CEDOC
O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.
Trazer para o campo do design a discussão sobre a produção de espaços e objetos como uma produção de ações e modos de vida, bem como sobre a importância de um entendimento da dinâmica social e de respeito às necessidades específicas de cada um dos grupos, no que concerne à concepção de objetos e espaços na e/ou para a casa, é o objetivo geral deste estudo. Ao refletir sobre a relação dos seres humanos com os interiores domésticos, procuramos compreender quais são os espaços e objetos preferidos, e o que os torna importantes. Tendo como base as alterações sociais mais recentes e a intensificação da circulação de objetos, construímos um objeto de estudo que exigiu a interdisciplinaridade como estratégia metodológica, ao aproximar o design e as ciências humanas. A hipótese que nos serviu de base é a de que – ainda que as preferências pessoais se estabeleçam – os espaços vão sendo arranjados através dos artefatos, moldados não apenas conforme interesses e possibilidades daqueles que os utilizam, mas, igualmente, pela necessidade de as pessoas se sentirem parte de um determinado grupo, sendo, por ele, influenciadas. Consideramos, ainda, que os objetos não são apenas construídos pelas pessoas, mas, igualmente, as modifica. A despeito de termos pesquisado diferentes arranjos familiares para identificar as similaridades e as diferenças, os resultados apontam para fortes diferenças etárias, e não em função dos arranjos aos quais os indivíduos pertencem. Enquanto entre adolescentes e jovens o quarto é o espaço preferido, a sala íntima ou de estar representa a opção número um, entre os adultos, seguida pelos espaços em que a identidade profissional se destaca. Em termos de objetos, as escolhas recaem, entre os mais jovens, sobre os objetos de comunicação, ao passo que, entre os mais velhos, são as questões de memória determinantes na importância dos mesmos. Algumas peculiaridades surgiram no processo de pesquisa, e aparecem no texto como elementos importantes de serem pensados, como a diferença entre as formas de vivenciar os espaços entre os que vivem em família em relação aos que vivem sós, ou as soluções dadas pelas pessoas que viveram fora do Brasil, para citar algumas delas. Pelas leituras feitas, com base nos espaços e objetos preferidos, é possível afirmar que existe certa homogeneidade na heterogeneidade das escolhas e formas de arranjar e escolher espaços e objetos, nos interiores domésticos, mas que chegar a isso é montar um complexo quebra-cabeças.
Esta investigação tem por propósito mapear e interpretar as estratégias e dispositivos narrativos (verbais e objetualizados), utilizados nos processos de atualizações biográficas (pessoais e dos sistemas de objetos) de artesãos (ãs) modeladores de cerâmica folclórica; acionados com o propósito de inserir a si (qual autor-artista) e sua produção (qual objeto cultural) num tipo de circuito de circulação econômica, simbólica e política na cidade de Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. Para isso, optei por duas estratégias metodológicas: a entrevista narrativa auto-biográfica, também denominada história de vida; e o estudo de caso. A primeira estratégia foi utilizada para a coleta de enunciados narrativos (verbais) extensos de artesãos (ãs) modeladores do barro, sobre suas trajetórias de vida, o aprendizado das técnicas e estéticas artesanais, as formas e as condições de produção artesanal, sua relação com os circuitos de circulação e consumo, assim como com o sistema de objetos artesanais. Esta primeira estratégia metodológica conta com dois dispositivos: a (re)construção de narrativas e sua interpretação por meio dos fragmentos narrativos. Através destes, foi possível (re)construir os gêneros narrativos, configurar as performances atuadas por aqueles (as) narradores (as) e explicitar as estratégias e dispositivos de que estes (as) lançam mão para sua atualização biográfica, ou seja, para as narrativas de modernizar-se. A segunda estratégia metodológica – o estudo de caso – foi utilizada como meio de acesso aos sentidos e significados de textos narrativos (objetualizados) inscritos na superfície dos objetos artesanais, resultado do trabalho (gestualidade plástica) daqueles (as) narradores (as). Tomo como caso privilegiado o conjunto de Boi-de-Mamão, e a sua performance dramática como diacríticos dos significados que pretendo explicitar. Estes objetos são entendidos teoricamente como narrativas (enunciados) que explicitam sob outras formas os conflitos entre grupos subalternos e hegemônicos. Tais conflitos que expõem as estratégias de subordinação, assim como aquelas de resistências – ou seja, as disputas políticas, que constituem os enquadramentos sócio-históricos de um tipo de arena que configura uma economia política e simbólica do artesanato/cultura popular. Por meio desta estratégia foram mapeadas e interpretadas as atualizações biográficas disponíveis e aceitáveis aos objetos num contexto urbano recente; sua circulação e consumo em um circuito econômico e simbólico/cultural; e a configuração deste sistema de objetos na forma de “obra” de um tipo de arte popular (objeto cultural) que participa, ou tensiona um tipo de história da arte ocidental recente e sua crítica. Pela utilização destes procedimentos metodológicos, acredito ter construído uma panorâmica dos processos de atualização biográfica de homens e mulheres modeladores do barro, de seu trabalho e das “coisas” resultado deste trabalho, explicitando sua agência como instância mediadora das escolhas políticas, históricas, estéticas, produtivas e biográficas que estes (as) narradores (as) realizam para a sua inserção no que é classificado como tradicional no cosmos urbano, fragmentado, intercultural, capitalista recente.
O objetivo da presente pesquisa foi analisar relações entre corpos de mulheres atletas e novas tecnologias. Buscamos saber como produções discursivas da mídia, da ciência e do establishment esportivo sobre a condição do feminino promovem rupturas e propõem novas concepções corporais e na sexualidade. Trabalhando com inspiração metodológica em trabalhos de Michel Foucault, em especial no que ele propõe como arqueologia, analisamos práticas e formações discursivas na descrição de enunciados. Os discursos oficiais da Agência Mundial Antidoping (WADA) e das Federações e Confederações de Atletismo (IAAF e CBAt) e da Natação (FINA e CBDA) foram analisados como dispositivos biopolíticos, mostrando-se por que e como o doping continua a ser condenado. A escolha por esses dois esportes deu-se, fundamentalmente, em função dos casos das atletas Rebeca Gusmão e Caster Semenya. Os conceitos de biopolítica e de governamentalidade foram empregados para analisar as políticas transnacionais de doping, que visam governar corpos dopados e não dopados. Traçamos nossa reflexão a partir da análise de um conjunto de políticas da WADA, tais como os testes fora de competição e o Programa Passaporte do Atleta. Em outro momento o enfoque foi para a entrada do doping nos discursos, entendendo que ele é identificado/relacionado à produção de atletas mulheres com outros tipos de feminilidades, que fogem do padrão heterossexual. Analisamos o caso da nadadora brasileira Rebeca Gusmão, centrando nossa reflexão no Painel Antidoping dessa atleta, dando ênfase na transformação corporal pela qual passou e pela repercussão que o caso teve na imprensa. Levamos em conta, juntamente com o material presente no site da Federação, os discursos da imprensa sobre a atleta, antes e depois da comprovação e divulgação do doping, para refletirmos sobre como se constroem as relações entre corpo e performance esportiva, visto que Rebeca excedeu a norma de um “corpo feminino”. Retomamos a história da Política de Verificação de Gênero, que surge com as preocupações em torno do doping, e analisamos o caso da atleta sul-africana Caster Semenya. Semenya foi protagonista de um grande investimento da mídia tanto por causa de sua aparência, fora dos padrões heteronormativos, quanto por suas capacidades atléticas, muito superiores às das adversárias. Sugerimos que a WADA é constituída não com base em sua capacidade de resolução de assuntos esportivos, mas sim em sua capacidade de apresentar qualquer dispositivo necessário para preservar as reivindicações de fair play e de outros ditames do esporte moderno, como, por exemplo, a manutenção do território esportivo classificatório, baseado também na separação dos sexos. O antidoping não é apenas uma questão específica de esportes, mas um exemplo de como os valores da heterossexualidade dominante estão implicados na sociedade. Ao analisarmos os discursos da mídia e do campo esportivo pudemos verificar que o doping tem implicações com formas e aparências de algumas mulheres estigmatizadas e julgadas por isso, já que não são somente as suas performances que interessam, mas a afirmação/confirmação/repressão de que são, “de fato”, mulheres.
A presente tese se propõe a acompanhar a trajetória das heroínas de desenho animado infantil no cenário global contemporâneo, rumo à consolidação da superheroína. De um lado, procuramos levar em conta as mudanças nos agenciamentos atribuídos à sua imagem ao longo dos últimos tempos, considerando como marco o surgimento das personagens do desenho animado As Meninas Super Poderosas. Por outro lado, problematizamos o modo como as heroínas, de maneira geral, costumam ser vistas, vividas e interpretadas, frente à importância do desenho animado para a cultura lúdica infantil. Com relação à imagem da superheroína hoje, destacamos a incorporação de uma série de atributos, antes dignos exclusivamente dos heróis masculinos, que, no entanto, se apresentam fortemente arraigados em determinados referenciais de feminilidade. Quanto à relação estabelecida entre os públicos e seus/uas heróis/ínas localizamos diferentes formas de experiências que ajudam a definir, em primeira instância, fronteiras de gênero, de classe e de grupos de idade. A natureza contraditória com que diversos elementos são arranjados, ajudam dar forma e coerência à imagem da que denominamos supercorderosa. Como uma mônada, ela comporta inúmeras formas de articulação, a partir de um amplo leque de elementos, atributos e características, mas que no conjunto levantam a bandeira de uma autoafirmação feminina na modalidade supermulher/ supermenina. Por sua vez, essa imagem hoje deve muito às transformações que hoje atravessam a imaginação global.
Este trabalho tem como objetivo apresentar a possibilidade de uma revista, destinada ao público feminino, servir como “lugar de memória” (Pierre Nora). Para tanto, formou-se um grupo com três mulheres que foram leitoras da revista Capricho nas décadas de 1950 e 1960, onde elas puderam folhear exemplares da revista da época citada. As memórias das três entrevistadas me deram o “sumário” desta tese. Suas falas lançaram faróis diante de alguns temas, como a publicidade e as fotonovelas. Dessa forma, dividi este trabalho em duas partes. A primeira, que compreende o capítulo 1, está relacionada ao primeiro momento de minha pesquisa, ao contato que tive com minhas três entrevistadas. Neste capítulo discuto dois grandes temas: memória e as possíveis relações estabelecidas entre leitoras e revistas. A segunda parte desta tese é composta por dois capítulos: um sobre fotonovela e outro sobre publicidade. A fotonovela foi referida, por todas elas, como sendo o grande motivador para a compra da Capricho. Neste capítulo conto um pouco da história deste tipo de narrativa sentimental, num segundo momento abordo a relações entre leitoras e fotonovelas, tecendo discussões sobre as heroínas, os heróis, o amor, os códigos morais e de conduta, entre outras questões. A publicidade foi o maior desencadeador de memórias. No capítulo dedicado a esse tema discuto a possibilidade que a publicidade abre para a análise dos papéis sociais que se espera que sejam desempenhados por mulheres e homens de uma determinada época. Apresento reflexões acerca da publicidade como fonte de informação, na seqüência, desenvolvo uma discussão sobre a relação entre os anúncios e os cuidados de si e os cuidados do outro, seguido por ponderações sobre as imagens das mulheres que ilustram as publicidades. Importante ressaltar que todos os temas que discuto ao longo desta tese: memória, práticas de leitura, fotonovela e publicidade, têm como pano de fundo as categorias gênero e subjetividade. Através desta pesquisa foi possível vislumbrar uma forma de acesso através das revistas, memórias e narrativas a aspectos relacionados à história das mulheres e das relações de gênero. Ficando, também, evidenciado que a revista Capricho além de um “lugar de memória” compreende um espaço de contribuição para a constituição de subjetividades de mulheres de diferentes épocas.
