CEDOC
O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.
A presente dissertação analisa a dependência em substâncias psicoativas e o processo de recuperação dos dependentes, alicerçada nas contribuições das comunidades terapêuticas. O objetivo central foi compreender e identificar as causas e os motivos que levam à dependência química e de que forma as comunidades terapêuticas, assim como os grupos de auto-ajuda, colaboram para o resgate e a recuperação dos adictos (escravos do vício). A pesquisa teve caráter exploratório-descritivo, e valeu-se de um estudo de caso, feito na Entidade CERENE. Como procedimentos metodológicos, além de vasta consulta documental e referencial, foram feitas seis entrevistas com ex-residentes do CERENE, bem como coleta de depoimentos e entrevistas com autoridades. O estudo, à luz da sociologia da saúde e de sua trajetória, percebeu nas comunidades terapêuticas um olhar que transcende o cuidado clínico, pois tratase de resgatar o indivíduo, motivá-lo a reaprender a viver, e a posteriori novamente reinserí-lo à sociedade.
Este trabalho traz parte da história de vida de treze mulheres encarceradas no único Presídio Feminino de Santa Catarina, em Florianópolis, acusadas e/ou condenadas por tráfico de drogas proibidas. No Brasil e no mundo, o narcotráfico por si só desperta atenção, mas poucos são os trabalhos a focar a criminalidade à luz das relações de gênero. É o que propomos: compreender em que medida a participação das mulheres no tráfico de drogas ilícitas está permeada pelo papel a elas imposto por nossa cultura12 e também como a participação delas se intersecciona com as relações afetivas com seus companheiros, pais, irmãos, filhos e com suas mães, irmãs e filhas. Tendo como ponto de partida dados quantitativos e qualitativos, a hipótese central foi: será o ingresso da mulher no tráfico de drogas induzido por seu(s) companheiro(s)? Considerando que autoridades e pesquisadores, como Alba Zaluar (1994), apontavam que as mulheres não eram as protagonistas principais no tráfico de drogas, decidimos ver se isto se confirmava na realidade, porém do ponto de vista das prisioneiras. Assim, com esta primeira hipótese, nos fundamentamos nas teorias de gênero e na revisão da literatura para abordar os seguintes aspectos: criminalidade, vida carcerária e sistema penal e prisional. Embora façamos uso de dados quantitativos, a metodologia do trabalho é qualitativa. As entrevistadas foram selecionadas de duas formas: cruzamento de dados da instituição e convite interpessoal. O roteiro foi elaborado de modo a apreender dois momentos de suas trajetórias de vida: os vários contextos de inserção e o da participação no tráfico de drogas. Em ambos os casos dialogamos com diversos autores. Os resultados são surpreendentes, tanto do ponto de vista prático quanto teórico. Primeiro descortinamos o presídio, damos cor às relações sociais do convívio e do sistema através da rotina das presidiárias na instituição, destacando vários aspectos (rituais de entrada, distribuição e uso do espaço, visitas, vigilância e castigo, etc.). Depois projetamos luz nos relacionamentos afetivos das mulheres entrevistadas para, enfim, perceber que embora o padrão androcêntrico pretenda para os homens tudo que é superior, inclusive dizer que seriam os homens os responsáveis pelo ingresso delas na criminalidade, algumas vezes isto não se confirmou, como mostram nossos dados.
O presente trabalho, produzido através de documentos, publicações e entrevistas procurou colocar em perspectiva as histórias de diferentes homens e mulheres, sujeitos militantes, líderes ou não, que constituem e vêm reconstituindo jeitos de ser e viver a luta no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Os relatórios internos e as diversas e distintas publicações do e sobre o MST produzidos nos últimos 20 anos desvelam processos que permitem perceber que outras preocupações foram constituídas em meio às lutas e disputas pela conquista da terra. Preocupações que foram mudando, adquirindo outros contornos nas idas e vindas da produção de idéias, práticas e sujeitos de um Movimento em construção. E o que se pode observar a partir desses investimentos são tensões e conflitos nas relações entre homens e mulheres em acampamentos e assentamentos. Tensões que acabaram sendo redimensionadas justamente em função de desdobramentos ideológicos, políticos e também estratégicos do MST em sua busca de transformação social, construção do “novo homem “ e da “nova mulher”. Este estudo é um exercício crítico de reflexão sobre a natureza dessas produções nas relações cotidianas, nas tentativas de se construir sujeitos. Busca investigar como as mudanças foram sendo construídas e, de que forma, foram investidas sobre as relações de trabalho, sociais, políticas e, também, afetivas de mulheres e homens, bem como homens e homens, mulheres e mulheres nas dobras do MST.
Estudo sobre a história da cidade de Joinville enfatizando dois momentos significativos da história local: os preparativos do primeiro Centenário da cidade que foi comemorado em 1951 e o período da Campanha de Nacionalização (1938-1945). Os anos posteriores ao fim da Segunda Guerra Mundial são importantes na ressignificação da imigração para a história da cidade. O “tempo” do Centenário é um tempo lembrado e muito festejado, pois, no pós -guerra, boa parte da sociedade local preparou (desde 1946) os festejos do seu primeiro centenário, marcando uma profunda relação entre as imagens da cidade e a preservação de uma memória a ser (re)construída e (re)significada. O Centenário, amplamente comemorado em 1951, fortaleceu os laços com uma história pretérita, do tempo da colonização e dos imigrantes “pioneiros”. As histórias sobre o tempo da Nacionalização são inúmeras, especialmente, as relacionadas à proibição do uso do idioma alemão. As conseqüências deste fato tiveram vários desdobramentos, porque a cidade, até então, costumava ter seus referenciais pautados na sua “origem étnica”, fruto da importância da imigração alemã no decorrer do século XIX. Todavia, se a princípio, em Joinville, o período da década de 1930 e meados da década de 1940 (quando a questão da valorização/desvalorização da “cultura germânica” foi utilizada politicamente) se apresenta como um “tempo de esquecer”, marcado por experiências impregnadas de tensões étnicas, ao mesmo tempo, sinaliza para outras questões, que compreendemos serem valiosas para entendermos o legado do significado da imigração para a história local. Uma história da imigração que foi amplamente rememorada durante as comemorações do primeiro Centenário da cidade. As histórias sobre aqueles “tempos” foram perscrutadas a partir de dois tipos de memórias: uma publicizada através da imprensa e das realizações da Sociedade Amigos de Joinville – SAJ, portanto uma memória “mais masculina”; e, através das narrativas orais, especialmente de mulheres, na perspectiva de evidenciar algumas memórias “femininas”.
O presente trabalho faz uma história cultural a partir dos dados demográficos da freguesia de Nossa Senhora das Necessidades da Praia Comprida (atual Santo Antônio de Lisboa, Florianópolis, SC). A população desta freguesia foi constituída basicamente por açorianos e africanos. O comportamento demográfico e cultural da população livre no século XVIII era muito semelhante à matriz demográfica dos Açores no período. Ao longo do século XIX esta população foi se afastando dessa matriz açoriana e se “abrasileirando”, a ponto de chegar ao final do século XIX sem lembrar mais de sua ascendência açoriana. No século XX esta população se proclamará “sem origem”. No final do século XX, o movimento de valorização da açorianidade precisou buscar nos documentos esta ascendência que a memória já tinha esquecido. Por outro lado, estes mesmos documentos também revelaram que a presença africana não foi tão insignificante como a historiografia tradicional tem apregoado. Aos descendentes de africanos não se perguntará se têm origem, a cor de sua pele os colocam entre os descendentes de escravos, tenham sido seus antepassados escravos ou não. A origem que se lhes atribui é o cativeiro, não uma origem étnica ou geográfica. No entanto, assim como os descendentes de açorianos, os descendentes de africanos não serão considerados como “de origem”, o que os coloca no rol dos “sem origem” ao lado dos descendentes de açorianos.
