convivência homoerótica na cidade. Além de analisar as 21 dissertações de mestrado defendidas na UFSC até 2005, que tinham as homossexualidades como seu objeto de estudo. Ao tratar das vivências dos sujeitos entrevistados, optei por centrar a análise em suas percepções sobre seus modos de vida, a partir da noção de territorialidades diferenciadas. Por fim, apresento três sujeitos transgêneros também de gerações diferentes, já que suas “performatividades” ajudam a denunciar o caráter constitutivo do gênero e as “verdades” sobre masculinidades e feminilidades como construções culturais.

Tese
Conjugando amor e desejo: experiências masculinas

Nesta tese apresento o resultado da pesquisa que desenvolvi no Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas (DICH/UFSC) sobre homens de camadas médias da cidade de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Todos são pais, tiveram casamentos heterossexuais, viveram experiências de separação de suas esposas e posterior construção de vínculos afetivo-sexuais conjugais com outros homens. Nesse percurso que levou a conjugalidade homoerótica, “assumiram-se homossexuais”. Através do método de pesquisa que defini como “etnografia psicanalítica” busquei compreender os sentidos e os significados atribuídos por estes sujeitos aos deslocamentos e às mudanças de um modo de vida afetivo-sexual heterossexual, para um outro estilo de vida, assumidamente homossexual e homoerótico. Analisei nesta tese aspectos relacionados aos significados do casamento heterossexual e da conjugalidade homoerótica na vida destes sujeitos, bem como a relação entre casamento (tanto hetero como homo) e a afirmação de identidade de gênero. Para tanto, investiguei as distâncias e aproximações entre o campo dos afetos, das emoções e suas articulações com a sexualidade, desde perspectivas teóricas oriundas das ciências humanas, das ciências sociais, da psicanálise e dos estudos de gênero. Centrei minhas análises na relação entre afeto e sexualidade na construção do gênero masculino e na vivência concreta e singular dos sujeitos com quem dialoguei no campo. Acrescento a essa análise, a articulação entre gênero masculino e homossexualidade masculina, para compreender os significados do “assumir” a homossexualidade na vida dos entrevistados.

Tese
Os Relatórios Kinsey, Masters & Johnson, Hite: as sexualidades estatísticas em uma perspectiva das Ciências Humanas

Este trabalho é o resultado de uma análise discursiva e extradiscursiva sobre os relatórios Kinsey, Masters & Johnson e Hite publicados entre os anos de 1948 e 1981. Procura verificar as condições de produção histórica destes relatórios sobre sexualidade, servindo-se do instrumental teórico e metodológico de Michel Foucault em uma perspectiva interdisciplinar. Estes documentos emergiram num contexto social e histórico, apresentando comportamentos sexuais relatados confidencialmente por homens e mulheres através de enquetes e entrevistas, de modo a terem se integrado às práticas coletivas com status de verdades científicas. A tese se constitui em apontar o disfarce de critérios quantitativos em critérios qualitativos e, por extensão, da prática discursiva comum de confundir descrições com apreciações, estas últimas com julgamento valorativo e normativo. Os relatórios analisados, produzidos nos Estados Unidos e com repercussão mundial, contribuíram para disseminar formas não apenas de um agir sexual, mas de um falar e pensar sobre sexo através da mediação da ciência. Desta maneira, a verdade é tomada não como um conhecimento objetivo ou subjetivo em relação ao pensamento, mas verdade como obrigação de pensar de uma certa maneira em uma certa época e em determinado lugar. O recurso à estatística se revela como uma continuidade histórica do século XX, em busca de legitimidade para formulações científicas na área das ciências humanas, configurando um tipo especial de sujeito: a persona numerabilis, uma pessoa, homem ou mulher, que incorpora práticas de normalização, “mediadas” pela média numérica e estatística de uma população: antropometria, psicometria, taxa de fecundidade, expectativa de vida, incidências de doenças, índices comportamentais, percentuais de diagnósticos, etc, passam a fazer parte deste cenário. Neste contexto numérico, os relatórios são exemplos de formas de saber/poder articulados numa engrenagem onde sexualidades estatísticas se convertem em sexualidades prescritivas e estas, em sexualidades verdadeiras, normalizadas.

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