CEDOC
O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.
Este trabalho problematiza algumas estilizações possíveis das experiências de envelhecimento entre homens homossexuais. Inicialmente, tracei linhas de alguns campos discursivos sobre os quais a velhice e a homossexualidade estariam remetidas, considerando que tais cartografias sinalizam pistas importantes em pesquisas sobre essa temática. Desse modo, procurei demarcar um campo políticoepistemológico crítico que historicizasse e politizasse as experiências de sujeitos e grupos e os modos de subjetivações. Para acompanhar tais processos, habitei um bar gay na cidade de Florianópolis frequentado principalmente por homens mais velhos. Busquei por expressões e intensidades que reinventassem e recompusessem corporeidades, apontando que a materialidade dos corpos, apesar de estar remetida a um sistema de regulação, pode ganhar novas significações onde a abjeção (ou um fantasma de abjeção) possa ser politizada e transformar-se num instrumento de contestação política, mesmo que em instantes fugazes e de forma provisória. Considerei que os homossexuais mais velhos estariam habitando uma fronteira, um limite de um regime discursivo que estabelece, por um lado, um campo de legitimidade e de inteligibilidade e, por outro, uma zona de ininteligibilidade, um exterior constitutivo. Com esta pesquisa tentei mostrar que habitar essa fronteira discursiva que toma o corpo utópico como prerrogativa e ideal regulatório, não necessariamente constitui uma vida abjeta. Essa zona de tensão incita resistências, cria modos de vida alternativos e ativa subjetivações que reinventam e alargam os campos de inteligibilidade. Olhar mais de perto para essas vidas, para esses corpos que exibem a velhice e, ao mesmo tempo, desejam, gozam, têm tesão e inventam outras formas de experimentar o homoerotismo e a homossexualidade seria uma aposta política que desestabiliza as estratégias de homogeneização, de exclusão e de abjeção. A velhice e a homossexualidade, nesse sentido, podem ser pensadas a partir da da perspectiva da diferença e da alteridade e não a partir de critérios identitários totalizantes. As narrativas ouvidas e as afecções experienciadas durante as cartografias realizadas no território habitado apontaram para algumas formas de relação consigo mesmo, para uma territorialidade alternativa e para uma heterotopia de corpos (in)desejáveis. Muitas vezes as experiências de envelhecimento entre homossexuais podem estar remetidas a enunciados de sujeição, mas, por outro lado, pode produzir subjetivações e resistência aos ideais regulatórios contemporâneos. O homoerotismo e a homossexualidade 10 foram pensados aqui como possibilidades de potência na velhice, onde a experiência de envelhecimento possa ser vivida como uma experiência ética e estética e não como mais um modo de assujeitamento.
Esta dissertação procurou estabelecer, a partir da teoria e escuta psicanalíticas, relações entre as vivências simultâneas da maternidade e da infecção pelo HIV, em mulheres atendidas em ambulatório especializado no tratamento e prevenção do HIV/Aids, que tiveram o diagnóstico durante a gestação ou até o terceiro mês de vida do bebê. Tanto a maternidade como a doença são construções histórico-culturais, com valorações antagônicas e associadas a representações socialmente compartilhadas, produzindo efeitos de subjetivação. Enquanto que a maternidade é associada à transmissão da vida e a um ideal de amor e doação, conferindo maior valoração à mulher que se torna mãe, o vírus HIV e a Aids são associados ao adoecimento e à morte. Pessoas infectadas pelo HIV, especialmente mulheres, são consideradas promíscuas e estigmatizadas, existindo a fantasia de que mulheres que têm relações estáveis estão a salvo da infecção. No Ocidente, sob a influência de diversos saberes e do cristianismo, foi estabelecida uma dicotomia entre a maternidade e o erotismo. Assim, se a sexualidade era legitimada nos homens, a sua expressão nas mulheres era vista como sinal de desvio de conduta, visão que ainda hoje produz efeitos nas práticas e valores morais compartilhados socialmente. Freud, ao atribuir à sexualidade um lugar central na constituição do sujeito, associada aos desejos inconscientes e voltada essencialmente à obtenção de prazer, dá-lhe outro estatuto, desvinculando-a da finalidade reprodutiva, ao mesmo tempo em que restitui à mulher seu corpo erotizado. Apesar dos esforços das instituições sociais para conter a sexualidade por meio de normas, ela extravasa os limites estabelecidos. A busca de prazer coloca as mulheres em condição de maior vulnerabilidade, em decorrência das assimetrias, culturalmente justificadas e validadas, nas relações de gênero. Essa assimetria coloca grande parte das mulheres em uma posição de submissão frente ao homem, o que se evidenciou nas falas das mulheres atendidas no ambulatório. Para muitas pessoas, ainda prevalece a visão dicotômica entre a mulher recatada e a que vivencia sua 10 sexualidade livremente. As mulheres que contraem o vírus através da prática sexual, sem que tenham uma relação estável, são desqualificadas, enquanto que aquelas que foram infectadas pelos maridos, são vistas como vítimas de uma fatalidade. Assim, grande parte das mulheres atendidas, infectadas pelo vírus, temia que sua condição fosse descoberta e relutava em contar ao companheiro sobre essa condição. Tinham medo de serem abandonadas, receavam não mais poder dar expressão à sua sexualidade e muitas delas, em suas fantasias, temiam sofrer violência física. Além desses receios, comuns a outras mulheres, as gestantes expressavam medo de transmitir o vírus ao filho, o que as fazia viver um conflito, e muitas achavam que não poderiam ser boas mães, uma vez que não poderiam amamentar. Assujeitadas aos valores vigentes, elas próprias sentiam-se destituídas de valor. Propiciar a essas mulheres um espaço de fala e escuta, possibilitou a muitas delas a oportunidade de re-elaboração subjetiva de fantasias relacionadas à condição de soropositivas, proporcionando-lhes a busca de novas formas de lidar com a realidade e com o outro.
Este trabalho visa investigar discursos sobre a ação jurídica de Destituição de Poder Familiar no Brasil. DPF é uma lei civil que consiste na retirada da guarda dos pais de crianças e adolescentes em situações consideradas de extrema gravidade, tais como violência, negligência, maus-tratos e abandono. A partir do diálogo entre Psicanálise, Filosofia, Análise de Discurso e Direito, propus-me a acompanhar o plano obscuro de produção de sentidos sobre o princípio que orienta a medida de DPF: o melhor interesse da criança, o bom e o seu bem-estar. Baseando-me em Freud no Mal-estar da Cultura e Lacan no Seminário VII – A Ética psicanálise, percorri discursos jurídicos, discurso de uma política pública e também das teorias sociais críticas sobre o tema. O dispositivo metodológico utilizado foi a correlação do enunciado, advinda da Análise do Discurso francesa. Assim, o bem supremo de Aristóteles; o céu estrelado da submissão absoluta à lei moral em Kant; o bem utilitarista de Bentham; o bem da verdade da ciência positivista; e o bem cristão apareceram nas correlações de enunciado do bem-estar da criança. Ressalto, sobretudo, a ética do respeito aos fundamentos da experiência de cada sujeito humano, proposta pela psicanálise. Por considerar o sujeito um ato de resposta, o dispositivo da DPF pode ser um momento de elaboração simbólica de experiência traumática e/ou violenta. Desse modo, leva-se em conta o pedaço de real que habita o ser humano, que não cede aos formalismos do campo jurídico.
É um estudo sobre a forma como se apresenta a bruxaria para os moradores nativos da Lagoa da Conceição, uma comunidade periférica de colonização açoriana, da Ilha de Santa Catarina. Através da análise das narrativas de homens e mulheres, procura-se compreender uma dimensão do imaginário nativo subjacente às manifestações mais explícitas de sua cultura e não tornado visível pelos modelos e discursos conscientemente manipulados. Falam de um mundo feminino em que as mulheres aparecem como poderosas e ameaçadoras, corporificadas na figura da bruxa. Apesar de suas raízes na bruxaria européia medieval e moderna, a bruxaria apresenta-se na Lagoa mais do que como fragmentos que sobreviveram ao tempo ou simples explicação para as dificuldades da vida cotidiana. Ela constituiu-se em uma verdadeira cosmologia em que os nativos falam de seu mundo e de si mesmos.
- Universidade Federal de Santa Catarina
- Mestrado
Trata-se de um estudo etnográfico sobre as relações de poder travadas entre empregadas domésticas e seus empregadores, baseado em trabalho de campo realizado no Espírito Santo entre 1996 e 1998. A partir de um quadro conceitual definido por Shellee Colen e James Scott, analisamos essas relações em termos de um sistema de reprodução estratificada, levando em conta tanto a desigualdade política e a exploração, quanto a funcionalidade dessa relação para ambas as partes. Através da observação participante, tivemos acesso aos códigos encobertos tanto das trabalhadoras quanto de seus empregadores, mostrando que uma mistura particular de afeto, desigualdade e rebeldia mantem estas relações na sociedade brasileira.
- Universidade Federal do Rio Grande do Sul
- Doutorado
