CEDOC
O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.
Esta tese teve como objetivo investigar a construção social da educação sexual em uma escola municipal do Rio de Janeiro com um Núcleo de Adolescentes Multiplicadores (NAM). Foi desenvolvida uma pesquisa etnográfica entre agosto de 2002 e junho de 2003, tendo sido feitas observações dos encontros do NAM, de aulas de diversas disciplinas e, em especial, das de Ciências, além de reuniões, recreios e outros. Foram realizadas entrevistas com professoras/es e estudantes. Sendo a sexualidade um importante foco de investimento político e de tecnologia de governo, a escola desponta como um espaço privilegiado para o desenvolvimento do biopoder. Esta tese demonstra de que modo a educação está imbricada nessa problemática e como ela se relaciona com outras áreas do saber, como a biologia, a medicina, a demografia e a psicologia, a fim de gerenciar a sexualidade adolescente. A educação sexual tem sido realizada nas escolas, predominantemente por professoras/es de Ciências, a partir do tema reprodução humana e, em algumas escolas, dentro do NAM. A escola oferece um saber que se propõe científico e, portanto, verdadeiro sobre a sexualidade, o qual é utilizado pelos/as alunos/as como um critério de verdade para avaliar seus conhecimentos prévios sobre esse tema. O corpo humano é concebido como um organismo e cada um dos órgãos é estudado tendo como foco principal a função reprodutiva. Ganha assim destaque o corpo da mulher em relação ao do homem. Contraditoriamente, ao desenvolver a educação sexual a partir do tema reprodução, é esta que acaba sendo enfatizada, quando é justamente a ocorrência dela entre adolescentes que diversas políticas educacionais querem evitar. As intervenções escolares buscam desenvolver nos/as adolescentes um sentido de responsabilidade em torno das relações sexuais, buscando mudar ou adequar os dispositivos que estruturam os comportamentos preventivos. Para isso, além de recomendar o uso do preservativo para uma prática de sexo seguro, aconselha-se um determinado modelo de relacionamento no qual a relação sexual deva ocorrer. De modo semelhante, a gravidez desponta como uma experiência inadequada a esse período da vida.
- Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
O futebol, como prática esportiva, permaneceu quase que totalmente na esfera masculina até 1979, quando foi revogada a proibição imposta às mulheres logo no início da ditadura militar. Já na década seguinte, clubes de futebol de mulheres pipocaram de por todo país, entre eles, o Esporte Clube Radar fundado em 1981 no Rio de Janeiro. Com sede no bairro de Copacabana, o Radar representou durante a década de 1980 o principal clube do país: foi hexacampeão da Taça Brasil de Futebol Feminino, campeão do Torneio Brasileiro de Clubes em 1989, além de representar a Seleção Brasileira no mesmo ano em Campeonato Mundial. Esta dissertação tem como objetivo compreender, através de uma pesquisa etnográfica direcionada a essas jogadoras de futebol, como era ser futebolista na época. A partir da construção histórica de proibições desse esporte e do espaço de sociabilidade dado a tal modalidade feminina, procurarei identificar questões como: identidade de grupo; imagem criada em torno dessas atletas; perspectivas dentro do esporte; perspectivas sociais e financeiras, entre outras. Tais categorias são permeadas por estigmas que podem ser observados ainda hoje quando nos deparamos tanto com a memória social quanto com a realidade dessa classe de atletas na atualidade. Tendo em vista todas essas observações, concluo que ser jogadora de futebol na década de 1980 no Brasil representou muito mais que a luta pela consolidação do esporte, mas uma luta pela resistência das mulheres às normas paternalistas existentes no país.
Sabemos que o universo do futebol, bem como o dos esportes em geral, desde sua origem é predominantemente ocupado por homens. Mulheres que praticassem qualquer tipo de modalidade esportiva eram duramente julgadas em sua feminilidade. O futebol de mulheres possui apenas 30 anos de história no Brasil, se contarmos a partir da revogação em 1979 da lei que proibia as mulheres de jogarem. É fato que muitas conquistas aconteceram, podemos notálas isso através do crescente número de mulheres que praticam o futebol e da proliferação de campeonatos estaduais, nacionais e internacionais que acontecem anualmente pelo Brasil e pelo mundo. Partindo desses e de outros conhecimentos, iniciamos esta pesquisa em outubro de 2011 com o time de futebol praticado por mulheres, fundado na cidade de Foz do Iguaçu, oeste do estado do Paraná. O time, ADI/Foz Futebol Feminino, possui apenas dois anos de história. Tendo iniciado suas atividades em março de 2010, possui em seu elenco jogadoras – as Poderosas do Foz - de expressão nacional, bem como conquistas de alguns dos títulos mais importantes para o futebol praticado por mulheres no Brasil. Do contato com essas atletas questões como sexualidade, corpo, trajetórias pessoais, projetos de vida, dificuldades e preconceitos na carreira, profissão, profissionalização e migração surgiram e serão discutidas neste trabalho.
Este trabalho examina a experiência e os significados de um espaço de sociabilidade de gays e lésbicas existente em São João de Meriti em 1982. Para tanto trabalhou a partir de fontes orais, iconográficas e documentais. Na construção das fontes orais me utilizei da metodologia da história oral, enquanto que no percurso de compreensão do universo em causa me baseei nos aportes teóricos fornecidos pela sociodinâmica da estigmatização de Elias e nas dinâmicas de resistência cotidiana examinadas por Certeau. Da análise desse material ficou evidenciada não só a capacidade de protagonismo e construção de alternativas e alianças, como também o potencial criativo e lúdico entre os freqüentadores. Na abordagem das redes sociais constituídas pelo segmento das homossexualidades foi possível demonstrar sua importância estratégica não apenas como provedoras de boa auto-estima, mobilidade social, mecanismos de proteção recíproca e de ampliação da consciência política, mas, sobretudo, na formação de capital social. Na observação das estruturações de poder e prestígio presentes em formas de interação entre hetero e homossexualidades, ficou evidenciada a presença de sistemas distintos de sexo e de gênero, que organizam de modos complexos não apenas as formas de interação social e práticas sexuais, mas também, a própria espacialidade. Esses sistemas distintos significam e integram de diferentes modos as diferidas expressões sociais de gênero elaboradas pelos homossexuais de ambos os sexos. É possível, portanto, concluir que os espaços de sociabilidade de homossexuais representam importante instrumento político-social, capaz de estimular não somente a consciência e a participação política, mas também o associativismo, as relações sociais baseadas na confiança recíproca e no apoio mútuo. Constituem formas estratégicas para elaboração e disseminação de políticas e projetos de proteção social.
- Universidade Federal Fluminense
Desde 1912, inúmeros textos – romances, programas radiofônicos, histórias em quadrinhos e tiras em jornais diários, seriados cinematográficos e televisivos, filmes – produziram e articularam representações da África em narrativas envolvendo Tarzan, personagem criado pelo escritor estadunidense Edgar Rice Burroughs (1875-1950). Referenciados no nome de 'África', os textos que orbitam e habitam o nome de 'Tarzan' pertencem a uma genealogia ocidental – a partir da qual se configura a nomenclausura ocidentalista da 'África' como parte da cultura do colonialismo na modernidade – e a uma história transcultural – cujos fluxos são o objeto da economia política do nome de 'África', entendida como a circulação do nome de 'África' por diferentes paisagens culturais e coletivas. Sugiro uma leitura desconstrutiva da filmografia de Tarzan e das representações da África que nela circulam. A partir do princípio de leitura e de escritura que chamo de gráfica da transtextualidade (que substitui a lógica da contextualização), meu texto é feito de fragmentos cuja montagem pode se dar em ordem variável, para sugerir as múltiplas possibilidades de entrelaçamento das questões em jogo. A análise situa a genealogia ocidental e a história transcultural da filmografia de Tarzan em relação à clausura dialética de modernidade e colonialidade que os filmes refletem e refratam. A filmografia de Tarzan constitui um maquinário narrativo cujos gêneros dominantes são a aventura (um dos gêneros privilegiados para narrar o colonialismo) e o melodrama (um dos gêneros privilegiados para narrar a modernidade). As memórias de gênero “menores” da série do zoológico, da série do circo, da série do zoológico humano, da série do travelogue e da série do museu enxertam na narrativa fílmica elementos do “cinema de atrações” que produzem uma tensão e uma cisão da narratividade e de suas teleologias. A partir desse movimento disseminante, insinuo possibilidades de transbordamento imaginativo, abrindo, para além da nomenclausura ocidentalista da 'África', o espaçamento transcultural da escritura da 'África' como economia política do nome de 'África'.
