CEDOC
O Centro de Documentação reúne um conjunto de materiais digitais e físicos do campo dos estudos de gênero, feminismos e sexualidades. Destacamos o Acervo Tito Sena, livros editados pelo IEG, a coleção Revista Estudos Feministas, entre outras.
Buscando os -elementos que tecem o texto de Corações Mordidos, uma análise de cunho interpretative enfocou o romance sob dois aspectos; o temático e o formal. A partir do tema central - o duplo, foram analisados e interpretados o papel do narrador e os desdobramentos das personagens. Assinalou-se tambem a ambigüidade do tema e sua relação com o todo do romance. Usando o procedimento comparativo, num estudo intertextual procurou-se estabelecer a analogia entre o texto de Corações Mordidos e outros textos, especialmente aqueles citados na própria narrativa. Comprovou-se a técnica da construção em abismo, expressa na narrativa, pela presença do romance dentro do romance e pelo gesto da ficção se recriar em seu interior num jogo de espelhamentos. Procurou-se dar relevância ao processo de criação litrâria, que insere no espaço ficcional o auto-questionamento do texto, procedimento este que persiste na obra de Edla Van Steen.
No presente artigo,1 buscarei refletir sobre uma família recomposta homoparental feminina da periferia da cidade de São Paulo, no que concerne à conjugalidade, ao relacionamento com as filhas, com a família extensa e com o ex-marido. Analisam-se possíveis variáveis que influenciam na forma como a lesbianidade é tratada e vivida e como diferentes posições relativas à questão podem levar a distintos arranjos familiares. No caso enfocado, a vivência de uma militância política e a concepção de lesbianidade como “condição” levam a uma publicização da mesma que terá repercussões na configuração dessa família. Por fim, partindo de uma consideração acerca dos dados etnográficos pesquisados, repenso a própria noção de lesbianidade e de pluriparentalidade.
- Estudos Feministas, vol. 14, n.2
O tema condutor do trabalho é a “homossociabilidade masculina” e “cultura urbana” de “tradição mediterrânea”, como campo cosmológico de práticas sociais na periferia metropolitana da região da Grande Florianópolis, no Estado de Santa Catarina. O texto ampara-se no recurso da análise simbólica antropológica sobre os processos de urbanização e migração que se constituem como práticas sociais a partir de um campo moral mediterrâneo que define o tom de vida cotidiana em algumas comunidades, caracterizadas pelo crescimento urbano acelerado e pela concentração demográfica de populações imigrantes. Os principais dados de análise dos contextos de interações sociais foram coletados a partir do método etnográfico de pesquisa e analisados à luz da literatura antropológica sobre sociedades complexas e contextos urbanos, cosmologia, gênero e povos mediterrâneos da Espanha, Portugal, Grécia, Egito, Chipre e Argélia. O foco da experiência etnográfica foi centrado na convivência cotidiana do pesquisador com alguns percursos sociais de dois “chefes de família” imigrantes, oriundos de regiões de tradição rural, que se estabeleceram num dos municípios da região pesquisada. Os principais argumentos da tese problematizam os aspectos que caracterizam algumas singularidades culturais brasileiras, levando em consideração contextos de interações sociais orientados exclusivamente pela tradição mediterrânea originária, ponderando sobre o que se supõe ser “originalmente brasileiro”.
Este trabalho tem como objetivo apresentar a possibilidade de uma revista, destinada ao público feminino, servir como “lugar de memória” (Pierre Nora). Para tanto, formou-se um grupo com três mulheres que foram leitoras da revista Capricho nas décadas de 1950 e 1960, onde elas puderam folhear exemplares da revista da época citada. As memórias das três entrevistadas me deram o “sumário” desta tese. Suas falas lançaram faróis diante de alguns temas, como a publicidade e as fotonovelas. Dessa forma, dividi este trabalho em duas partes. A primeira, que compreende o capítulo 1, está relacionada ao primeiro momento de minha pesquisa, ao contato que tive com minhas três entrevistadas. Neste capítulo discuto dois grandes temas: memória e as possíveis relações estabelecidas entre leitoras e revistas. A segunda parte desta tese é composta por dois capítulos: um sobre fotonovela e outro sobre publicidade. A fotonovela foi referida, por todas elas, como sendo o grande motivador para a compra da Capricho. Neste capítulo conto um pouco da história deste tipo de narrativa sentimental, num segundo momento abordo a relações entre leitoras e fotonovelas, tecendo discussões sobre as heroínas, os heróis, o amor, os códigos morais e de conduta, entre outras questões. A publicidade foi o maior desencadeador de memórias. No capítulo dedicado a esse tema discuto a possibilidade que a publicidade abre para a análise dos papéis sociais que se espera que sejam desempenhados por mulheres e homens de uma determinada época. Apresento reflexões acerca da publicidade como fonte de informação, na seqüência, desenvolvo uma discussão sobre a relação entre os anúncios e os cuidados de si e os cuidados do outro, seguido por ponderações sobre as imagens das mulheres que ilustram as publicidades. Importante ressaltar que todos os temas que discuto ao longo desta tese: memória, práticas de leitura, fotonovela e publicidade, têm como pano de fundo as categorias gênero e subjetividade. Através desta pesquisa foi possível vislumbrar uma forma de acesso através das revistas, memórias e narrativas a aspectos relacionados à história das mulheres e das relações de gênero. Ficando, também, evidenciado que a revista Capricho além de um “lugar de memória” compreende um espaço de contribuição para a constituição de subjetividades de mulheres de diferentes épocas.
Uma proposta de leitura de um romance que conta quinhentos anos de história do Brasil ou quinhentos anos de história das mulheres no Brasil. Refiro-me à obra A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas, de Maria José Silveira, publicada em 2002. Observa-se, na estrutura do romance, a relação que a autora estabelece entre ficção e história, num jogo bem undido entre vinte personagens mulheres. Apresento, desse modo, uma reflexão que incide sobre as tais personagens e o período histórico em que viveram. Entram em pauta debates morais, nos quais se afirma a periculosidade dessa prática e que resultam numa série de acontecimentos recolhidos, agrupados, organizados, de modo a constituir um anel de uma grande cadeia de fatos históricos. A cintilação destes, sem lei aparente, choca-se, mistura-se e comanda-se reciprocamente em torno de cada mulher, em cada momento de sua vida. Uma reconstituição da chegada dos portugueses ao Brasil, de 1500 até o século XXI. Ou seja, de Inaiá a Maria Flor. Entre elas, uma história de revolução constante, paciente, obscura e prudente, talvez.

