CEDOC
O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.
Este trabalho analisa discursos sobre menstruação em posts de comunidades do Orkut em seu caráter de acontecimento e em suas interfaces com corpo e gênero. Debate como as materialidades desses discursos podem marcar os corpos generificados, produzindo suas materialidades. É um estudo qualitativo, de abordagem interdisciplinar, que combina preceitos do método etnográfico adaptados para ciberespaços, com reflexões sobre os discursos, o poder e o saber, fundamentadas em escritos de Michel Foucault. A tese se constitui em apresentar o ciberespaço do Orkut como lugar com história e geografia próprias, cujos fóruns das comunidades são loci privilegiados de enunciação nos quais se fala recorrentemente de muitos silêncios que cercam o tema tabu menstruação em jogos discursivos atravessados por interdições. Além disso, apresenta as falas observadas nos fóruns como tendo potencial para questionar os saberes e poderes acerca dos corpos femininos que circulam com status de verdades científicas no âmbito de conhecimentos biomédicos, mas, muitas vezes, relacionados a desconhecimentos sistemáticos sobre a fisiologia feminina.
O presente trabalho propõe tomar o tema da identidade a partir de uma perspectiva crítica, assumindo como objeto de análise um conjunto de fragmentos colhidos numa comunidade da rede virtual de relacionamentos Orkut que propõe o debate acerca do tema da mudança. A comunidade Eu Mudei corresponde ao espaço discursivo onde se articulam os testemunhos de sujeitos, seus processos de desubjetivação e transformação, produzindo a abertura na qual é possível ver o lugar da relação com o exterior no aparentemente simples gesto de enunciação da mudança. Trabalhada na sua banalidade, e não apesar dela, a comunidade configurou-se então como o espaço em que a ambivalência da constituição do sujeito, nesse lançar-se contínuo à mudança, realizase, tanto na abertura ao impessoal, quanto na recondução a posições identitárias. O processo pelo qual se converte uma forma de subjetividade em outra constitui um intervalo, um hiato entre dois vir a ser subjetivos, distância entre o que deixei de ser e o que sou agora. O trânsito de uma identidade a outra expõe a sua radicalidade histórica: a constituição contingencial diante das forças positivas de seu tempo que delimita, recorta e hierarquiza as formas válidas de ser sujeito. O trabalho também buscou mostrar que esse lugar de enunciação da mudança produz movimentos outros e dá abrigo a vozes que não foram capturadas e reconduzidas a posições identitárias. Nesse caso, o gesto que nos lança ao movimento de mudança articula-se potente quando o que resta coincide com o que é suficiente para continuar. Mesmo um conceito como o de identidade, só pode apontar para o uno, para o indivisível, para a unidade, porque o seu processo de produção também já remete para o múltiplo, para o de fora, para o devir. A distância imposta pela passagem de uma posição identitária para outra é suficiente para restituir ao sujeito a sua condição de força afetada pelo mundo e de pura abertura à exterioridade. Descolada dos conteúdos das proposições, as forças singulares e nômades se dão nessa passagem, nesse salto que encontra no testemunho a possibilidade de expressão de sua potência criadora.
O conceito de violência psicológica, enunciado no art. 7º, inc. II, da Lei 11.340/06, conhecida como Lei Maria da Penha, é dotado de diferentes sentidos, para além do seu significado jurídico-legal declarado. Em uma leitura historicamente situada dos movimentos feministas brasileiros, utilizando como referencial teórico os Estudos de Gênero, proponho-me a responder à pergunta: Qual o sentido teórico-prático deste conceito? Com isso, espero desvendar significados diversos do fenômeno: um deles, implícito e de conteúdo sócio-antropológico; o outro, de caráter instrumental, revelador de perspectivas que têm norteado a implementação da lei em questão. Nesse aspecto, a partir de procedimentos metodológicos constituídos por revisão bibliográfica de áreas como Direito, Antropologia, Psicologia e Serviço Social; em coletas jurisprudenciais; em revisões legais; e em pesquisa de inspiração etnográfica em uma comarca do sul do Brasil, construí esta tese. Dividida em cinco capítulos, o primeiro é destinado a explicar a metodologia desta investigação interdisciplinar. Dentre os outros quatro capítulos, dois são de conteúdo teórico e os dois últimos, destinados a sistematizar os dados do campo. Sob a perspectiva instrumental, analisei instâncias jurídicas e extra-jurídicas a fim de sondar como o conceito vem sendo trabalhado nos espaços institucionais, primordialmente, de uma Delegacia Especializada no atendimento às mulheres, do Ministério Público, e de um Centro de Referência especializado no atendimento a mulheres em situações diversas de violências. Na tentativa de instituir um novo paradigma de análise das chamadas violências conjugais, retiro as violências físicas de foco e proponho uma leitura alternativa da Lei Maria da Penha, a partir da exploração proposta das violências psicológicas. Com isso, espero contribuir para a consolidação de uma visão crítica a respeito do diploma legal em análise.
A psicologia da comunidade e a psiquiatria social, implicadas na construção de sistemas assistenciais, convergem para a Saúde Mental. Este trabalho avalia suas bases teóricas e implicações epistemológicas e lingüísticas dos conceitos nela usados. Faz uma etnologia deste saber, em pesquisa de campo realizada num centro de atenção psicossocial (CAPS), mantido por prefeitura municipal, no Sul do Brasil, através dos discursos coletados entre técnicos, administradores e clientes. Analisa modelos, conceitos e metáforas da loucura, da doença mental e de seu tratamento, enquanto representações, incluindo representações dos profissionais sobre o trabalho em equipe multidisciplinar, terapia ocupacional, convívio social com a psicose, prevenção, trabalho com grupos e com famílias, bem como representações de familiar de paciente, sobre a influência dos mortos, possessão, busca da cura pela religião, convívio, tolerância e rejeição ao doente mental. Contextualiza os discursos locais no arquitexto da Saúde Mental, da psicologia e da psiquiatria. Aponta interpretações e experiências aplicáveis a serviços similares, nos quais o técnico em Saúde Mental, ouvindo, valorizando e buscando o sentido das metáforas implicadas no seu discurso - e nos discursos com que cotidianamente interage - possa melhorar sua relação com os pacientes e seus familiares.
Este trabalho de dissertação se propõe a discorrer sobre a homossexualidade feminina, fundamentando-se em uma leitura da teoria psicanalítica. Foi estruturado sobre duas técnicas de pesquisa. A primeira, bibliográfica, utilizou textos de Freud, especialmente, e Lacan, para discorrer sobre a constituição da sexualidade humana a partir das diferenças sexuais. Na segunda, pesquisa de campo, o autor obteve entrevistas de três mulheres homossexuais em Florianópolis, com relatos de suas experiências de vida. As interpretações imaginárias dos sujeitos entrevistados, fimdamentaram-se em constructos psicanalíticos, embora este não tenha sido um estudo clinico. A psicanálise foi utilizada como uma possível leitura sobre a temática da homossexualidade, porque, diferentemente de outros paradigmas, construiu-se a partir da teorização sobre a sexualidade humana. Para a psicanálise, a pulsão não tem objeto previamente definido e a posição sexuada dos sujeitos, sendo produto de suas identificações, nada deve à biologia. Neste sentido, o autor acredita que seu trabalho possa prestar alguma contribuição para as discussões sobre homossexualidade.
