CEDOC
O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.
Registros da Fundação Nacional de Saúde mostram que 1.523.657 adolescentes entre 13 e 19 anos, engravidaram no Brasil em 1995. No Hospital Regional de São José, em 1998, foram realizados 870 partos em adolescentes menores de 19 anos, representando um índice de 23% dos partos realizados no ano, nesta instituição. Durante o ano de 1998, realizou-se uma pesquisa documental, tendo como fonte de informação os prontuários destas 870 adolescentes internadas na maternidade do HRSJ. Paralelamente a este procedimento, de março de 98 a abril de 99, no Ambulatório de Adolescentes da referida unidade hospitalar, foram acompanhadas 110 jovens durante o período grávido-puerperal, através de reuniões mensais, utilizando técnicas de dinâmica de grupo. Estes' dois procedimentos aliados, à técnica de obsen/ação e somados ao atendimento individual e às visitas domiciliares (em alguns casos), forneceram os dados necessários para traçar o perfil diagnóstico da clientela atendida naquela maternidade. Dando prosseguimento a este estudo, em 1999 realizaram-se entrevistas estruturadas com 50 adolescentes grávidas e 50 adolescentes puérperas que freqüentavam os grupos de apoio do Ambulatório de Adolescentes. Durante a realização desta pesquisa , ficou evidente no depoimento das adolescentes que por mais que a gravidez possa ter limitado ou interrompido algum aspecto da vida destas jovens (trabalho, estudo, liberdade, etc), ou ter causado conflitos com pais, companheiros e outros, o que ficou ressaltado, na maioria das situações investigadas, foram as mensagens que elas acabaram internalizando durante toda sua vida, de que o filho é uma benção e a maternidade uma realização. De uma maneira geral, as adolescentes (grávidas e puérperas) fizeram uma associação do ser mãe a sentimentos de alegria, a experiência de novas relações de afetividade e a preocupações com as mudanças que iriam ou estariam vivenciando. As grávidas verbalizaram sentimentos de medo do parto e ansiedade em relação à troca dos papéis (de filhas, jovens, para o papel de mãe). As puérperas relataram insegurança nos cuidados com o bebê, sentimentos muitas vezes reforçado por figuras próximas, que acabaram assumindo a maternagem. As adolescentes acostumadas ao cuidado de irmãos ou outras crianças, incorporaram rapidamente seu novo papel e algumas até faziam planos de engravidar novamente. Obsen/ou-se também que 90% das adolescentes nunca havia usado preservativos, 80% não estava estudando e 77% não planejara a gravidez . Estes dados exigem uma resposta imediata das políticas públicas na área da saúde reprodutiva, tornando urgente discutirem-se estratégias que consigam romper as barreiras da simples informação para a efetividade de ações preventivas. Nestas estratégias também deve ser considerada a assimetria de gênero, pois é comum vermos a menina ser responsabilizada totalmente pela gravidez, porque não se preveniu. Outros aspectos importantes que devem ser considerados na elaboração de políticas na área da saúde reprodutiva, são as questões culturais e os indicadores sócio-econômicos relacionados a classe social, renda e escolaridade. Diante dos dados apresentados nesta pesquisa e tomando como base os autores que fundamentaram nossa análise, ficou evidente que as reações e o impacto da gravidez nesta faixa etária (de 12 a 18 anos) estão intimamente relacionados com os contextos: histórico, político , social e assistencial em que vivem estes jovens.
Esta dissertação é resultado de um estudo etnográfico realizado no Parque Nacional do Jaú/AM, durante os meses de maio e junho de 1999, tempo em que a pesquisadora habitou duas das comunidades locais, observando e participando das experiências cotidianas de seus habitantes, alguns dos quais lhe relataram suas histórias de vida. O Parque Nacional do Jaú é a maior Unidade de Conservação da América Latina em se tratando de florestas tropicais contínuas e, como muitos outros Parques Nacionais, apesar das polêmicas judiciais envolvidas, mantém a população tradicional vivendo em seu território. Essa população se reúne em comunidades dispersas por toda extensão do Parque, vivendo da agricultura e do extrativismo vegetal. É nos rios e florestas que encontra os alimentos necessários para a subsistência, como as carnes de caça e peixe, que consome acompanhadas de farinha de mandioca. O Parque encontrase afastado das zonas urbanas, o que dificulta para seus habitantes o acesso à assistência médica e à educação, já que as escolas existentes no interior do PNJ são poucas e oferecem apenas as quatro primeiras séries do Ie grau. Este trabalho teve como objetivo analisar os modos de vida, as relações de gênero e as representações de meio ambiente de três gerações de habitantes do Jaú. De modo geral, pode-se observar que as relações de gênero são ainda, nas comunidades do Jaú, fortemente marcadas pela hierarquia que valora as funções masculinas, invisibilizando muitas vezes as atividades das mulheres; que as relações geracionais são também hierarquizadas, com as decisões centradas nos pais; que os habitantes representam o meio ambiente de forma naturalista e que suas relações com as instituições administradoras do Parque são complexas, não estando isentas de conflitos. Essa dissertação teve também objetivo de divulgar as vozes dos habitantes do Parque, no sentido de que sejam ouvidas sempre que forem tomadas, pelos poderes públicos, decisões que resultem em conseqüências para as vidas e as práticas cotidianas dos habitantes desta UC.
Este trabalho é o resultado de uma pesquisa documental que, utilizando-se da matriz teórica e metodológica de Michel Foucault, elaborou uma análise de discurso das enciclopédias e guias sexuais editados no Brasil nas décadas de 80 e 90. Foram privilegiadas as categorias analíticas de Corpo e Gênero para a realização do mapeamento correlacionai dos enunciados, detectando-se as rupturas(descontinuidades) e permanências(continuidades) nos discursos dos documentos. Confirmando as teses foucauldianas, o corpo continua sendo objeto de investigações e intervenções através de macro e microfísicas de poderes e alvo de controles disciplinadores e reguladores que o submetem a normalizações e ^ normatizações. Vários dispositivos institucionais, jurídicos, psicológicos, sociológicos e outros, agindo visivelmente e anonimamente numa complicada engrenagem que envolve relações de forças(poder) e relações de formas discursivas(saber), vão inscrevendo marcas textuais, escritas sobre a pele e penetrando na profundidade corpórea. Esta incorporação, parte do processo de constituição da subjetividade, é agenciada pelos meios e veiculos de comunicação de massa, de maneira a atuar tanto nos corpos individuais como no grande corpo social. Nesta mesma linha de raciocínio, no tocante aos discursos de gênero (mais ausentes do que presentes) nas enciclopédias, os corpos masculinos e femininos continuam a serem tratados, extrapoladamente, de maneira biológica diferencial, o que desencadeia naturalizações de experiências construídas em campos históricos e culturais. As pulverizadas e dispersas relações poder/saber, apesar dos visíveis esforços dos movimentos feministas, ainda sustentam práticas sociais que hierarquizam as relações entre os homens e as mulheres, sujeitando-os a uma "fixa" ordem do discurso. O-'Constatad.o_Pxe.d.QminÍQ~do('"S-)-disear-so(-.s)^médicois^(.dê^base-->bÍ0lógica), e a sua estreita ligação com o(s) discurso(s) sobre sexualidade, praticamente ignoram os avanços dos discursos sobre gênero e sua perspectiva de superação de desigualdades políticas ancoradas na diferença sexual. Os discursos da psicologia e da sociologia, por exemplo, nos tipos de publicações pesquisados, são meros coadjuvantes, auxiliares técnicos para sustentação de uma lógica assimétrica de dominação masculina. Como ruptura principal, a emergência da Aids, no início da década de 80 se, por um lado, pôde ser apontada como promotora de alterações discursivas e indutora de novos intercâmbios corporais (menos físicos e mais virtuais) veio, num outro vetor, fortalecer o discurso médico higienista, na esfera sexual.
Esta dissertação pretendeu discutir modos e estilos de vida de mulheres lésbicas em Florianópolis, na tentativa de explicitar algumas de suas práticas, inserções e relacionamentos sociais, tendo como objetivo contribuir para a desconstmção da representação dos modelos heterossexuais como expressão de normalidade. _ Baseado nos pressupostos do método etnográfico, através de entrevistas gravadas, obteve depoimentos e histórias de vida de dez mulheres homossexuais, moradoras da Grande Florianópolis, com idades entre 22» e 52 anos e posições sociais diferenciadas. A maioria das infonnantes pertencia às camadas médias, sendo entrevistadas também mulheres oriundas de camadas populares. Algumas destas mulheres tinham concedido entrevistas .para estudo desenvolvido anteriormente, o que facilitou aformação de uma rede de infonnantes -e uma convivência estreita entre elas e a pesquisadora, na realização do trabalho empírico. Procurando “escutar as vozes” destas mulheres e problematizar seus relatos, foram propostas algumas questões que nortearam as análises desenvolvidas. Assim, as informantes falaram do início de sua auto.-percepção como homossexual, de seus- relacionamentos com as familias de origem, suas relações com os filhos, com as arceiras, relatando também al - s de seus roJ` etos ara o futuro. Neste sentido, podemos destacar que este estudo demonstrou a diversidade de modos e estilos de vida das mulheres entrevistadas.
Analiso a dificuldade de subjetivar a criança na ordem do discurso jurídico. Apresento reflexões teóricas sobre a constituição do discurso de saber criança: sobre a criança em situação de desamparo, em situação abusiva e em situação de vítima. Enfatizo o referencial psicanalítico do sujeito criança judicializado. Discuto a leitura judicializante de práticas sociais, como solução de relações conflitivas. Sigo a criança abusada no caminho da judicialização. Coloco em questão a categoria de gênero atravessada nesta análise. O regulamento para a análise do discurso está baseado na teoria de Michel Pêcheux e leituras de Eni P. Orlandi. Analiso os discursos dos julgadores contidos em acórdãos da jurisprudência do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina, utilizando o mecanismo da interpelação ideológica. Proponho a cada profissional, inclusive legisladores, re-significar sua prática para acolher a criança com dignidade que a condição de sujeito requer.
