CEDOC
O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.
Tendo como mote as políticas de ações afirmativas na sociedade brasileira, nesta tese articulam-se estudos de etnicidade, memória, cidade e globalização. Entende-se que as discursividades étnicas ganham vulto no pensamento social contemporâneo, ao mesmo tempo em que alguns Estados nacionais começam a desencadear mudanças no sentido de promover a diversidade cultural e étnica por meio da garantia de políticas públicas, provocando indagações sobre as fronteiras simbólicas das identidades nacionais. Essas discursividades, quando acionadas pelos sujeitos e os grupos para demarcar lugares de pertencimento, assumem no contexto da cidade estatuto de narrativas étnicas, inserindo-se nos jogos da memória e polemizando com outras representações e imagens acerca das identidades locais e regionais. Portanto, as implicações dessas narrativas étnicas sobre o espaço da cidade e a constituição das identidades regionais são os eixos centrais deste trabalho. Para interpretar a relação entre o local, o regional, o nacional e o global realizou-se a pesquisa etnográfica na cidade de Novo Hamburgo, no Vale do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul/Brasil. A partir das comunidades negras locais buscou-se compreender como suas narrativas étnicas dialogam com a memória da imigração alemã no Vale e as representações em torno da identidade regional gaúcha.
Esta tese, ao postular como problema antropológico contemporâneo a mecanização do corpo e a humanização da máquina, objetivou investigar a relação corpo e máquina, técnica e ciência no centro de treinamento de um clube da primeira divisão do futebol brasileiro, tomando como horizonte de análise o ciborgue e o ser-no-mundo. Através do método etnográfico, um trabalho de campo foi realizado entre abril de 2006 e fevereiro de 2007, quando observei a estrutura e organização do clube, a vida cotidiana e os sistemas de treino, além dos agenciamentos da tecnociência e da biomedicina por parte dos especialistas – médicos, fisioterapeutas, técnicos e auxiliares, fisiologista, preparadores físicos, nutricionista... – sobre os corpos dos atletas no centro de treinamento. Este trabalho está dividido em três partes. Na primeira, após discutir teórico-metodologicamente a tese, descrevo o espaço físico e social que o clube ocupa na cidade e as relações vividas pelos atletas numa instituição que guarda características semelhantes às de uma “instituição total”. Ademais, procurei compreender a lógica que preside as relações quando estas são mediadas pela equivalência abstrata do dinheiro. A anatomopolítica e o liberalismo econômico, entre outras questões, estão no fundamento destas primeiras análises. A segunda parte da tese apresenta os procedimentos planejados e realizados pela biomedicina e a tecnociência; analisa a maquinaria agenciada pelos especialistas já referidos e interpreta, a partir das teses da normalização da espécie e do biopoder, como os atletas convivem com as máquinas que escrevem e inscrevem verdades ao investir sobre o corpo seus esforços perscrutadores. Para tanto, etnografei as práticas médico-fisioterápicas, o trabalho do fisiologista e dos preparadores físicos, o treinamento técnico e tático, além da nutrição. O ciborgue, fruto da técnica – que desencobre aquilo que está disponível – e da ciência, vê-se entrelaçado ao conjunto maquínico do CT através da incorporação dos procedimentos, dos dispositivos e objetos que tal maquinaria põe em ação. Tal incorporação, entretanto, já anuncia a terceira parte da tese, na qual a incomensurabilidade do corpo (do humano) foi tratada. Deslocando o enfoque da relação saber/poder foucaultiana para o ser-no-mundo fenomenológico, discuto, considerando a “indeterminação essencial da existência,” os imponderáveis e a incomensurabilidade do corpo próprio: esta abertura passível de agenciamento pelos atletas. Retomando a reflexão sobre o corpo-máquina, sustento que a dor, a illusio e o se-movimentar estão inscritos neste espaço incontrolável do mundo que habitamos e que tais ordens do vivido estão no campo da mimesis, da poiesis e da esthesis, ou seja, constituem-se em tempo-espaço de criação, de invenção, no qual o novo pode brotar e as relações sociais institucionalizadas numa estrutura em “equilíbrio instável” podem ser substituídas por momentos de comunnitas. Tais aspectos, ainda, destarte a fragmentação do corpo e das práticas através dos procedimentos tecnocientíficos, sugerem também os termos nos quais uma experiência, no sentido benjaminiano, surge como devir possível, haja vista a unidade fundamental corpomundo, esta que o se-movimentar traduz em diálogo através da intercorporeidade e da intersubjetividade. Concluo, por fim, afirmando a tese de que a natureza do corpo próprio é o ponto de partida e o limite da relação corpo-máquina, assim como a ancoragem que possibilita o ciborgue, este ser que incorporou a tecnociência.
Busco nesta tese intitulada “A caminhada ´e longa ... e o ch˜ao t´a liso: O Movimento hip hop em Florian´opolis e Lisboa” refletir sobre a complexidade estruturante da produc¸ ˜ao musical de grupos de rap no Brasil e em Portugal que refletem sobre os espac¸os (geogr´aficos e sociais) ocupados, por homens e mulheres, nos centros urbanos de cidades como Florian´opolis e Lisboa em suas produc¸ ˜oes musicais. Desta forma, busco analisar as pr´aticas est´etico musicais dos rappers dentro do Movimento hip hop, principalmente a partir das relac¸ ˜oes constru´ıdas com as cidades nas quais est˜ao e sobre a qual buscam refletir a partir de suas vivˆencias nestes espac¸os urbanos. Al´em das relac¸ ˜oes estabelecidas em trabalho de campo, e que me oportunizaram uma observac¸ ˜ao mais detalhada, utilizo as m´usicas produzidas por estes rappers como importantes referˆencias para minhas an´alises, principalmente a partir das narrativas que estas m´usicas contˆem. Estas pr´aticas musicais me possibilitaram: (1) refletir sobre a relevˆancia da produc¸ ˜ao musical na determinac¸ ˜ao dos fluxos que os rappers estabelecem a partir de suas cidades, Florian´opolis e Lisboa; (2) identificar as diferentes formas de compreens˜ao do processo de alargamento do espac¸o ocupado pelo Movimento hip hop; (3) perceber aspectos que unem ou distanciam a produc¸ ˜ao musical do rap no Brasil e em Portugal; (4) analisar as formas de representac¸ ˜ao da cidade para refletir sobre a formac¸ ˜ao de diferentes estilos de rap. Perceber a produc¸ ˜ao e circulac¸ ˜ao destes grupos na cidade ´e refletir sobre a pr´opria cidade a partir das diferentes coletividades que a povoam e dos usos que fazem dela. Me amparando nesta Etnografia defino quatro estilos de rap: rap de quebrada, rap floripa e rap gospel – Florian´opolis, e o rap crioulo – Lisboa com os quais interagi no trabalho de campo e com eles procurei melhor perceber os usos e apropriac¸ ˜oes do espac¸os urbanos a partir de suas pr´aticas est´etico-musicais, bem como das representac¸ ˜oes que controem sobre estes espac¸os a partir de suas vivˆencias.
Esta tese é um estudo sobre as relações entre cultura, comunicação e consumo em tempos de globalização. Tomando como quadro de referência teórico-metodológica os resultados de pesquisas de caráter etnográfico conduzidas em diversos países do globo, os quais apontam para a imbricação dos telefones celulares no tecido das culturas urbanas contemporâneas, esta pesquisa descreve e analisa as especificidades da apropriação e consumo dessa tecnologia global em um bairro de camadas populares na cidade de Florianópolis. Ao longo de doze meses de trabalho de campo, investigamos os processos simbólicos e práticas socioculturais reveladas nas relações pessoa-telefone celular na comunidade do Morro São Jorge, procurando compreender as lógicas culturais envolvidas a partir do enquadre teórico dos estudos antropológicos sobre tecnologias de comunicação e informação, globalização, consumo e grupos populares. Concluímos que os telefones celulares jogam um papel relevante na vida cotidiana em diversos aspectos: nas relações entre gêneros e gerações; na vivência da religiosidade; na apresentação de si; na construção de imaginários, identidades e do mundo social, constituindo parte importante de um estilo de vida, uma maneira de estar no mundo – mediada pela tecnologia – cada vez mais característica da cultura contemporânea.
Neste trabalho, tenho como objetivo discorrer sobre o impacto das transformações nas relações de gênero, promovidas nos anos 1960, na incorporação da linguagem Pop pelo design de produtos feito no Brasil entre o final da década de 1960 e meados dos anos 1970. Para tanto, recorri às representações de interiores domésticos veiculadas pela revista Casa & Jardim como fontes de pesquisa. A abordagem conceitual escolhida para estudar as revistas de decoração tem como fundamento a sua caracterização como mídias de estilo de vida. Operando como intermediárias culturais, as mídias de estilo de vida produzem, divulgam e legitimam formas particulares de conhecimentos, valores e comportamentos, oferecendo ao público leitor pontos de apego para a constituição de identidades de classe, gênero e geração. De um modo geral, as representações de artefatos e ambientes Pop em Casa & Jardim sugerem alternativas de domesticidade voltadas para as classes médias, identificadas com a cultura jovem. Como parte constitutiva da revolução comportamental desencadeada nos anos 1960 em escala internacional, o design Pop foi um dos meios utilizados pela juventude da época para expressar seus anseios por mudanças nas regras hegemônicas que organizavam a vida social. Devido à sua ligação com as posturas iconoclastas experimentadas pelas/os jovens naquele momento, quero argumentar que a domesticidade Pop foi tanto informada quanto teve impacto nas modificações ocorridas nas relações de gênero vigentes. Ao propor o uso do corpo de maneira descontraída e relaxada, os móveis e ambientes Pop deram sustentação para a ampliação dos limites referentes aos padrões do comportamento feminino, classificados como aceitáveis até então.
